terça-feira, 31 de outubro de 2017

Eric Rohmer – “A Árvore, o Presidente e a Mediateca” / “L’Arbre, Le Maire et Le Médiathéque”


Eric Rohmer – “A Árvore, o Presidente e a Mediateca” / “L’Arbre, Le Maire et Le Médiathéque”
(França – 1993) – (105 min. / Cor)
Pascal Greggory, Arielle Dombasle, Fabrice Luchini, Clémentine Amouroux, François-Marie Banier.

“A Árvore, o Presidente e a Mediateca”, de Eric Rohmer, é um verdadeiro “ovni” no interior da  filmografia deste cineasta francês, tendo sido realizado logo a seguir à feitura de “Conto de Inverno”.
Nesse ano de 1993 Eric Rohmer decidiu oferecer-nos a sua visão do interior da França, partindo da célebre oposição cidade/campo.
Julien Dechaumes (Pascal Greggory) é um Presidente de Câmara Socialista, que sabe não ter hipóteses de ser célebre em Paris, decidindo permanecer na província, onde desenvolve a sua actividade partidária, embora passe a maior parte do tempo na capital Parisiense, pretendendo instalar na cidade onde exerce funções uma enorme Mediateca, símbolo do progresso, num terreno onde se encontra uma árvore milenária.


Iremos assim assistir aos preparativos da construção desse grande empreendimento, que até possui financiamento do Governo, graças aos seus bons conhecimentos no interior do Partido, porém uma voz irá levantar-se contra esse projecto: Marc Rosignol (Fabrice Luchini) professor na pequena cidade.
Embora saiba que a sua luta para impedir a descaracterização da região se encontra votada ao fracasso, Marc Rosignol não desiste de defender os seus pontos de vista e quando é entrevistado por uma jornalista de uma revista, convidada pelo próprio Presidente de Câmara, a sua mensagem surge muito mais sedutora, acabando por se transformar na vedeta da publicação dedicada ao assunto, relegando para plano secundário a outra entrevista dada por Julien Dechaumes, fruto desses anos em que o movimento ecologista dava os primeiros passos.


Em “A Árvore, o Presidente e a Mediateca” / “L’Arbre, le maire et la médiathèque”, Eric Rohmer oferece-nos o confronto entre duas visões do denominado progresso, tomando o cineasta partido pelo campo, em oposição à cidade, ao mesmo tempo que nos apresenta uma película de ficção, que vai beber a sua essência ao documentarismo, veja-se aliás a forma como o Arquitecto nos apresenta o projecto numa conversa com o Presidente de Câmara ou as entrevistas que a jornalista Blandine Lenois (Clémentine Amouroux), faz aos habitantes da pequena cidade de província.


Mais uma vez Eric Rohmer mantém-se fiel ao seu estatuto de autor, construindo um filme com um argumento mínimo, mas bastante “palavroso”, no bom sentido da palavra, como é seu hábito, ou não fosse ele conhecido como o cineasta da palavra, oferecendo-nos uma reflexão sobre os caminhos do denominado progresso e as lutas que ele desperta.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Todd Haynes – “Seguro” / “Safe”


Todd Haynes – “Seguro” / “Safe”
(EUA – 1995) – (119 min. / Cor)
Julianne Moore, Peter Friedman, Xander Berkeley, Susan Norman.

Todd Haynes deu nas vistas em 1991 no Festival de Sundance, com a sua primeira película intitulada “Poison” / “Veneno”, que nos oferecia três histórias: Hero, Horror e Homo, sendo esta última baseada numa novela de Jean Genet. Quando em 1995, o cineasta decidiu fazer a sua segunda longa-metragem, intitulada “Safe” / “Seguro”, iria mais uma vez surpreender o público, que ao ver o nome de Julianne Moore no elenco, aderiu de imediato ao filme, desconhecendo estar perante uma obra que interrogava a existência contemporânea.


“Seguro” / “Safe”, conta-nos a história de Carol White (Julianne Moore), que possui tudo para ser feliz: um marido carinhoso, uma bela casa, tipicamente californiana e sem problemas económicos. No entanto ela não se sente feliz e começa a temer pela sua vida desenvolvendo alergias ao meio-ambiente, não encontrando ninguém, explicação para o seu estado de apatia e medo de sair de casa, porque lá fora o mal a pode contaminar. Desenvolve então um problema de pele, ao mesmo tempo que as dores de cabeça a invadem de forma violenta, passando as noites a ver televisão, como se estivesse hipnotizada pelas imagens. Preocupado com o estado da esposa, o marido, decide interná-la numa dessas clínicas ”New Age”, (tão do agrado de alguns), onde os médicos fazem diagnósticos complexos e desenvolvem tratamentos incomuns para fazerem regressar o bem-estar aos seus pacientes. No entanto, apesar de todos os esforços dos terapeutas e do próprio marido, que ama profundamente a mulher, o seu estado de saúde agrava-se de dia para dia, chegando ela a temer o próprio ar que respira.


Todd Haynes em “Seguro” / “Safe”, apresenta-nos o seu diagnóstico sobre a vida contemporânea, numa alegoria ao vírus do século xx, conhecido como sida, ao mesmo tempo que nos alerta para as contradições existentes no tão propalado sonho do “american way of life”. A interpretação de Julianne Moore é soberba, conseguindo contagiar o espectador com os seus medos e receios, desses vírus que a atingem e que ninguém consegue identificar. Esta película acabou por nos revelar um autor, cujos filmes seguintes irão comprovar o seu enorme talento.

domingo, 29 de outubro de 2017

Tom Jones e Marte Ataca!!!


