segunda-feira, 31 de julho de 2017

George Lucas – “A Vingança dos Sith” / “Revenge of the Sith”


George Lucas – “A Vingança dos Sith” / “Revenge of the Sith”
(EUA -  2005) – (140 min. / Cor)
Ewan McGregor, Natalie Portman, Hayden Christensen.

George Lucas nasceu durante a 2ª Grande Guerra, mais concretamente a 14 de Maio de 1944, na Califórnia, fazendo parte do que se viria a chamar "new way of life". Talvez por isso, durante a adolescência, começou a interessar-se por automóveis, chegando até a participar como mecânico em diversas provas, mas seria o cinema que acabaria por falar mais alto.


Matriculou-se na escola de cinema e antes de se iniciar como realizador, começou como assistente na célebre UCLA, tendo feito uma curta-metragem com os alunos intitulada THX 1138, que mais tarde se iria transformar na sua primeira longa-metragem, graças aos bons ofícios de Francis Ford Coppola, oriundo de uma outra escola, “mais prática", a de Roger Corman.


“THX 1138”, como não podia deixar de ser, aborda o território da ficção científica, numa sociedade profundamente tecnológica em que a vida humana é uma simples partícula sem importância. Esse século xxv filmado em "scope" e onde a luz natural quase é uma miragem, oferece-nos, de “mão beijada”, o futuro que o cineasta irá delinear para a sua obra cinematográfica.


“American Graffith” é o retrato de uma geração, essa mesma geração a que George Lucas pertenceu e na qual o "rock and roll" teve no interior da música uma importância fundamental, sendo natural que neste retrato de uma geração, ela seja possuidora de uma influência enorme. Curiosamente, nesta película, poderemos encontrar como actor Ron Howard, que mais tarde faria aqueles filmes que todos sabemos!!!


A espera para a chegada da obra mítica de toda a ficção científica, intitulada “Star Wars” foram quatro longos anos, desde a conclusão de “American Graffith”, ou seja 1977. Para aqueles que não sabem, a sua feitura foi recheada de percalços, com os prazos a não serem cumpridos e o Estúdio a ameaçar abandonar o projecto, aliás foi por uma “unha negra” que não se ficou com uma obra-prima perdida no tempo e todos sabemos como são muitas as "perdições" na História do Cinema. Mas, desta vez, tal não sucedeu e George Lucas criou um verdadeiro "Império", ao longo dos anos, com a Saga de “A Guerra das Estrelas”.

Na ficção científica não é possível escolher o melhor, entre os episódios IV, V e VI de “Star Wars / Guerra das Estrelas”, porque na verdade todos são obras-primas do Cinema. Quanto ao Episódio III – “A Vingança dos Sith”,  George Lucas conseguiu superar o pouco entusiasmo que nos oferecera com os I e II episódios, já que o cinema não se pode transformar num jogo de computador, porque os actores são parte essencial na sua feitura.


George Lucas, para concluir a sua Saga, foi buscar alguns dos originais dos episódios IV, V e VI, como sejam Peter Mayhew como Chewbacca (o amigo de Han Solo, personagem representado por Harrison Ford), Kenny Baker e Anthony Daniels, respectivamente R2-D2 e C-3PO, os eternos robots companheiros de aventuras de Luke, Leia e Han, bem como de Anakin, Padmé e Obi-Wan Kenobi; ainda Ian McDiarmid no papel de Palpatine, Chanceler Supremo nos episódios I, II e III e o temível Imperador nos IV, V e VI e Frank Oz como voz de Ioda. Mas quem pode esquecer que Darth Vader tem como voz James Earl Jones?


Nos Episódios I e II há demasiados efeitos especiais e superficialidade no argumento para ter uma continuidade lógica e coerente. Destaco, no entanto, como não podia deixar de ser: Liam Neeson no papel de Qui-Gon Jinn (que morre no final do Episódio I), o mestre de Ewan McGregor aka Obi-Wan Kenobi, mais tarde nos episódios IV, V e VI interpretado por Sir Alec Guinness.

No Episódio III, “A Vingança dos Sith”/”The Revenge of the Sith” mantém-se a superficialidade quanto a Natalie Portman (Padmé), não conseguindo convencer num papel que é determinante para a história. Constata-se que Hayden Christensen, no perturbado Anakin Skywalker, consegue tornar o seu desempenho credível (nota-se que o rapaz cresceu e bem).


Quanto a George Lucas, finalmente, consegue arrumar a casa e dar seguimento à história para os Episódios IV, V e VI, embora não nos agarre ao écran. Eu sei, eu sei, sequelas são sempre difíceis. Pelos vistos as prequelas ainda são mais.

