terça-feira, 1 de agosto de 2017

François Ozon – “Angel”


François Ozon – “Angel”
(França/Bélgica/Inglaterra - 2007) – (134 min. / Cor)
Romola Garai, Sam Neill, Lucy Russell, Michael Fassbender, Charlotte Rampling.


François Ozon, um dos mais interessantes cineastas franceses, decidiu fazer o seu primeiro filme em inglês intitulado “Angel”, baseado no romance da escritora britânica Elizabeth Taylor (não confundir com a actriz), entrando pela porta grande do melodrama. A acção decorre no início do século xx, mais precisamente em 1905, quando a jovem Angel Deverell (Ramola Garai, fixem o nome desta fabulosa actriz!) ainda em criança decide ser escritora, embora não seja propriamente uma devoradora de literatura.
Vive com a sua mãe que possui uma pequena mercearia e sente uma profunda fascinação pelos habitantes da Mansão “Paradise”, onde a tia trabalha. A sua relação com a mãe, que não compreende o seu desejo pela escrita, é bastante tempestuosa, até que um dia recebe uma carta de um editor a quem tinha enviado o seu romance “Lady Urania”.


Théo (Sam Neill) pensava que a autora do livro fosse uma mulher de meia-idade e, quando se encontra com Angel, fica surpreendido ao deparar com uma simples rapariga, que não tem grandes conhecimentos literários nem nenhum autor favorito, embora seja dona de uma escrita contagiante. Ao apresentar algumas sugestões de alteração ao romance, Théo vê-se confrontado por uma jovem que se recusa a mudar uma vírgula, mesmo quando ele lhe explica que uma garrafa de champagne não se abre com um saca-rolhas, insistindo Angel na sua atitude de nada mudar ou corrigir. Como o romance “Lady Urania” é mesmo bom, ele decide avançar com a publicação, mesmo depois de a sua mulher Hemione (Charlotte Rampling) achar arriscado o lançamento de um livro escrito por uma pessoa tão jovem e obstinada.


O romance transforma-se em sucesso e traz a fortuna à sua autora, que de imediato começa a possuir uma legião de admiradores. Os anos passam e um dia ela descobre que a Mansão Paradise, que sempre a fascinara, se encontra à venda e decide então comprá-la, mudando-se para lá com a mãe. Angel Deverell (Romola Garai) torna-se assim uma mulher de sucesso, graças aos seus romances. É-lhe apresentada Nora (Lucy Russell, que vimos em “A Inglesa e o Duque” de Eric Rohmer), uma admiradora, que de imediato lhe oferece os seus serviços de secretária, passando também ela a habitar a Mansão “Paradise”. Nesse encontro, ela irá cruzar-se com o irmão de Nora, o pintor Esmé (Michael Fassbender), que é um crítico feroz dos gostos pictóricos de Angel. Ela então pede-lhe para ver os seus quadros e decide encomendar-lhe um retrato, servindo ela como modelo. Esmé decide pintá-la usando os seus tons escuros habituais, os mesmos que François Ozon utiliza ao longo do filme.


A relação que se estabelece entre Angel e Esmé não é vista com bons olhos por Nora, que conhece muito bem o irmão, sempre com dívidas de jogo e um galanteador do sexo oposto, mas o que Nora esconde muito bem ao longo do filme é a atracção física que sente por Angel. A escritora acabará por se casar com Esmé que aceita o enlace simplesmente por razões financeiras, mantendo o seu estilo de vida, estando perdidamente apaixonado por uma outra mulher que sustenta e de quem irá ter um filho.
Entramos assim no território do melodrama e quando a guerra surge e Esmé é ferido, tudo se complica para Angel, que entretanto descobre a sua vida dupla. O pintor transforma-se num homem à beira do abismo, quando a mulher que ama decide casar com outro e termina por se suicidar. Angel, que entretanto deixara de escrever, após a morte do marido decide conhecer a paixão do seu marido e para grande surpresa sua, descobre que se trata da filha dos antigos proprietários da Mansão “Paradise”, essa criança tantas vezes cuidada pela sua tia.

Romola Garai

Como tudo na vida, os tempos mudaram e os gostos literários também e assim Angel, que foi uma verdadeira estrela em ascensão no universo literário, termina por ser um anjo caído na terra.
François Ozon, mais uma vez, filma este “Angel” com um saber único, revelando-se um verdadeiro cineasta de mulheres, fazendo recordar um pouco esse génio chamado George Cukor, por outro lado opta pelo artifício como se o filme fosse feito nessa época de ouro do cinema clássico. “Angel” surge assim no território de François Ozon como mais um capítulo do seu cinema de autor, desta feita falado em inglês e respirando nostalgia por todos os poros.  Não se esqueçam fixem o nome de Romola Garai e vejam tudo o que esta actriz faz, tanto no cinema como na televisão: as duas temporadas de “The Hours” e a “Emma” (Jane Austen) com o Michael Gambon, em que ela é fabulosa, merecem também uma visita!

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