Mike Nichols - “Jogos de Poder” / “Charlie Wilson’s War”


Mike Nichols -  “Jogos de Poder” / “Charlie Wilson’s War”
(EUA – 2007) – (97 min. / Cor)
Tom Hanks, Julia Roberts, Philip Seymour Hoffman, Amy Adams, Ned Betty, Emily Blunt.

“Charlie Wilson’s War” / “Jogos de Poder” de Mike Nichols oferece-nos um retrato dos políticos americanos e do seu Congresso, nada brilhante. É certo que estamos face a uma “comédia” baseada em factos verídicos, segundo um argumento de Aaron Sorkin, mas se pensarmos como tudo se passou ficamos, na verdade, perplexos.


Quando a então União Soviética invadiu o Afeganistão, este país estava longe, mesmo muito longe, de ser primeira página nos jornais e mesmo a própria CIA via esta intervenção externa, do seu inimigo de sempre num país soberano, como um assunto mais que secundário. Mas em Washington, um político chamado Charlie Wilson (Tom Hanks) não pensava da mesma forma, decidindo fazer a sua própria guerra. O que estava então em causa era a chamada Guerra-Fria, depois o anti-comunismo primário que sempre se fez sentir fez o resto ou seja a angariação de fundos levada acabo por uma milionária Texana chamada Joanne Herring (Júlia Roberts), conseguiu obter verbas fabulosas para armar os pequenos grupos de resistentes que habitavam as montanhas afegãs.


Estamos assim perante aquele tipo de actividades que muitas vezes eram desconhecidas do próprio Congresso, de tal forma elas eram secretas, certamente alguns de nós ainda estão recordados do caso Oliver North. Mas, nesta "guerra privada de Charlie Wilson", os resultados acabariam por ser excelentes para a política externa norte-americana, para muitos anos depois o feitiço se virar contra o feiticeiro e criar um monstro que irá provocar um dos maiores atentados de sempre em território norte-americano..
Tom Hanks ao encarnar a figura do político Charlie Wilson está como peixe na água, algo que já não víamos há muito e assim vamos encontrar um homem amante da boa vida e cujo “staff” é todo feminino, a mergulhar num mundo que lhe era de todo alheio, depois de ter visto umas reportagens numa cadeia de televisão.


A forma como Mike Nichols nos oferece os meandros da guerra, onde muitas personagens secundárias eram mais que principais (caso do Paquistão), leva-nos na verdade a pensar no mundo em que vivemos e na forma como a política é cada vez mais alicerçada em bases tão frágeis que mais tarde ou mais cedo acabam por ruir.
Sempre com um olhar mordaz sobre os acontecimentos, Mike Nichols vai falando de coisas muito sérias e qualquer um de nós percebe que todas aquelas armas fornecidas à guerrilha afegã servem hoje para combater os próprios americanos, num terreno que se tornou um verdadeiro pântano. Na época os célebres "stinger" fizeram grande sucesso frente aos helicópteros soviéticos, aliás veja-se a forma como o cineasta nos mostra esse sucesso da tecnologia. Com a saída dos soviéticos do Afeganistão e a vitória de Charlie Wilson acabou de certa forma a denominada Guerra-Fria, pois logo a seguir cairia o Muro de Berlim, para espanto da própria CIA. Mas o que é importante realçar é que, depois da vitória, o dinheiro para reconstruir um país deixou de existir e como todos sabemos os célebres estudantes de Teologia, mais conhecidos por Taliban, iriam tomar conta daquela zona.

O que falhou nesta guerra de Charlie Wilson em que deixou de haver verbas para construir uma simples escola, depois de se terem gasto milhões de dolares num verdadeiro efeito "bola de neve", com as verbas sempre a duplicarem é uma verdadeira lição para todos e Mike Nichols mostra-nos isso mesmo, porque os célebres donativos da milionária de Houston, Joanne Herring, deixaram de existir, ao mesmo tempo que o Congresso tinha outras preocupações, porque o objectivo era derrotar os soviéticos e nunca ajudar um povo a reconstruir um país.

Mike Nichols

“Jogos de Poder”/ “Charlie Wilson’s War”  oferece-nos por outro lado uma excelente direcção de actores, onde Philip Seymour Hoffman veste de forma perfeita o agente da CIA, que incomoda a própria direcção da Agência devido à sua forma de estar e que, ao ser posto de lado pelos superiores, mergulha nesta guerra ao lado do político e da milionária. Já Júlia Roberts agarra bem o papel, embora a sua prestação seja bastante reduzida.
Mike Nichols, um cineasta que conviveu com o sistema dos Estúdios durante longas décadas (ele era oriundo do Teatro), consegue levar a bom porto este “Jogos do Poder” / “Charlie Wilson’s War”, oferecendo-nos uma imagem da classe política e do mundo contemporâneo, que nos deixa perplexos, porque mesmo que tenhamos um sorriso na cara após o visionamento da película, sabemos que a brincar se vão contando as verdades dos factos e depois ao vermos as notícias do mundo no pequeno écran e após escutarmos os “grandes dirigentes” deste planeta, só podemos temer o pior... 

sábado, 28 de outubro de 2017

Mudança da hora!