Paula Nunes Lima

domingo, 30 de julho de 2017

Jean-Luc Godard – “Eu Te Saúdo Maria” / “Je Vous Salue Marie”


Jean-Luc Godard – “Eu Te Saúdo Maria” / “Je Vous Salue Marie”
(França/Suíça - 1985) – (105 min. / Cor)
Myriem Roussel, Thierry Rode, Juliette Binoche, Philippe Lacoste.

“Há um cinema, antes e depois de Godard.”
George Sadoul


Myriem Roussel e Jean-Luc Godard

O cinema de Jean-Luc Godard é uma paisagem de imagens, sons, palavras, luz habitada na sua transparência por fotogramas nascidos na memória.
Olhar “Eu Te Saúdo, Maria” / “je Vous Salue Marie” é a (im)possibilidade de observar a doutrina cristã, à luz de Jean-Luc Godard. O filme de Maria é um novo andamento da Sinfonia Godardiana, invadida pelas partituras de “Número Dois”/”Numero Deux” e “Paixão”/”Passion”.


Contrariamente ao que faria supor, esta película de Jean-Luc Godard, tal como já sucedia com “A Última Tentação de Cristo” / “The Last Temptation of Christ” de Martin Scorsese” é um filme profundamente religioso. Não há heresias, mas sim, uma contemporânea História de Maria. No filme de Jean-Luc Godard, Maria é uma mulher igual a todas as outras, com as suas angústias, desejos e incertezas, amando José.
“Je Vous Salue, Marie”, embora nada ofereça de novo ao Universo Godardiano, (excepto o angélico rosto de Myriem Roussel!), é a tradução de uma Doutrina, segundo a visão de Jean-Luc Godard.


"O Livro de Maria" / "Le Livre de Marie"

O filme de Godard é acompanhado pela película de Anne-Marie Miéville, “O Livro de Maria” / ”Le Livre de Marie”, onde o território da separação é olhado pela criança, mais uma vez, segundo o percurso delineado na mesma época por Wim Wenders no seu “Paris/Texas”, não sendo por acaso que Aurore Clement, mãe adoptiva de Hunter no filme de Wim Wenders, é a mãe de Maria, na obra de Anne-Marie Miéville, “O Livro de Maria” é uma verdadeira surpresa, pela sensibilidade que respira cada fotograma.

sábado, 29 de julho de 2017

Neil Jordan – “Premonição” / In Dreams”


Neil Jordan – “Premonição” / In Dreams”
(EUA – 1999) – (100 min. / Cor)
Annette Bening, Aidan Quinn, Stephen Rea, Robert Downey Jr.

O irlandês Neil Jordan é um cineasta que não precisa de apresentações já que todos lhe fixámos o nome desde o aparecimento no écran de “A Companhia dos Lobos” / “The Company of Wolves”, tendo atingido o pico da fama ao realizar “Jogo de Lágrimas” / “The Crying Game”, que encheu as salas de cinema e nos deu a conhecer esse actor chamado Stephen Rea, que a partir de então passou a ser uma espécie de alter-ego do cineasta. “Entrevista com o Vampiro” / “Interview With The Vampire”, "Michael Collins" e o “remake ”The End of the Affair” / “O Fim da Aventura” são outras obras maiores do cineasta.


“In Dreams” um filme pouco conhecido no nosso país e cujo lançamento foi feito directamente em dvd, relata-nos a história de Claire Cooper (Annette Bening) uma ilustradora de livros infantis, casada com um piloto da aviação comercial Paul Cooper (Aidan Quinn) que um dia vê a sua filha Rebecca desaparecer após uma sessão de teatro infantil na qual é uma das protagonistas. Rebecca (Katie Sagona) desaparece sem deixar rasto e a polícia não consegue encontrar qualquer pista para a localizar, mas Claire começa em sonhos a ver o local para onde levaram a criança: um pomar.


Todos pensam que ela está a ficar louca incluindo o seu psiquiatra Dr. Silverman (Stephen Rea) sendo internada numa clínica. Ao longo do tratamento e através dos seus sonhos vai vendo os passos do assassino, mas poucos lhe dão crédito depois de a polícia ter explorado todas as pistas, indo a todos os pomares num raio de 500 milhas e nada encontrar. Angustiada e perdida Claire decide fugir do hospital e partir ao encontro do assassino de seu nome Vivian Thompson (Robert Downey Jr.), que vai “comunicando” com ela num convite ao duelo final.


