terça-feira, 25 de julho de 2017

Eric Rohmer – “Os Amores de Astrea e Celadon” / “Les amours d’Astrée et de Céladon”


Eric Rohmer – “Os Amores de Astrea e Celadon” / “Les amours d’Astrée et de Céladon”
(França/Espanha/Itália – 2008) – (109 min. / cor)
Andy Gillet, Cécile Cassel, Stéphanie Crayencour, Véronique Reymond.

Eric Rohmer, o cineasta da palavra, em "Os Amores de Astrea e Celadon", parte de um texto escrito por Honoré d’Urfé no século XVII, cuja história se passa precisamente no século V onde, mais uma vez, o amor se encontra na ordem do dia.
O cineasta das séries “Contos Morais”, “Comédias e Provérbios” e “Contos das Quatro Estações”, prossegue assim a sua caminhada pelo interior do cinema abordando uma história de amor povoada de Pastores, Ninfas e Druidas invadindo um território decididamente mágico.


Se à primeira vista nos encontramos longe desse universo contemporâneo que fez as delícias dos espectadores ao longo de décadas, recorde-se que Eric Rohmer é o autor dos argumentos das três séries mencionadas, em “Os Amores de Astrea e Celadon” parte de um texto de outro autor, mas que ele trabalha de forma perfeita, mantendo uma certa ligação com a sua obra contemporânea.
Rodado em cenários naturais, de um bucolismo perfeito, iremos entrar no filme através de uma daquelas festas tão nossas conhecidas dos livros de banda desenhada de Goscinny e Uderzo, mantendo-se Eric Rohmer fiel a esse princípio da palavra, sempre o elemento preponderante de toda a narrativa.


Astrée e Céladon são dois pastores que se amam perdidamente, mas as suas famílias não olham de bom grado o seu amor e naquele dia, um amigo e pretendente de Astrée leva-a até à festa que decorre no campo e onde uma outra jovem tenta conquistar o amor de Céladon. Ao vê-los juntos Astrée sente-se traída pelo seu amor, mas a sua visão é conduzida pelo jovem que se encontra com ela e assim ela não vê que Céladon não acolhe os avanços da rapariga.
Sentindo-se traída, Astrée diz a Céladon que nunca mais o quer ver e este, perante tal decisão, atira-se ao rio em busca da morte. No entanto será salvo pelas Ninfas que o irão conduzir e acolher no castelo, ao mesmo tempo que decidem disputar os seus amores, em busca de prazeres bem carnais.


Já de saúde recuperada, graças aos bons ofícios de um Druida, ele só tem o desejo de recuperar o coração de Astrée, mas o facto de ela lhe ter dito que nunca mais o queria ver torna tudo muito mais complicado. Por outro lado Astrée, ao saber da morte do seu amado, passa a viver amargurada, já que ela se considera a causadora da sua morte.
E será num desses passeios pelo campo que Astrée, na companhia de alguns amigos, irá seguir esse caminho perfeito que a levará até ao castelo do célebre Druida, mas este esconde a identidade de Céladon, fazendo-o passar por mulher e apresentando-o como sua filha, contando com a inevitável cumplicidade das restantes Ninfas, que só desejam que aqueles dois seres voltem a reencontrar o amor perdido.
Como não podia deixar de ser, Astrée acha a filha do Druida muito parecida com o seu amado desaparecido, até que nasce esse momento em que Céladon lhe revela a sua identidade e o seu amor e ao reconhecê-lo, a bela Astrée julga estar perante um milagre, reencontrando o ser que ama perdidamente.


Estamos assim perante um filme cuja história poderia ser passada para o mundo contemporâneo, com as devidas alterações no argumento, ou seja Eric Rohmer mantém-se fiel à estrutura dos seus “Contos Morais”, situando desta feita a história no século V e onde o erotismo navega em cada fotograma, basta ver a forma como ele filma as Ninfas e em especial Astrée, interpretada pela bela filha de Jean-Pierre Cassel. Por outro lado o realizador quase não investe na encenação, decidindo antes lançar os seus actores no interior da natureza, deixando depois que eles encontrem o seu próprio caminho, por esses prados e florestas onde o murmurar das águas do rio e o chilrear dos passaros compõem o ambiente perfeito ou se preferirem uma banda sonora naturalista.
“Os Amores de Astrée e Céladon” surge assim como o último capítulo da obra de um genial cineasta, chamado Eric Rohmer, possuidor de uma eterna juventude.

2 comentários:

  1. Respostas
    1. Um cineasta eternamente jovem, que aqui nos deixa o seu testamento, sempre com a relação entre os sexos como tema: da Antiguidade ao Mundo Contemporâneo.
      Beijinhos!

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