Esta madrugada de domingo, quando forem 2h00, 
atrase o seu relógio uma hora 
e entre assim no horário de Inverno.
Aproveite este dia de 25 horas!

Robert Luketic – “Uma Sogra de Fugir” / “Monster-in-Law”


Robert Luketic - “Uma Sogra de Fugir” / “Monster-in-Law”
(EUA - 2005) – (102 min. / Cor)
Jane Fonda, Jennifer Lopez, Michael Vartan, Wanda Sykes.

Pode ver aqui o trailer do filme.

Todos nós sabemos como um dia Robert de Niro decidiu ser “Um Sogro do Pior” / “Meet the Parents”, oferecendo-nos uma comédia fabulosa, que até originou uma sequela e também nessa película conhecemos a sua “mulher”, muito diferente dele. Se um dia nos deparasse pela frente uma sogra igual a ele seria de fugir a sete pés. Porém, não tivemos de esperar muito porque Jane Fonda decidiu vestir a pele de Bob de Niro no feminino, tornando-se numa sogra de fugir, que o diga a Jennifer Lopez.


Estávamos assim não perante mais uma comédia, mas sim face ao regresso de Jane Fonda ao grande écran, depois de uma ausência de 15 anos. Uma década e meia depois da actriz, ainda, nos surpreender nessa obra-prima de Martin Ritt “Para Íris Com Amor” / “Stanley & Íris”, ela volta a dar cartas, como a grande Senhora que todos conhecemos, deixando aeróbicas de parte e Ted Turner para trás. Esta divertida comédia intitulada “Uma Sogra de Fugir” / “Monster-In-Law”, revela-se uma saborosa comédia do australiano Robert Luketic, que já nos tinha oferecido anteriormente uma “Legalmente Loura” / “Legally Blonde” chamada Reese Witherspoon.


Para acompanharmos as diabruras desta sogra foram convocados para seu filho Michael Vartan, que já tinha dado boas indicações nessa obra fabulosa de Mark Romanek “One Our Photo” / “Câmara Indiscreta”, um magnifico ensaio sobre a solidão, onde Robin Williams brilhava, sendo o Michael o marido infiel de Connie Nielsen, como alguns devem estar recordados. Depois, para compor a figura da nora perseguida nada melhor do que Jennifer Lopez, repetindo um papel já interpretado no cinema como “cinderela”. Ela é Charlote Cantilini ou Charlie para os amigos se preferirem. Tem como profissão passear os cães dos ricos pela praia de Venice, na bela Santa Mónica, e será aí que se irá encontrar com o belo e rico médico cirurgião Kevin Fields (Michael Vartan) dando-se então início ao amor provocado pela célebre seta do Cupido e tudo irá correr bem até esse famoso dia em que ela irá conhecer Viola (Jane Fonda) a futura sogra.


Vamos então assistir ao show de Jane Fonda na figura dessa temível sogra que tudo fará para destruir o casamento do filho. Pela frente ela é só doçuras, nunca hesitando no comentário depreciativo cheio de charme, para demonstrar à futura nora que ela se enganou no número da porta, o seu querido filho nunca poderá casar com uma mulher como Charlie e actuando desta forma, Viola, sempre mergulhada em calmantes, irá tudo fazer para demonstrar a Kevin como ele escolheu a mulher errada e que mesmo que ela fosse a última mulher ao cimo da terra nunca poderia contrair matrimónio com ele.
A actuação de Jane Fonda é de tal forma electrizante, que nos esquecemos da presença de Jennifer Lopez, os seus ataques de fúria perfeitamente descontrolados são perfeitos e depois temos a sua assistente Ruby (Wanda Sykes), sempre pronta a deitar “água na fervura”, não vá o “caldo entornar à vista de todos”. Surge então esse momento sublime da recepção em que a querida sogra compra um vestido para a futura noiva, fazendo sobressair de forma escandalosa o corpo de Jennifer Lopez.


Encontrar Jane Fonda nesta comédia é uma perfeita delícia, porque como sabemos ela não necessita de provar nada, todos conhecemos o seu talento, basta recordar filmes como “Julia”, “Os Cavalos Também se Abatem” / “They Shoot Horses, Don’t They?”, “Klute” ou “Descalços no Parque” / “Barefoot in the Park” e ficamos por aqui porque a lista é longa. A Jane que um dia rodou “Tout va Bien” ao lado de Yves Montand, assinando no filme o seu contrato, ou a erótica “Barbarella”, fazem parte integrante do seu curriculum, já para não falar dessa ida polémica a Hanói, em plena guerra do Vietname, para ser fotografada em cima de um tanque, escandalizando a América e a família. Essa família Fonda tão desavinda e tão talentosa, ou não fosse ela filha de Henry Fonda e como todos sabemos filha de peixe sabe nadar, que o digam o irmão Peter Fonda e a sobrinha Bridget Fonda. Curiosamente seria com “Uma Casa no Lago” / “On Golden Pond”, que essa família talentosa mostraria ao mundo, como o passado não pode interferir com o presente. Aliás foi ela quem foi receber o Oscar atribuído ao pai, já que ele se encontrava doente em casa.