Vivian Thompson um Robert Downey Jr. espantoso vai-lhe dando em sonhos as pistas de que ela tanto necessita, mas antes desse encontro final ficaremos a saber que ele em criança fora amarrado a uma cama minutos antes de a cidade onde habitava ter sido engolida pelas águas, para dar lugar a uma barragem. Estamos assim perante uma mente perfeitamente perturbada e quando descobrimos que o quarto onde ela se encontrava na clínica em tempos idos tinha tido como paciente Vivian Thompson, mergulhamos nos abismos da mente humana.


Mas demos a palavra a Neil Jordan, “a visualização dos sonhos permitiu-me lidar com vários níveis da realidade e deu-me oportunidade de dizer ao público algo que as personagens principais não sabem. Apenas Claire e o público são testemunhas reais da terrível verdade das visões dela” e como todos sabemos, muitas vezes os sonhos são enganadores e Rebecca não se encontra num pomar, mas sim numa fábrica de sidra abandonada.
Ao longo da película são bem visíveis os filtros utilizados pelo cineasta, criando um medo permanente que se vai apoderando do espectador, conseguindo “agarrá-lo à cadeira”, quase não o deixando respirar, por outro lado o célebre tanque de Rosarito no México onde foi rodado o célebre “Titanic” de James Cameron serviu para se construir a cidade submersa.


Annette Bening consegue mais uma vez dar o seu melhor na personagem de Claire Cooper convidando-nos de forma surpreendente a seguir os seus passos na busca da filha.
Numa época em que se fala tanto em filmes de terror, aqui fica uma pérola, bastante diferente do habitual, para redescobrirmos este género cinematográfico, tantas vezes apelidado de menor e possuidor de obras que merecem uma visita obrigatória como é o caso deste filme. Redescobrir “Premonição” / “In Dreams” é o nosso desafio cinematográfico.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Quentin Tarantino – “Cães Danados” / “Reservoir Dogs”

Quentin Tarantino – “Cães Danados” / “Reservoir Dogs”
(EUA – 1992) – ( 93 min. / Cor)
Harvey Keitel, Tim Roth, Michael Madsen, Chris Penn, Steve Buscemi, Quentin Tarantino, Lawrence Tierney.

Quando “Cães Danados” / “Reservoir Dogs” viu a luz do dia no Sundance Film Festival em Janeiro de 1992, surpreendeu todos aqueles que o viram e de imediato se falou no nascimento de um autor. Na realidade Quentin Tarantino, que sempre devorou filmes, revelando uma paixão pelas películas de gangsters produzidos em Hong-Kong e Taiwan, ao escrever o argumento de Cães Danados” transportou precisamente esses elementos tão característicos das cinematografias de Hong Kong e Taiwan para o coração da America, ao contar-nos a história de um assalto falhado, a uma ourivesaria, com o intuito de roubar diamantes. Mas a forma como ele nos vai oferecer a história em “flash-back”, conduz a película a esse verdadeiro Olímpio dos Deuses.


Joe Cabot (Lawrence Tierney) o homem para quem trabalha o bando é bem conhecedor do meio e por isso mesmo, decide dar nomes de cores aos seus homens, para assim nenhum deles saber a verdadeira identidade dos membros do bando. Temos assim Mr. White (Harvey Keitel), Mr. Orange (Tim Roth, esse polícia infiltrado no bando, cuja missão é fazer fracassar o golpe), Mr. Blonde (Michael Madsen, o mais violento de todos), Mr. Pink (Steve Buscemi), Mr. Brown (Quentin Tarantino, que será morto durante o assalto) e Nice Guy (Chris Penn).
O assalto à joalharia fracassa e os elementos que restam do bando refugiam-se numa Armazém, perseguidos pelas autoridades policiais levando, no carro da fuga, um polícia, que irá ser torturado de forma bem violenta por Mr. Blonde, ficando célebre a sequência em que lhe é cortada a orelha.


Quentin Tarantino em “Cães Danados” / “Reservoir Dogs”, não só manipula o tempo de forma genial, como trabalha os “flash-back” de forma soberba, oferecendo ao espectador as pistas para as razões que levaram ao fracasso do golpe. Por outro lado introduz a suspeição entre os membros do bando, onde reina a desconfiança, tentando perceber quem é o traidor, conseguindo Quentin Tarantino manter o suspense, à medida que o tempo avança e os criminosos se encontram cada vez mais a beira dessa espiral de violência, que ditará o seu fim.


Ao revermos “Cães Danados” / “Reservoir Dogs”, cujo título nasceu de uma sugestão do dono do videoclube onde Quentin Tarantino trabalhou na juventude, percebemos que a película possui todos esses elementos que, hoje em dia, definem o seu cinema e mesmo sabendo o desfecho, continuamos a seguir com todo o interesse este enredo poderoso e violento, que não consegue deixar indiferente o espectador. 

