quinta-feira, 13 de julho de 2017

Jean-Pierre Melville – “O Denunciante” / “Le Doulos”


Jean-Pierre Melville – “O Denunciante” / “Le Doulos”
(França – 1962) – (108 min. - P/B)
Jean-Paul Belmondo, Serge Reggiani, Jean Desailly, Michel Piccoli.

“Le Doulos” é o homem que usa chapéu, mas em calão o seu significado é, simplesmente, “o bufo”. É precisamente disso que trata este policial de Jean-Pierre Melville. Antes de chegarmos até essa personagem interpretada por Jean-Paul Belmondo, um gangster bufo no interior do submundo do crime, convém referir que, tal como sucedia no “film noir” norte-americano, todos os gangsters usam o inevitável chapéu, não como acessório, mas sim como peça fundamental da sua imagem havendo, como em tudo, a excepção que quebra a regra, neste filme ela chama-se Jean (Aimé de March), cujo ar de bom cidadão engana o próximo.


Esta película revela, para quem desconhecia a sua outra Arte, um actor fabuloso chamado Serge Reggiani na figura de Maurice Faugel, o gangster cujo golpe é denunciado. Curiosamente ele um homem da “chanson”, tal como Charles Aznavour que também é um excelente actor, surge aqui a vestir a pele de uma personagem a quem é estendida a teia mortífera pela aranha Silien (Jean-Paul Belmondo) e tudo devido à perda de um ente amigo, ou seja a amizade como sinónimo de lealdade num mundo de gangsters.
Logo no plano de abertura, um longo “take” do cineasta, que nos oferece de imediato o ambiente em que vai decorrer toda a película, a noite. Ela é o local preferido para os personagens do submundo se movimentarem, algo que “Bob le Flambeur” / “Bob o Jogador” já nos tinha ensinado.


Por outro lado, a forma como a acção vai decorrendo oferece-nos um argumento espantoso, baseado no romance de Pierre V. Lesou, que nos deixa perfeitamente agarrados à cadeira. Depois temos a forma brilhante como Jean-Pierre Melville trata o “flashback”, oferecendo-nos a mentira de forma tão real, que quase acreditamos nas falsas verdades narradas por Silien (Jean-Paul Belmondo) a Faugel (Serge Reggiani).
Ao vermos este “polar” somos obrigados a reconhecer em Jean-Pierre Melville o mais americano dos cineastas franceses, que até possui um filme rodado na Big Apple, “Deux Hommes dans Manhattan” / “Dois Homens em Manhattan”, para tal basta olhar a forma como ele monta o filme de forma rápida e concisa, sem um plano a mais ou a menos, excepto na sequência final, em que a vida das personagens é jogada de forma lenta mas precisa, terminando por o desejo de “Le Doulos” ficar ausente para sempre... “esta noite não irei estar contigo”.


Só para terminar, uma última palavra para a excelente direcção de actores. Serge Reggiani é a grande surpresa deste filme, mas nele existem mais e para tal basta comparar a forma como Jean-Paul Belmondo veste a personagem, bem distante da figura de “O Acossado” / “À Bout de Souffle” de Jean-Luc Godard; depois temos sempre a surpreendente interpretação de Jean Desailly na pele do “manhoso” inspector Clain, ele que seria o protagonista de “Angustia” / “La Peau Douce” de François Truffaut. Quanto a Michel Piccoli está como peixe na água e como “não há polar sem bela”, nunca é demais referir a forma sensual como Jean-Pierre Melville filma o corpo feminino. “O Denunciante” / “Le Doulos” foi um dos maiores sucessos de público de Jean-Pierre Melville.

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