Regressando a “Uma Sogra de Fugir” somos obrigados a reconhecer que estamos perante um “One Woman Show”, porque ela é o filme, chegando por vezes a obrigar-nos a recordar os tempos dessa Hollywood das “screwball comedy”, em que pontificaram Carole Lombard e Gregory La Cava. Infelizmente o realizador de “Monster-In-Law”, não possui a arte de La Cava, embora não interfira de forma alguma com o talento de Jane Fonda. Ela enche o écran, fazendo-nos esquecer os seus partenaires, nora e filho, ou melhor Jennifer e Michael, embora tenha em Wanda Sykes uma actriz à altura para responder com charme e humor a todas as suas réplicas, tornando desta forma “Uma Sogra de Fugir” uma comédia no feminino, cheia de humor.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Frank Darabont - “Os Condenados de Shawshank” / “The Shawshank Redemption”


Frank Darabont  - “Os Condenados de Shawshank” / “The Shawshank
Redemption”
(EUA – 1994) – (142 min. / Cor)
Tim Robbins, Morgan Freeman, Bob Gunton, William Sadler, Clancy Brown.

“Os Condenados de Shawshank” / “The Shawshank Redemption” é uma película que depois de ser vista nunca mais se esquece e a forma como ela se tornou célebre é prova disso mesmo, porque não foi a critica especializada a fazer o seu elogio, mas sim o público, que falava dela, transformando-a num verdadeiro “cult-movie”.


Frank Darabont ao adaptar o conto de Stephen King ao cinema, encontrou em Tim Robbins o actor perfeito para encarnar a figura do banqueiro Andy Dusfrene, condenado por matar a mulher e o amante dela, sendo enviado para uma das mais temíveis cadeias de todo o sistema prisional norte-americano e será precisamente aí que todo o filme se irá desenrolar, para assistirmos ao verdadeiro calvário de Andy, ficando implícita a violação de que será vítima. No entanto ele irá estabelecer uma relação especial com os guardas prisionais e o director da cadeia, tratando das suas declarações de impostos, ao mesmo tempo que lhes ensina como se consegue fugir ao fisco, passando rapidamente a ser o responsável pela aplicação das suas finanças. Ao mesmo tempo a amizade que irá travar com Red (Morgan Freeman), outro prisioneiro do estabelecimento, bem conhecedor do terreno, irá proporcionar-lhe o conhecimento e a camaradagem entre iguais, embora sejam oriundos de extractos sociais bem diferentes.


A forma simples como Frank Darabont nos narra a vida destes dois homens é na verdade contagiante e quando percebemos que Andy (Tim Robbins), ao longo dos anos prepara de forma minuciosa a sua fuga do estabelecimento prisional, nunca perdendo a esperança de voltar a respirar o doce sabor da liberdade, contribuiu para criar no espectador o interesse no desenrolar dos acontecimentos.


As interpretações de Tim Robbins e Morgan Freeman são memoráveis, apresentando-se o argumento de Frank Darabont muito bem escrito, conduzindo-nos a esse momento mágico em que os dois homens se encontram na praia muitos anos depois.
“Os Condenados de Shawshank” de Frank Darabont termina por se revelar uma das melhores películas de sempre, nesse sub-género, que é o filme de prisão, com as inevitáveis tentativas de fuga, umas fracassadas e outras bem-sucedidas.

Joel Coen e Ethan Coen - “Fargo”


Joel Coen e Ethan Coen - “Fargo”
(EUA – 1996) – (98 min. / Cor)
William H. Macy, Frances McDormand, Steve Buscemi, Peter Stormare, Kristin Rudrud, Harve Presnell.

Pode ver aqui o trailer do filme.

“Fargo” é sem margens para dúvidas a obra-prima absoluta de Joel e Ethan Coen e logo no início da película mergulhamos no interior da memória do “film noir”, numa perfeita homenagem ao género, ao vermos na neve um carro a aproximar-se com um atrelado, rebocando um outro veículo, ao mesmo tempo que sentimos o ambiente gélido pontuado pela excelente banda sonora de Carter Burwell.


Jerry Lundergaard (William H. Macy) dirige-se a um encontro com dois ex-reclusos, para combinar o rapto da sua própria mulher (Jean Lundergaard, uma típica dona de casa americana), para o respectivo resgate ser pago pelo pai dela, o temível e esperto Wade Gustafson (Harve Presnell), que nunca gostou do genro e desconfia que este se encontra atolado em dívidas. O resgate é um sucesso, mas a violência irá surgir de imediato, com um triplo homicídio: um polícia e um casal de automobilistas que se encontrava num local indesejado para os raptores, à hora e dia errado.


Iremos de imediato perceber como estes dois raptores, enquanto esperam pelo resgate, também não morrem de amores um pelo outro. Já a chefe da polícia local, Marge Gunderson (Frances McDormand, que obteve o Oscar para a Melhor Interpretação Feminina), que se encontra grávida, irá tomar conta do ocorrido iniciando as investigações, junto da população explorando as diversas pistas de forma aparentemente ingénua, mas de uma acutilância bem reveladora do seu cargo, irradiando simpatia e falsa inocência, perante o incauto Jerry Lundergraad (William H. Macy), que termina por se denunciar, ao fugir durante a conversa com a agente.