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Jon Amiel – “A Paixão de Julia” / “Tune in Tomorrow”


Jon Amiel – “A Paixão de Julia” / “Tune in Tomorrow”
(EUA – 1990) – (107 min. / Cor)
Barbara Hershey, Keanu Reeves, Peter Falk, Patricia Clarkson.

Quando Mário Vargas Llosa, já galardoado com o Prémio Nobel da Literatura, escreveu o romance autobiográfico “A Tia Júlia e o Escrevedor”, editado em Portugal, pela D. Quixote, nunca pensou, que muitos anos mais tarde, ele fosse levado ao cinema por um grande Estúdio de Hollywood, cujo argumento foi elaborado pelo escritor William Boyd. Mas assim aconteceu, sendo a película baptizada como “Tune in Tomorrow” / “A Paixão de Julia” sendo a célebre Tia Júlia a maravilhosa Barbara Hershey, enquanto o papel do futuro escritor seria entregue a Keanu Reeves, assumindo aqui a identidade de Martin Loader, já essa figura incontornável do romance, o “amigo radiofónico dos Argentinos”, Pedro Carmichael, iria ter Peter Falk como protagonista.


No entanto o argumento foi alterado de uma forma inconcebível, já que a Argentina foi substituída pela Albânia e os Albaneses. Quem leu o livro e viu o filme percebe que os Estúdios Americanos tiveram receio de um protesto diplomático por parte do país sul-americano e com um país como a Albânia de 1990, sentiram-se perfeitamente à vontade, para levarem avante a produção, sem terem receios de problemas jurídicos.

Mario Vargas Llosa e Julia Urquidi

O jovem Martin Loader (Keanu Reeves) vai trabalhar como jornalista para a rádio local e aí vai conhecer o famoso Pedro Carmichael (Peter Falk, numa notável interpretação), autor famoso da rádio novela, que demonstra nas suas emissões um desdém profundo pela Argentina e o seu povo, - isto no livro, enquanto no filme são os albaneses o alvo - tudo servindo para a sua sátira mordaz e corrosiva.
De imediato o jovem sente um profundo fascínio por Pedro Carmichael. Mas quando o autor do romance radiofónico descobre que Martin Loader e a sua Tia Julia se encontram envolvidos numa relação amorosa, de imediato começa a introduzir no folhetim radiofónico, o romance proibido entre a tia e o sobrinho, usando como sempre o humor como meio de atingir as audiências, criando em simultâneo um enorme problema ao par amoroso, que pensava ter a sua relação proibida, bem escondida de todos.


Jon Amiel que deu nas vistas ao realizar para a televisão a excelente série “O Detective Cantor” / “The Singing Detective”, em 1986, com Michael Gambon no protagonista, oferece-nos em “A Paixão de Julia” uma excelente direcção de actores, que caracterizam de forma perfeita as personagens criadas por Mário Vargas Llosa, embora seja sempre de lamentar a adulteração que foi levada acabo pelos Estúdios no que diz respeito ao argumento, como atrás já referimos.

De qualquer Modo “A Paixão de Julia” / “Tune in Tomorrow, mantém a frescura do romance do escritor Peruano, embora seja sempre de recomendar a leitura do romance auto-biográfico, “A Tia Julia e o Escrevedor”, sobre o qual já escrevemos aqui, para o leitor se maravilhar, no verdadeiro sentido da palavra, com a Arte desse grande Mestre da Escrita chamado Mário Vargas Llosa.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Wes Craven – “Gritos” / “Scream”


Wes Craven – “Gritos” / “Scream”
(EUA – 1996) – (111 min. / Cor)
Drew Barrymore, Neve Campbell, Courteney Cox, David Arquette, Skeet Ulrich.

Os filmes de Terror sempre tiveram nos adolescentes os espectadores mais fáceis de impressionar e se nesses saudosos anos sessenta do século XX a Hammer Britânica nos ofereceu um conjunto de filmes memoráveis, com o passar dos anos, o cinema norte-americano começou a cultivar este género cinematográfico, ao descobrir esse novo público adolescente, que gostava de tremer de medo nas salas de cinema. Recordam-se das saudosas sessões de Terror no Cinema Politeama?


Wes Craven foi um dos cineastas que mais bem geriu o género, revelando-se um verdadeiro autor e basta recordar essa célebre e macabra personagem chamada Freddy Krueger, que invadia os sonhos dos adolescentes tornando-os verdadeiros pesadelos mortais, para entendermos a forma perfeita como o cineasta, nascido em Cleveland, soube gerir com enorme sucesso nas bilheteiras e reconhecimento crítico, os filmes que realizava.


