sexta-feira, 21 de julho de 2017

Steven Soderbergh – “O Falcão Inglês” / “The Limey”


Steven Soderbergh – “O Falcão Inglês” / “The Limey”
(EUA – 1999) – (89 min. / Cor)
Terence Stamp, Lesley Ann Warren, Peter Fonda, Luis Guzman, Melissa George, Barry Newman.



A história de Steven Soderbergh é conhecida de todos: entrou com o pé direito e venceu o Festival de Cannes com “Sexo, Mentiras e Vídeo” / “Sex Lies and Videotape”, uma película independente feita com meios bastante reduzidos, mas onde era possível detectar o génio que se encontrava ali. E de imediato todas as portas se abriram e ele atirou-se a um projecto fabuloso, criando essa obra extraordinária chamada “Kafka”. Mas os resultados de bilheteira foram os piores e as portas começaram a fechar-se lentamente, embora ele continuasse a trabalhar, introduzindo de forma sabedora as marcas da sua autoria, até que chega esse primeiro ano do novo milénio (2000) e a sua vida muda decididamente de figura, porque nesse ano realiza dois filmes que são estrondosos sucessos de bilheteira e da crítica: “Erin Brockovich” e “Traffic”.


Mas no ano anterior, em 1999, Steve Soderbergh realizou uma das suas melhores películas de sempre, intitulada “O Falcão Inglês” / “The Limey”, que foi recuperada e exibida após os estrondosos sucessos de 2000 e foi assim que descobrimos este filme então em exibição numa das salas do Cinema Mundial. E a primeira constatação é a descoberta da arte do “flash-back” e do emprego do tempo no cinema, que aqui surge como verdadeiro protagonista.
 “O Falcão Inglês” conta-nos a história de um gangster britânico que sai da prisão e decide partir para Los Angeles para saber quem matou a sua filha Jenny, para assim fazer justiça com as suas próprias mãos. Tudo o que sabe cinge-se a uns recortes de jornais que um antigo guarda-costas, de seu nome Eduardo Roel (Luís Guzman), amigo de Jenny lhe enviou, conseguindo depois, através de uma professora da filha chamada Elaine (Leslie Ann Warren), descobrir o território pantanoso habitado por Jennifer Wilson, sendo assim conduzido até Terence Valentine (Peter Fonda), o produtor discográfico de “sucesso”, com negócios muito pouco recomendáveis.


Durante a viagem de avião iremos conhecer as memórias de Terence Wilson (Terence Stamp), o gangster inglês de sotaque “cockney”, que possuía na filha o ser que mais amava no mundo. Ela que já em pequena não gostava das actividades do pai, ameaçando chamar a polícia, irá fazer o mesmo quando descobre que o seu namorado Terry Valentine (Peter Fonda) se encontra envolvido em negócios de lavagem de dinheiro da droga.
Wilson (Terence Stamp) é um homem duro, sem contemplações para ninguém, não hesitando em puxar do gatilho, como veremos no seu primeiro encontro com os traficantes de droga. Embora por outro lado seja um homem um pouco fora da realidade do mundo, devido ao tempo que passou na cadeia, aliás bem visível quando pensa que os homens que se encontram à porta da Mansão de Valentine, onde ele dá uma festa, são gangsters.


Já Terry Valentine (Peter Fonda) surge aqui a respirar um pouco a alma do protagonista de “Easy Rider”, como o produtor bem sucedido, tipicamente Californiano, com casa nas colinas de Los Angeles (de uma arquitectura espantosa) e outra luxuosa casa em Big Sur, possui bons carros e motas, ao mesmo tempo que gosta de contar histórias do seu passado à jovem com quem vive, ou seja a rapariga que substituiu Jenny no seu “coração”.
Curiosamente, um dos roubos que Wilson praticou foi o das receitas de um concerto dos Pink Floyd, enquanto Valentine foi um dos responsáveis por uma série de concertos do grupo nos States. Mas enquanto um irá praticar a justiça que acha justa, pelas suas próprias mãos, o outro possui em Avery (Barry Newman) o chefe de segurança, que o protege e de quem é sócio no esquema de lavagem de dinheiro, uma espécie de anjo protector contra todas as adversidades.


Ao longo da película, sempre com “flashbacks” a invadirem o filme e uma montagem descontínua e brilhante, iremos saber que Jenny foi morta por Valentine, quando decidiu denunciar à polícia o que se passava, pagando com a própria vida a sua eterna honestidade. E Wilson irá ajustar as contas com ele, depois de tirar do caminho todos os homens que o protegem na casa de Big Sur, agindo sempre de forma destemida, como se estivesse imune às balas que no final, já na praia, Valentine irá disparar sobre ele.


Steven Soderbergh filma todas as sequências do confronto entre Wilson e os seguranças de Valentine de uma forma brilhante, sem um plano a mais ou a menos, ao mesmo tempo que instala um clima perfeito de suspense, com uma eficácia extraordinária. Por outro lado decidiu inserir ao longo do filme imagens de uma película realizada em 1967 por Ken Loach, intitulada “Poor Cow”, onde Terence Stamp é protagonista, surgindo estas como o retrato perfeito de um passado, que Wilson ainda recorda, mas que certamente irá ser perdido na memória com a passagem dos anos. Aliás “O Falcão Inglês” termina precisamente com imagens retiradas desse filme, com Terence Stamp a tocar guitarra.
“The Limey” surge assim na carreira de Steven Soderbergh como um dos seus filmes mais brilhantes em que ele, mais uma vez, trata o cinema “por tu”, demonstrando ser um perfeito conhecedor dessa Arte intitulada de Sétima. 

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