A forma como Joel e Ethan Coen (Oscar para o Melhor Argumento Original), nos retratam os ambientes das “little towns” e a vida das suas gentes, a acção decorre no Estado do Dakota do Norte, termina por se revelar uma viagem sociologicamente perfeita, ao mesmo tempo que todas as vertentes que caracterizam o denominado “film noir” nos vão surgindo ao longo da película. “Fargo” consegue, desde o primeiro minuto, prender a atenção do espectador, que ao acompanhar o desenrolar dos acontecimentos, irá ser confrontado com a inépcia dos raptores, que usam a violência de forma gratuita, revelando uma falta de preparação para gerir os diversos acontecimentos.


“Fargo” de Joel e Ethan Coen oferece-nos assim um retrato profundo dos pequenos criminosos e desses delitos, que acontecem no interior da América profunda, tantas vezes retratados no cinema e infelizmente notícia nas cadeias de televisão de todo o mundo, optando os irmãos Coen por introduzir elementos do quotidiano de uma comunidade para pontuar todo o filme, veja-se aliás como nos é dada a relação conjugal entre a Xerife Marge e o marido, passando pelo encontro dela com o antigo colega de escola que se encontra apaixonado.
Com o passar dos anos “Fargo” permanece uma película de uma frescura e de um saber cinematográfico verdadeiramente memoráveis, ao mesmo tempo que conta com interpretações inesquecíveis de todos os seus intervenientes, por mais curto que seja o seu papel. Estamos assim perante uma obra-prima absoluta da dupla Joel Coen e Ethan Coen.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

James Gray – “Viver e Morrer em Little Odessa” / “Little Odessa”


James Gray – “Viver e Morrer em Little Odessa” / “Little Odessa”
(EUA - 1994) – (98 min. / Cor)
Tim Roth, Edward Furlong, Mora Kelly, Maximilian Schell, Vanessa Redgrave.


Filmar em scope uma obra tão intimista como "Little Odessa", de uma forma tragicamente bela, só pode ser fruto de um realizador amante profundo da Sétima Arte. E quando há a tentação de comparar James Gray com Quentin Tarantino, isso será injusto para ambos devido à singularidade das suas propostas, apesar de algumas linhas comuns, já que são mais as diferenças do que as semelhanças.


A ida de Joshua (Tim Roth - magnífico) a Little Odessa para mais um "trabalho" – matar um joalheiro iraniano – surge como o regresso a casa e o inevitável reencontro (in)desejado com a família: o pai (Maximilian Schell), a mãe (Vanessa Redgrave) e o irmão (Edward Furlong). Mas se por um lado estamos no sub-mundo dos gangs, no caso concreto emigrantes russos que fizeram da América a sua nova casa, por outro lado descobrimos surpreendidos a verdadeira face da tragédia Shakespeariana, filmada de uma forma transcendental e mítica, alicerçada numa banda sonora devedora da música religiosa do compositor Arvo Part (1), introduzindo o clima de perdição, que atinge Joshua no adeus definitivo ao seu pequeno mundo – depois de perdidos o irmão, a mãe e a rapariga talvez amada – conduzindo-o sem redenção à sua solidão de assassino.


Possuidor de uma fotografia enriquecedora pela mão de Tom Richmond e a sempre excelente interpretação de Vanessa Redgrave e Maximilian Schell, "Little Odessa" tem em Tim Roth o ás que já conduziu James Gray à porta de entrada da indústria (2), depois deste seu primeiro filme independente – vencedor do Leão de Prata de Veneza – perturbador dos sentidos e amante das tragédias da alma.


(1) - Em "Gerry" de Gus Van Sant a banda sonora é da autoria também de Arvo Part e do seu fabuloso "Alina"...editado na ECM.

(2) – A película seguinte de James Gray foi "The Yards" / “As Teias da Corrupção”, com Mark Wahlberg, Joaquim Phoenix e Charlize Theron, que está a ser exibido com regularidade num canal por cabo..

domingo, 22 de outubro de 2017

George Miller – “Mad Max Para Além da Cúpula do Trovão” / “Mad Max Beyond Thunderdome”


George Miller – “Mad Max Para Além da Cúpula do Trovão” / “Mad Max Beyond Thunderdome”
(Austrália/EUA - 1985) – (107 min. / Cor)
Mel Gibson, Tina Turner, Bruce Spence, Adam Cockburn.


"Mad Max" surgiu pela primeira vez em 1979, tendo sido premiado no Festival de Alvoriaz (França) e transformado de imediato num "cult-movie". Na época, o realizador George Miller e o actor Mel Gibson viram assim chegar a consagração internacional, tornando-se o primeiro num dos membros de uma nova geração de cineastas Australianos, nos quais se incluem Peter Weir, Bruce Beresford, o outro George Miller e Gillian Armstrong, que viram Hollywood abrir-lhes as suas portas; o segundo como todos sabemos tornou-se um dos actores mais bem pagos de Hollywood, tendo depois optado por uma carreira de realizador, que lhe viria a proporcionar a conquista do Oscar na categoria, para depois se tornar num cineasta bastante controverso.