“Gritos” / “Scream” já com diversas sequelas revelou-se outro enorme sucesso de Wes Craven, que partindo do genial argumento de Kevin Williamson, nos oferece um verdadeiro jogo cinéfilo, logo a abrir a película, com o célebre telefonema recebido por Casey (Drew Barrymore), numa sequência que se tornou memorável na História do Cinema.
Mais uma vez iremos assistir ao terror, através de diversos assassinatos levados a cabo por um desconhecido, cuja identidade se irá revelar dupla, porque aqui as regras não são para serem cumpridas, conseguindo desta forma agarrar o espectador à cadeira.


Como sempre o sangue irá correr no écran e as motivações para estes actos bem escondidas, apesar de Sidney (Neve Campbell que se tornou famosa com a série) desconfiar que a morte da mãe, tempos antes, se encontra relacionada com as mortes recentes, que atormentam a comunidade, o que levará como não podia deixar de ser os Media a ocorrerem ao local, porque como todos sabemos eles adoram sangue e aqui iremos encontrar a jornalista Gale Weathers (Courteney Cox), que irá ter um papel determinante no desfecho da intriga.

O cineasta Wes Craven, 
que nos deixou em 2015.

Wes Craven gere com um saber cinéfilo esta película conduzindo-o a esse estatuto de “cult-movie”, já que este filme não se destina só às plateias de adolescentes sôfregas de emoções fortes, mas também ao cinéfilo, que se diverte neste poderoso jogo de citações cinematográficas, que elevam este “Scream” a um ponto bem alto do firmamento cinematográfico.
“Gritos” de Wes Craven, que até já se viu parodiado no cinema, surge assim como uma verdadeira pérola cinéfila, no interior do género de terror.

terça-feira, 25 de julho de 2017

Eric Rohmer – “Os Amores de Astrea e Celadon” / “Les amours d’Astrée et de Céladon”


Eric Rohmer – “Os Amores de Astrea e Celadon” / “Les amours d’Astrée et de Céladon”
(França/Espanha/Itália – 2008) – (109 min. / cor)
Andy Gillet, Cécile Cassel, Stéphanie Crayencour, Véronique Reymond.

Eric Rohmer, o cineasta da palavra, em "Os Amores de Astrea e Celadon", parte de um texto escrito por Honoré d’Urfé no século XVII, cuja história se passa precisamente no século V onde, mais uma vez, o amor se encontra na ordem do dia.
O cineasta das séries “Contos Morais”, “Comédias e Provérbios” e “Contos das Quatro Estações”, prossegue assim a sua caminhada pelo interior do cinema abordando uma história de amor povoada de Pastores, Ninfas e Druidas invadindo um território decididamente mágico.


Se à primeira vista nos encontramos longe desse universo contemporâneo que fez as delícias dos espectadores ao longo de décadas, recorde-se que Eric Rohmer é o autor dos argumentos das três séries mencionadas, em “Os Amores de Astrea e Celadon” parte de um texto de outro autor, mas que ele trabalha de forma perfeita, mantendo uma certa ligação com a sua obra contemporânea.
Rodado em cenários naturais, de um bucolismo perfeito, iremos entrar no filme através de uma daquelas festas tão nossas conhecidas dos livros de banda desenhada de Goscinny e Uderzo, mantendo-se Eric Rohmer fiel a esse princípio da palavra, sempre o elemento preponderante de toda a narrativa.


Astrée e Céladon são dois pastores que se amam perdidamente, mas as suas famílias não olham de bom grado o seu amor e naquele dia, um amigo e pretendente de Astrée leva-a até à festa que decorre no campo e onde uma outra jovem tenta conquistar o amor de Céladon. Ao vê-los juntos Astrée sente-se traída pelo seu amor, mas a sua visão é conduzida pelo jovem que se encontra com ela e assim ela não vê que Céladon não acolhe os avanços da rapariga.
Sentindo-se traída, Astrée diz a Céladon que nunca mais o quer ver e este, perante tal decisão, atira-se ao rio em busca da morte. No entanto será salvo pelas Ninfas que o irão conduzir e acolher no castelo, ao mesmo tempo que decidem disputar os seus amores, em busca de prazeres bem carnais.


