quarta-feira, 12 de julho de 2017

John Sayles – “Limbo”


John Sayles – “Limbo”
(EUA – 1996) – (126 min. / Cor)
David Strathairn, Mary Elizabeth Mastrantonio, Vanessa Martinez, Kris Kristofferson, Casey Siemaszko.


John Sayles ficou conhecido dos cinéfilos em Portugal, quando todos nós descobrimos essa obra-prima intitulada “Lone Star”, datada de 1996. Basta recordar a forma como ele construiu os “flashbacks” no interior do próprio plano sequência, para termos de imediato vontade de regressar a esse filme. Mas, como também todos sabemos, a sua obra não se reduz a um só filme, mas sim a um olhar sobre a América, essa região que alberga territórios tão diferentes e distantes, tão inóspitos e desconhecidos, como sucede com este Port Henry, situado no Alasca e onde decorre a acção de “Limbo”… que título espantoso!


Desde muito cedo, John Sayles começou a escrever short-stories e novelas, gostando de viver as experiências que narrava nos seus contos. E, como não podia deixar de ser, um dia a sua escrita despertou a curiosidade desse artesão chamado Roger Corman, que o convidou para trabalhar na sua produtora como argumentista, ao mesmo tempo que iria descobrir essa maravilhosa engenharia de fazer filmes com orçamentos minúsculos. E assim John Sayles ganhou o gosto pelo cinema, passando a adaptar ao écran os seus escritos, ao mesmo tempo que se ocupava da montagem, para além da inevitável realização, tornando-se assim um cineasta completo, tão completo que são de sua autoria os vídeo-clips de Bruce Springsteen “Born in the USA”, “I’m on Fire” e “Glory Days”.


 “Limbo” é uma obra que irá mudar de registo, quando menos o espectador espera, deixando-o perfeitamente perplexo pelo rumo dos acontecimentos. Esta película oferece-nos uma viagem pela vida, angústia e desejos de um conjunto de pessoas que, por breves instantes, pensaram encontrar a felicidade, para um dia depois descobrirem que se encontravam no limbo, à espera de regressarem ao Inferno ou Paraíso da Vida.


Port Henry situa-se no sudoeste do Alasca, essa região americana que só foi falada nos nossos écrans de televisão devido a Sarah Palin e à divertida série “O Amor no Alasca” / “Men in Trees”, como muitos devem estar recordados. E como não podia deixar de ser, iremos também descobrir esse bar onde muitos dos homens se reúnem ao fim de um dia de trabalho. Mas este Alasca de John Sayles é duro e isolado, as fábricas de salmão fecham, o desemprego chega, a poluição é enorme e os capitalistas fingem ser ecologistas, para aliciarem o turismo, programando o derrube de árvores ou melhor a desflorestação no interior e não junto à costa, para não darem nas vistas, enquanto planeiam criar um Alascaworld, baseando-se no sucesso da Disney, para desta forma aumentarem as suas fortunas.


Por outro lado temos as pequenas vidas, que se arrastam por esta povoação costeira e vamos lentamente conhecendo os seus habitantes, desde o casal de lésbicas que dominam com mão de ferro os negócios que possuem, passando por essa promessa do basquetebol chamada Joe Gastineau (David Strathaim) que, depois de se ter lesionado no joelho, regressou à sua terra natal para se dedicar à pesca, onde uma nova tragédia o aguardava, até chegar a essa cantora chamada Donna De Angelo (Mary Elizabeth Mastrantonio), que ali descobre o fim da sua carreira, sempre na companhia da filha Noelle (Vanessa Martinez), que odeia os seus namorados.
Iremos conhecer todas estas personagens num casamento: Noelle é empregada de mesa, Donna a cantora que anima o evento, rompendo o romance com o guitarrista do grupo em directo e Joe que organizou o espaço do evento.


“Limbo” irá depois conduzir-nos a um conhecimento mais profundo destas personagens: o naufrágio ingrato de Joe, que originou duas vítimas; a oportunidade de amar que Donna decide dar a si mesma ao conhecer a Joe; o desejo de Noelle de ser escritora e ter um lar.
Mas a chegada do meio-irmão de Joe, o fala-barato Bobby (Casey Siemaszko) irá mudar decididamente o rumo ao filme. Bobby irá pedir a Joe para ele o acompanhar no seu iate, numa pequena viagem para ir buscar um passageiro a uma das ilhas e Joe aproveita para convidar Donna e Noelle para irem com eles, desconhecendo que o negócio do irmão não se tratava de levar a passear turistas, mas sim um encontro com traficantes de droga. Iremos ficar assim surpreendidos pelo rumo dos acontecimentos, quando Bobby é morto, conseguindo Joe, Donna e Noelle refugiarem-se dos traficantes numa ilha deserta, que nos irá conduzir a um outro registo, em que a luta pela sobrevivência passará a ser o tema da película.


Entramos num dos momentos mais poderosos de “Limbo”, com John Sayles a oferecer-nos a vida de três seres humanos, perdidos e desesperados numa ilha, sem terem nada para comer. As possibilidades de serem encontrados são mais que escassas e Joe Gastineau (espantoso David Strathaim) não é homem para iludir ninguém, muito menos aquelas duas mulheres, que ele ama como se fossem a sua família de sempre. A descoberta de uma cabana abandonada, perdida naquela ilha inóspita, irá servir de refúgio, mas o facto de os traficantes saberem que eles se encontram na ilha porque os viram a nadar para lá, torna ainda tudo muito mais complicado. Mas como não há bela sem senão, Noelle irá encontrar um diário escrito pelos anteriores habitantes daquela cabana e começa a lê-lo todas as noites para Joe e Donna, e aqui mais uma vez iremos ser surpreendidos pelo cineasta/argumentista.


Um dia, um pequeno hidroavião aterra junto da ilha com Jack Johansson (Kris Kristofferson) a bordo e encontra aqueles três seres profundamente desesperados a quererem partir do limbo em que se encontram, mas o aparelho tem problemas mecânicos e não os pode transportar, partindo Jack com a promessa de no dia seguinte os irem buscar. Tudo aponta para um final feliz, mas Joe tem as suas dúvidas, porque se por um lado Jack é o irmão do homem que morreu no seu barco de pesca, por outro todos sabem que ele faz tráfego de droga. E por essa mesma razão, a noite que se avizinha não o irá deixar dormir e quando no dia seguinte vemos um avião a surgir nas nuvens, John Sayles reserva-nos uma nova surpresa.

John Sayles

“Limbo” é uma obra bem diferente daquelas que se podem descobrir hoje no cinema, mas bem enquadrada no espírito do cinema de autor de John Sayles, por outro lado possui interpretações memoráveis e cativantes, revelando-nos Mary Elizabeth Mastrantonio como uma excelente cantora. Não está dobrada e a sua voz possui timbres que nos deixam espantados, simplesmente magnífica. Depois temos sempre a forma como o cineasta decide mudar de registo, cativando o espectador de surpresa em surpresa, até ao final do filme. “Limbo” surge assim, nos tempos que correm, como uma verdadeira peça de artesanato que merece ser descoberta e amada, convidando à meditação sobre as pequenas tragédias que habitam as vidas com que nos cruzamos diariamente.

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