Antes de avivarmos a memória com o capítulo III de "Mad Max", nunca é demais recordar que este George Miller é o responsável por um dos episódios de "Twilight Zone" / "No Limiar da Realidade" "feito em quarteto" com Stevn Spielberg, John Landis e Joe Dante, tendo mais duas obras suas feito história, o célebre "As Bruxas de Eastwick" (com um Jack Nicholson Diabo fabuloso e aquele trio de senhoras: Michel Pfeifer, Cher e SusanSarandon) e o terno "Lorenzo's Oil" / "Milagre de Amor" novamente com a Susan Sarandon e o Nick Nolte.
Após a feitura de "Mad Max II", a saga do futuro e o seu herói estavam lançados e muitos anos se passaram entre o segundo e o terceiro capítulo denominado "Mad Max Além da Cúpula do Trovão" / "Mad Max Beyond Thunderdome". A realização foi compartilhada por George Miller e George Ogilvie, continuando assim a colaboração iniciada com a série "The Dismissal", realizada para o pequeno écran.


No início de "Mad Max Beyond Thunderdome", o nosso herói continua a sua caminhada pelo deserto do pós-apocalipse, sendo assaltado e roubado, partindo então em busca do assaltante e de Entity (Tina Turner) rumando a "Bartetown" – a célebre Cidade Feira.
Neste reencontro com a "civilização", que vive numa época, de certa forma, feudal o herói do futuro envia-nos para dois confrontos significativos: o duelo na cúpula do trovão e a perseguição de Entity e os seus guerreiros. Se o primeiro é invocador do denominado “Peplum”, já o segundo é a memória do "Western". Entre estas duas sequências reside o elemento fundamental da película: Max com a tribo de crianças, que pensam ter reencontrado o Capitão Walker que as tinha salvo do Apocalipse. A História acabará por introduzir no imaginário das crianças a memória da civilização e a esperança num futuro melhor, ainda longínquo, após o conhecimento da barbárie, que Max lhes proporciona directamente.



As Aventuras do pós-apocalipse de Mad Max, não possuem qualquer ligação com "The Postman" de Kevin Costner, porque o segundo é um herói do passado, enquanto Mad Max permanece o herói do futuro, que por vezes se avizinha, neste século XXI.

sábado, 21 de outubro de 2017

Brad Silberling – “Sonhos Desfeitos” / “Moonlight Mile”


Brad Silberling – “Sonhos Desfeitos” / “Moonlight Mile”
(EUA – 2002) – (120 min. / Cor)
Dustin Hoffman, Susan Saradon, Jake Gyllenhaal, Ellen Pompea, Helen Hunter.

Muitas vezes nos interrogamos de como é feito o cinema norte-americano nos dias de hoje e a resposta está precisamente em “Sonhos Desfeitos” / “Moonlight Mile”, onde um elenco sólido constituído por actores, com provas mais que dadas, se “oferecem” para integrar um elenco em que o argumento é o elemento chave do filme. Nele, as imagens que nos são dadas numa leitura do trabalho dos sentimentos entram em choque com a vontade interior de cada um dos protagonistas. Todos tinham um futuro radioso e o casal Floss (Dustin Hoffman e Susan Sarandon) recebia feliz o jovem que iria casar com a sua filha, mas o assassínio desta nas vésperas da tão desejada cerimónia irá transformar por completo as suas vidas, embora o fim da relação até tivesse chegado primeiro, do que as balas do assassino e esse era o segredo de Joe Nast (Jake Gyllenhaal).


“Sonhos Desfeitos” é um filme de Brad Silberling, que investiu muito da sua própria vida nesta película e dizemos isto porque, tal como sucede no filme, a actriz Rebecca Schaeffer, namorada do cineasta, foi vitima dessa mesma violência que se abateu sobre a filha do casal Joss e tal como eles o cineasta viu o seu mundo ficar em estilhaços. A actriz que começava a dar nas vistas foi assaltada no seu apartamento por um louco, que primeiro a ameaçou com uma pistola e depois lhe pediu um autógrafo, ela pensou que tudo iria ficar bem, mas este decidiu baleá-la no estômago e ela faleceu à porta de sua casa em Hollywood. O assaltante fugiu depois para a "freeway" de L.A. em busca da morte, mas acabou por ser preso.


“Moonlight Mile” trata precisamente do luto que atinge uma família cuja perda de uma filha de forma violenta é um acto irreparável, cujas marcas ficam para sempre na memória. Só que no caso de “Sonhos Desfeitos”, ficamos a saber que na véspera do casamento ela decide acabar com a relação que mantinha com o namorado e, ao morrer, esse segredo parte com ela. Joe passa então a ser encarado pelos "sogros" como o elemento que irá preencher a ausência da filha. Todos os planos estabelecidos por eles irão continuar de pé e Joe Nast passará a representar o "filho adoptivo", porque ele tem todas as condições para preencher esse lugar vago deixado na vida, pela filha assassinada. Assim o casal Joss decide oferecer a Joe Nast o destino que tinham traçado para ele, nada será alterado.


Estamos perante um trabalho de luto que o realizador já nos tinha oferecido de certa forma com a sua obra anterior “A Cidade dos Anjos” / “City of Angels”, “remake” americano do célebre filme de Wim Wenders, "As Asas do Desejo" / "Der Himmel Uber Berlin", podendo até ser encarada a forma delicada como o cineasta trabalha o conceito de morte e a vida para além dela, uma das suas características, como já sucedia com “Casper”, outra película sua (destinada ao público juvenil, mas não só), demonstrando como esse tema está bem presente nos seus filmes.
Brad Silberling iniciou-se na televisão como muitos outros cineastas da sua geração, assinando episódios de séries como “L.A. Law”, “NYPD Blue” ou a série/”remake” de “Alfred Hitchcock’s Present”, depois foi a passagem ao grande écran e “Sonhos Desfeitos” / “Moonlight Mile” acaba por ser o último tomo de uma trilogia onde a morte é o elemento fulcral.