Já de saúde recuperada, graças aos bons ofícios de um Druida, ele só tem o desejo de recuperar o coração de Astrée, mas o facto de ela lhe ter dito que nunca mais o queria ver torna tudo muito mais complicado. Por outro lado Astrée, ao saber da morte do seu amado, passa a viver amargurada, já que ela se considera a causadora da sua morte.
E será num desses passeios pelo campo que Astrée, na companhia de alguns amigos, irá seguir esse caminho perfeito que a levará até ao castelo do célebre Druida, mas este esconde a identidade de Céladon, fazendo-o passar por mulher e apresentando-o como sua filha, contando com a inevitável cumplicidade das restantes Ninfas, que só desejam que aqueles dois seres voltem a reencontrar o amor perdido.
Como não podia deixar de ser, Astrée acha a filha do Druida muito parecida com o seu amado desaparecido, até que nasce esse momento em que Céladon lhe revela a sua identidade e o seu amor e ao reconhecê-lo, a bela Astrée julga estar perante um milagre, reencontrando o ser que ama perdidamente.


Estamos assim perante um filme cuja história poderia ser passada para o mundo contemporâneo, com as devidas alterações no argumento, ou seja Eric Rohmer mantém-se fiel à estrutura dos seus “Contos Morais”, situando desta feita a história no século V e onde o erotismo navega em cada fotograma, basta ver a forma como ele filma as Ninfas e em especial Astrée, interpretada pela bela filha de Jean-Pierre Cassel. Por outro lado o realizador quase não investe na encenação, decidindo antes lançar os seus actores no interior da natureza, deixando depois que eles encontrem o seu próprio caminho, por esses prados e florestas onde o murmurar das águas do rio e o chilrear dos passaros compõem o ambiente perfeito ou se preferirem uma banda sonora naturalista.
“Os Amores de Astrée e Céladon” surge assim como o último capítulo da obra de um genial cineasta, chamado Eric Rohmer, possuidor de uma eterna juventude.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Lesli Linka Glatter – “A Proposta” / “The Proposition”


Lesli Linka Glatter – “A Proposta” / “The Proposition”
(EUA – 1998) – (110 min. / Cor)
Kenneth Branagh, Madeleine Stowe, William Hurt, Blythe Danner, Robert Loggia, Neil Patrick Harris.

No início dos anos sessenta, no interior do cinema Americano assistimos ao final da época de ouro do sistema dos Estúdios, fruto em parte desse desastre financeiro chamado “Cleópatra”, mas também da importância que a caixa que mudou o mundo, conhecida como televisão, começou a ter no quotidiano das pessoas. E por estas duas razões o cinema americano, que sempre teve pernas para andar, renovou-se na área da produção e dos cineastas, recorde-se que os grandes cineastas clássicos terminaram as suas carreiras nesta época, surgindo então uma nova vaga de realizadores, oriundos da televisão e, curiosamente, ao longo dos anos vamos encontrar essa onda gigantesca de realizadores, que farão a sua transição do pequeno para o grande écran, uns com enorme sucesso outros nem por isso.


Lesli Linke Glatter é uma realizadora que se iniciou na televisão com enorme sucesso, mantendo-se ainda por lá, demonstrando as suas qualidades e quando olhamos para algumas das séries que tem dirigido ao longo dos anos fica tudo dito. Mas nada melhor do que deixar alguns títulos onde participou: “Amazing Stories”, produzida por Steven Spielberg, “Twin Peaks”, uma das obras-primas de David Lynch (realizou quatro episódios), “Law & Order”, “NYPD Blue”, “Grey’s Anatomy”, “The Closer” e “ER”, só para referirmos alguns dos seus trabalhos. Mas, em meados dos anos noventa (1995/1998), Lesli Linke Glatter tentou dar o salto para o grande écran, primeiro com o chamado filme de mulheres “Now and Then” / “Amigas Para Sempre”, com um elenco predominantemente feminino e em 1998 com este “The Proposition” / “A Proposta”, contando no elenco com um trio de actores que nunca nos desiludiu: Kenneth Branagh, Madeleine Stowe e William Hurt.


Kenneth Branagh é um actor/cineasta que se tornou conhecido de todos através da sua interpretação/realização de “Henry V” / “Henrique V”, que deixou o mundo cinéfilo perfeitamente deslumbrado, mas a sua carreira entre o velho e o novo mundo acabaria por ser feita de sobressaltos, assim como a sua obra de cineasta. Onde se destacam os filmes “Peter’s Friend” / “Os Maigos de Peter” uma versão “british” dos “Amigos de Alex”, “Dead Again” / “Viver de Novo”, uma tentativa falhada de navegar no universo hitchcockiano ou as suas adaptações shakespearianas, por sinal bem sucedidas de “Muito Barulho por Nada” / “Much Ado About Nothing” e “Hamlet”, onde nos era revelado o talento de Kate Winslet.


