sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Christian Carion – “O Caso Farewell” / “L’Affaire Farewell”


Christian Carion – “O Caso Farewell” / “L’Affaire Farewell”
(França – 2009) – (113 min. / Cor)
Guillaume Canet, Emir Kusturica, Alexandra Maria Lara, Ingeborga Dapkunaite, Fred Ward, Willem Dafoe, Aleksey Gorbunov.

O cineasta francês Christian Carion que se estreou na longa-metragem com “Une hirondelle a fait le printemps” (2001) e que quatro anos depois iria surpreender tudo e todos com o fabuloso “Joyeux Noel” / “Feliz Natal”, decidiu mais uma vez fazer um filme contra a corrente dos tempos, e em boa hora o fez, porque este “L’Affaire Farewell” / “O Caso Farewell”, baseado em factos verídicos, tal como sucedia no seu filme anterior, convida-nos a visitar a famosa guerra-fria entre o Ocidente e o Bloco Soviético, narrando-nos a história dos protagonistas do “Caso Farewell”, que iria promover uma profunda machadada nos serviços de informação do KGB, mais concretamente nos seus agentes a trabalharem ocultos no Ocidente.


A feitura deste filme levantou tanta polémica no interior da Rússia que, durante a pré-produção da película, o Ministro da Cultura Alexander Avdeev proibiu as filmagens que deveriam ser feitas em Moscovo, ao mesmo tempo que aconselhava o cineasta Nikita Milkakov a retirar-se do elenco porque o filme, no seu entender, “tratava de forma heróica um traidor da pátria”. Recorde-se que Alexander Avdeev, na época em que foi conhecido “O Caso Farewell”, trabalhava na Embaixador Soviética em Paris. Por esta mesma razão, a produção da película foi obrigada a deslocar as filmagens previstas para Moscovo para a sua vizinha Ucrânia.


Mais uma vez Christian Carion nos irá surpreender pela sua perfeita “mise-en-scéne”, nunca sendo demais destacar a sobriedade interpretativa do bem conhecido cineasta Bósnio Emir Kusturica, que aqui veste a pele do Coronel Sergei Gregoriev, membro do KGB, que se encontra descontente com o futuro previsível com que se depara a sua nação, decidindo começar a passar informações privilegiadas para o Ocidente para minar assim, por dentro, os poderosos serviços de espionagem de que faz parte.
Ao engenheiro francês Pierre Froment (Guillaume Canet) é pedido, por Paris, para se encontrar com um homem cuja identidade desconhece para receber um pacote contendo documentos, não sabendo este amador de espião que está prestes a protagonizar um dos mais estranhos e famosos casos de espionagem, que irá alterar para sempre a relação de forças dos então dois blocos.


“O Caso Farewell” vai-nos demonstrar como o famoso mundo dos espiões e dos serviços secretos é bem diferente daquele que vimos diariamente no cinema porque, na realidade, os descuidos e as falhas são muitas, assim como a sorte é sempre passageira.
Porém o mais importante do filme, segredo do cineasta, é a forma como ele nos oferece o quotidiano dos dois homens, o russo com um profundo amor por França, onde vivera anteriormente, durante alguns anos, tendo-se apaixonado pela cultura deste país, veja-se aliás a forma como ele fala dos poetas e da música, muito em especial desse enorme vulto chamado Léo Ferre: esse momento sublime da película que dança com a esposa ao som de “La Melancolie”. Já Pierre Forment (Guillaume Canet) luta pelo equilíbrio familiar do seu lar, após a esposa (Alexandra Maria Lara em mais uma magnifica interpretação) saber que ele se encontra envolvido em espionagem, “armado em James Bond, colocando a vida de todos em risco”.


Por outro lado, em contraponto, Christian Carion oferece-nos a estupefacção dos serviços secretos franceses à medida que as informações vão chegando, ao mesmo tempo que, em Washington, Ronald Reagan (Fred Ward) e os seus colaboradores andam perfeitamente alarmados com a vitória nas eleições francesas de François Miterrand (Philippe Magnan), que aceita integrar no seu governo personagens oriundas do Partido Comunista Francês. No entanto a colaboração entre os dois homens, de visões tão diferentes, irá transformar-se um sucesso, comungando ambos das informações inacreditáveis que vão recebendo secretamente da capital soviética. Recorde-se que esta operação foi denominada “Farewell”, para o KGB pensar que se tratava de uma acção da CIA, dando assim algum tempo aos franceses para prepararem a retirada perante um possível revés.


“O Caso Farewell” / “L’Áffaire Farewell” revela-nos um cineasta que gosta de interrogar a história nesses territórios em que a verdade permanece submersa, oferecendo-nos relatos que nos transmitem uma nova visão acerca do mundo em que vivemos. Christian Carion é, sem dúvida alguma, um cineasta a seguir com toda a atenção, porque nele vive a famosa marca do cinema de autor!

2 comentários:

  1. Este vale a pena rever. E o Emir Kusturica faz um papelão!

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    1. Neste filme ficamos a saber que a guerra dos espiões não tem nada a ver com os livros ou os filmes, aqui reina o improviso e a sorte que muitas vezes não protege os audazes. Que o Kusturica é um excelente cineasta já todos sabemos, mas que é um soberbo actor, ficámos a saber com este filme genial de Christian Carion!

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