Embora um pouco distante de obras como o fabuloso “Vidas Privadas” / “In the Bedroom” de Todd Field ou “O Quarto do Filho” / “La stanza del figlio” de Nanni Moretti, este “Sonhos Desfeitos” oferece-nos a tragédia de uns pais que perderam a filha de forma violenta, vendo no futuro genro o substituto perfeito para as suas vidas não naufragarem na tragédia que os assolou. Só que Joe Nast (Jake Gyllenhaal) irá encontrar em Bertie (Ellen Pompeo, a célebre vedeta da série “Anatomia de Grey”), a funcionária dos correios, a sua alma gémea, descobrindo nela a rapariga certa para o ajudar a fugir daquele território de luto, porque a sua consciência não consegue vencer a batalha que trava com o cinismo. Repare-se como no início do filme julgamos estar perante os preparativos de um casamento, quando se trata de um funeral, depois descobrimos a forma silenciosa como Joe aceita o futuro traçado pelo sogro, até ao momento em que descobre que só a fuga poderá alterar o seu destino naquela pequena cidade.


“Sonhos Desfeitos” é uma das provas de como o cinema americano possui no seu interior obras cuja visibilidade é urgente, se Jake Gyllenhaal é hoje em dia  um nome bem conhecido do grande público, deveremos também descobrir a obra de Brad Silberling para sabermos como respira o cinema "Made in USA".

Woody Allen – “As Faces de Harry” / “Descontructing Harry”


Woody Allen - “As Faces de Harry” / “Descontructing Harry”
(EUA – 1997) – (96 min/Cor)
Woody Allen, Kristie Alley, Bob Balaban, Billy Cristal, Judy Davis, Mariel Hemingway, Demi Moore, Robin Williams, Amy Irving.

Pode ver aqui o trailer do filme.

O cinema de Woody Allen teve sempre no seu interior uma certa tendência autobiográfica, ao mesmo tempo que usou e abusou da psicanálise como elemento preponderante para analisar as suas personagens já que, por inúmeras vezes, iremos descobrir personagens a expor os seus problemas no divã do psicanalista.


Em “As Faces de Harry” / “Descontructing Harry” iremos conhecer o escritor Harry Block (Woody Allen), que se prepara para ir receber um Prémio Literário dado pela Universidade que em tempos frequentou e da qual foi expulso, descobrindo-se aqui a habitual mordacidade do cineasta.


Ao longo da viagem, que irá encetar a caminho da Universidade para receber o Prémio Liter+ario, iremos conhecer a vida e obra do escritor Harry Block (Woody Allen a encetar uma luta diabólica contra o sexo feminino), que conhece como ninguém o célebre bloqueio literário, através de diversos segmentos em que ele se encontra com personagens nascidas da sua escrita, enquanto por outro lado iremos conhecer os diversos retratos que dele fazem as suas três ex-mulheres, que debitam um profundo veneno sobre o carácter de Harry Block, embora o escritor também não seja nada meigo quando nos fala delas.


Embora não seja um dos melhores filmes de Woody Allen o segmento em que nos apresenta a sua visão do inferno, com traços profundamente Fellinianos, é simplesmente memorável.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Sergei M. Eisenstein - “Ivan, o Terrível – Parte 1 e 2” / ”Ivan Grozny - I / II”


Sergei M. Eisenstein - “Ivan o Terrível – Parte 1 e 2” /”Ivan Grozny - I / II”
(URSS – 1945/46) – (Parte 1 - 98 min. – P/B) - (Parte 2 - 85 min. - P/B e Cor)
Nikolai Tcherkassov, Seraphina Birman, Ludmila  Tzelikovskaia.


Pode ver aqui o trailer do filme.

Quando Estaline, o Czar Vermelho do Kremlin, encomendou a feitura de um grande fresco histórico sobre o “primeiro Czar de todas as Rússias”, recorde-se que foi ele que Fez a unificação das diversas regiões, o cineasta encontrava-se nas ruas da amargura, depois do insucesso da sua estadia no Ocidente (Paris, Londres, América (Hollywood) e México) e mesmo depois do seu “Alexandre Nevsky”, feito a pedido das autoridades soviéticas, ter sido "apagado" da memória do Kremlin, devido ao famoso e controverso pacto germano-soviético de Brest/Litovsky, entre o regime nacional-socialista e o regime soviético, tendo de imediato o filme se tornado bastante incómodo e passado ao estatuto de obra cinematográfica invisível.

Com a invasão da então URSS pelas tropas de Hitler, e tendo em conta que o Czar do Kremlin conhecia todas as potencialidades do cinema de propaganda, para além de ser um amante dos musicais de Hollywood, que lhe eram projectados secretamente na sua sala de cinema privada, decidiu “convidar” Serguei M. Eisenstein para construir um fresco sobre o Czar Ivan, onde pudesse ver projectada a sua própria figura como grande líder da nação russa. E o cineasta do “Couraçado Potemkine” deitou mãos à obra, tendo recebido do Senhor do Kremlin todos os meios disponíveis para a realização do filme, que iria ser composto de três partes, portanto um longo fresco para a nação poder ver em Estaline o seu líder supremo.