Madeleine Stowe tem sido, ao longo de décadas, sempre uma excelente actriz (de uma beleza profunda), embora esse grande sucesso tão desejado por ela nunca tenha sido conquistado, infelizmente, aliás no ano em que participou em “A Proposta” ela iria ser uma das personagens desse espantoso filme “em mosaicos”, intitulado “Playing by Heart” / “Entre Estranhos e Amantes”, ao lado de Sean Connery e Gena Rowlands, entre outros. Dedica-se nestes últimos anos ao trabalho para a televisão, tele-filmes e séries.

William Hurt é um daqueles actores de que todos conhecem a sua arte, cuja apresentação não é necessária, embora nunca seja demais referir que ele continua a trabalhar no cinema a todo o vapor, participando numa média de três filmes por ano.
Ora são estes três actores que irão dar rosto aos protagonistas de “A Proposta”, uma obra dramática passada em 1935 na cidade de Boston.


Estamos em plena era Rosevelt e Arthur Barret (William Hurt), um distinto advogado saído de Harvard, é um dos seus proeminentes conselheiros do Presidente, casado com a escritora Eleanor Barret (Madeleine Stowe) que produz obras de sucesso, onde o desejo pela emancipação feminina vive em cada página. Mas como nunca há “bela sem senão”, o casal não tem filhos, porque Arthur é estéril, no entanto a necessidade de um herdeiro é um assunto de primordial importância para esta poderosa família de Boston. Por essa razão ambos decidem contratar os serviços de um jovem licenciado em direito, Roger Martin (Neil Patrick Harris), para conceber o tão desejado fruto.


Olhados como exemplo de sucesso pela igreja local, os Barret entram assim no território do pecado, porém nessa noite programada pelo relógio biológico de Eleanor nada acontece, sendo necessário contratar de novo os “serviços” do jovem Roger Martin, que entretanto se vai apaixonar por ela e, ao saber que Eleanor foi bem sucedida na gravidez, parte para a chantagem, ameaçando reclamar o filho como seu.
Durante este período irá chegar à igreja de Boston o padre Michael McKinnan (Kenneth Branagh), oriundo de Inglaterra, que tudo fará para evitar os convites dos Barret para jantar na mansão, até chegar esse dia em que saberemos que ele é filho do irmão mais velho de Arthur Barret. E aqui também descobrimos que o seu pai é um aliado industrial do nacional-socialismo que então vigora na Alemanha e que teve em Inglaterra, como se sabe hoje, inúmeros simpatizantes, basta recordarmos o Lord Darlington (James Fox) de “Os Despojos dos Dias” de James Ivory e ficamos perfeitamente situados na realidade histórica.


A alegria da gravidez de Eleanor Barret irá transformar-se em tragédia quando ela aborta e, nesse momento capital do filme, o padre McKinnan põe de lado a amargura familiar que habita na sua alma e oferece o conforto espiritual à esposa do seu tio. Mas para complicar ainda mais este melodrama, o jovem Roger Martin aparece morto, sem identificação e será precisamente Eleanor a revelar a sua identidade, passando a olhar o marido como o assassino do amante contratado. McKinnan acabará por se envolver de tal forma na dor sentida por Eleanor, que acabará por se apaixonar por ela perdidamente, numa relação proibida aos olhos de Deus e que dará os seus frutos.

Leslie Linka Glatter

“A Proposta” surge assim como um filme onde o vigor do melodrama se encontra bem presente, embora o argumento por vezes se encontre com falhas, já que a história nos é narrada em “flashback”, embora a reconstituição da época está perfeita, enquanto a interpretação/direcção de actores surge em muito boa forma, ou eles não se chamassem Kenneth Branagh, Madeleine Stowe e William Hurt. Por outro lado, a realização de Lesli Linka Glatter apresenta-se correcta, embora nunca nasça esse golpe de asa que faça o filme sair da mediania de certa produção norte-americana.
Numa época em que, cada vez mais, os filmes oriundos do continente americano, se apresentam completamente consumidos pelos efeitos especiais, será interessante descobrir esta obra, acima de tudo pelo trabalho dos actores, mas também para reflectir neste modelo de produção.

domingo, 23 de julho de 2017

Danny Boyle – “Trainspotting”


Danny Boyle – “Trainspotting”
(Inglaterra – 1996) – (94 min. / Cor)
Ewan McGregor, Ewen Bremmer, Johnny Lee Miller, Kevin McKidd, Robert Carlyle.

O cineasta Danny Boyle, um nome hoje em dia bem conhecido de todos, após o sucesso de “Quem Quer Ser Milionário?” / “Slumdog Millionaire?”, numa das mais inesquecíveis noites dos Oscars, iniciou o seu trabalho na televisão em 1987, tendo por ali andado até 1994, ano em que assinaria o bem curioso “Pequenos Crimes Entre Amigos” / “Shallow Grave”, para dois anos depois levar ao grande écran a obra de Irvine Welsh, “Trainspotting”, que se iria tornar num verdadeiro fenómeno de bilheteira, onde irão brilhar os actores Ewan McGregor e o fabuloso Robert Carlyle, compondo a inesquecível figura desse psicopata em eterno conflito com o mundo, ou se preferirem com todos aqueles que o rodeiam.