“Ivan, o Terrível” / “Ivan Grozny” irá ter argumento, montagem e realização de Serguei M. Eisenstein e música de Serguei Prokofiev, que nos irá contar a vida de Ivan desde o seu nascimento até chegar esse momento inadiável da sua morte, mas se esta primeira parte, que até teve estreia no Teatro Bolshoi no final de 1944 (numa altura em que as tropas nazis já tinham sido expulsas da URSS e o exército vermelho avançava na Europa de Leste), contou com a presença do próprio Estaline, que teceu rasgos elogios ao cineasta, mas quando o ditador viu a segunda parte da obra, abandonou a sala a meio do filme, porque desta vez o retrato de Ivan, colava-se de forma imperfeita ao seu culto da personalidade, revelando muitos dos seus temores e de imediato o cineasta “caiu em desgraça”, tornando-se um proscrito para as autoridades soviéticas, ao mesmo tempo que a segunda parte de “Ivan, o Terrível” era de imediato proibida, só sendo vista em 1958, após o processo de revisionismo levado a cabo pelas novas autoridades do soviéticas, saídas do “famoso” XX Congresso do PCUS. Quanto à terceira parte daquela que seria a obra monumental de Serguei M. Eisenstein, nunca viu a luz do dia.

Os filmes “O Couraçado Potemkine” / “Bronenosets Potemkine”, sobre o qual já aqui escrevemos, “Alexandre Nevsky”/ “Aleksandr Nevskii", também já aqui abordado e “Ivan, o Terrível”/ “Ivan Grozny”, revelam-nos a genialidade deste Mestre da Sétima Arte chamado Serguei M. Eisenstein, já o seu famoso filme inacabado, posteriormente montado por terceiro, intitulado “Que Viva México” é bem revelador do que iria a Sétima Arte conquistar, com a presença do cineasta no Ocidente, mas este infelizmente terminou por deixar Hollywood e regressar a Moscovo.

A segunda parte de “Ivan, o Terrível”, com 85 minutos de duração e rodado a preto e branco, com a parte final a cores, será exibida na próxima semana na RTP-2 – dia 27 de Outubro pelas 23h00.

Vincent Gallo – “The Brown Bunny”


Vincent Gallo – “The Brown Bunny”
 (EUA/Japão/França – 2003) – (93 min. / Cor)
Vincent Gallo, Chloe Sevigny, Cheryl Tiegs, Elizabeth Blake, Anna Vareschi

Vincent Gallo numa entrevista definiu-se como o homem dos sete instrumentos. E se a sua primeira película, "Buffalo 66" era espantosa, já o seu segundo filme é tudo menos cinema, não conseguindo sequer ser um mau "home-movie".
O trailer de "Buffalo 66", como devem estar recordados e a sua banda sonora, deixou muitos admirados pela sua eficácia em termos sonoros e até narrativos, no entanto, o tema musical escutado, era simplesmente o início instrumental de “Heart of Sunrise” pertencente ao grupo de rock progressivo Yes.



Essa estreia de Vincent Gallo na realização possuía dois nomes incontornáveis do cinema no elenco: Anjelica Huston e Ben Gazarra, filmados numa sequência memorável, em que o campo/contra-campo era estilhaçado, de forma surpreendente, pensando todos nós que tinha nascido um cineasta, enquanto a interpretação de Christina Ricci era excelente. Já Vincent Gallo, ao vestir a pele desse homem acabado de sair da prisão, que pretende visitar os pais, para lhes apresentar a noiva inexistente, revelava uma timidez e sobriedade que levou alguns a pensarem estar perante um novo valor, mas ao realizar o seu filme seguinte, Vincent Gallo, decidiu assumir diversas funções na película, para além da de realizador e intérprete, deitando por terra todo o crédito obtido com “Buffalo 66”.


"The Brown Bunny", o coelhinho castanho de Chloe Sevigny, é o mote para o filme mas esta busca "coast to coast" da memória da mulher amada, por parte de um corredor de motas, que nunca consegue manter uma relação com as mulheres que vai encontrando ao longo dos locais por onde passa, numa tentativa de criar um "road movie" selvagem, termina por demonstrar as fraquezas de Vincent Gallo ou seja, a provocação não surte efeito, só em Cannes funcionou, coma célebre conferência de imprensa em que pediu desculpa por ter feito o filme, revelando-se a declaração de uma mordacidade sem nexo.



Mais tarde ao mencionar numa entrevista, acerca da película, que os técnicos tinham sabotado o seu filme, a afirmação do actor/realizador não surte qualquer efeito, já que o rótulo de filme maldito, não se aplica a “The Brown Bunny”, porque como sabemos, Vincent Gallo nunca será o Antonin Artaud do cinema.
Já Chloe Sevigny (a famosa Daisy) tão procurada pelo corredor de motas, ao longo da viagem e a tão falada cena eventualmente chocante, em que participa com Vincent Gallo, revela-se de uma pobreza confrangedora.“The Brown Bunny” de Vincent Gallo, decididamente é um filme a evitar, porque o tempo é demasiado precioso, para ser gasto com ele.