“Trainspotting” situa a sua acção em Edimburgo oferecendo-nos a vida de um grupo de toxicodependentes com uma paixão avassaladora pela heroína, onde se irá destacar Renton (Ewan McGregor) o narrador da história, que iremos acompanhar ao longo do filme, conhecendo as suas pequenas desgraças e alucinações memoráveis, ficando célebre o seu mergulho nessa sanita pouco recomendável, para recuperar a droga perdida, numa sequência, que irá marcar o filme e que não se recomenda a espectadores sensíveis.


Renton (Ewan McGregor), Spud (Ewen Bremen) o traficante Sick Boy (Johnny Lee Miller) e Tommy (Kevin McKidd) formam um quarteto inesquecível, que ultrapassou há muito o abismo, convivendo no seu interior num eterno conflito harmonioso, pontuado de forma perfeita pelo odioso e violento Begbie (Robert Carlyle).
Um dos segredos de “Trainspotting” é o facto de Danny Boyle não se perder em falsos moralismos, optando por nos oferecer a vida perfeitamente surrealista destes toxicodependentes, não os olhando como farrapos humanos, mas sim como personagens em busca da tão desejada trip perfeita.


O sucesso de “Trainspotting”, de Danny Boyle, um dos mais importantes filmes britânicos da década de noventado século xx, ultrapassou as barreiras da ilha de sua Majestade, como todos sabemos, tornando-se num dos filmes mais vistos e comentados de sempre, oferecendo-nos interpretações memoráveis e uma banda sonora que fez furor na época e se tornou inesquecível, ao mesmo tempo que assistíamos ao nascimento de um cineasta.



Nota: Vinte anos depois irá nascer “Trainspotting 2” também realizado por Danny Boyle.

sábado, 22 de julho de 2017

Mark L. Lester - "Comando" / "Commando"


Mark L. Lester – “Comando” / “Commando”
(EUA - 1985) – (90 min. / Cor)
Arnold Schwarzenegger, Rae Dawn Chong, Dan Hendaya, Vernon Welles.

O filme menos conhecido de Arnold Schwarzenegger intitula-se “Comando” e foi realizado por Mark L. Lester. Sendo inevitável comparar este “Comando” com a película “A Fúria do Herói” / “First Blood” de Sylvester Stallone (realizado pelo canadiano Ted Kotcheff) e se “Rambo” deu origem à “Rambomania”, cultivada infelizmente por alguns políticos, este filme em que Arnold Schwarzenegger é protagonista oferece-nos o outro lado das forças especiais de intervenção rápida.


Ele não é um homem como a personagem de “Rambo”, que vive inteiramente ligado ao passado, isolado e perdido entre os seus semelhantes, mas sim um pai, que afastado da sua unidade militar, tal como todos os seus companheiros, vive sossegadamente com a filha, sendo as primeiras sequências o retrato da sua vida familiar e John Matrix (Arnold Schwarzenegger) só irá regressar à actividade de comando devido ao rapto da filha.


Evidentemente a película transporta consigo a acção condutora deste género de filmes, embora não de uma forma gratuita, (como sucede nas películas em que Jean-Claude Van Damme ou Steve Seagal, são protagonistas), já que o humor, uma das habituais marcas de muitos dos filmes interpretados por Arnold Schwarzenegger encontra-se bem presente, dentro desse contexto que iremos descobrir muitos anos depois no filme “Os Mercenários” / “The Expendables”, realizado e protagonizado por Sylvester Stallone, de homenagem aos actores dos filmes de acção e onde o próprio Arnold Schwarzenegger estará também presente.

Mark L. Lester e Arnold Schwarzenegger
durante a rodagem do filme.

O reencontro entre pai e filha e o final de “Comando”, realizado por Mark L. Lester,  não deixaram margem para uma possível continuação, situando-se antes em mais um filme de acção protagonizado por Arnold Schwarzenegger, um actor que ao longo dos anos tem sabido gerir, como poucos, a sua carreira cinematográfica, sobrando-lhe ainda tempo para se dedicar à política, chegando como muitos sabem a Governador da Califórnia, assim como Clint Eastwood, em tempos idos, foi Governador dessa bela cidade chamada Carmel, será que algum deles poderá aspirar à Presidência dos EUA? A resposta é bem simples, porque depois de termos esse actor chamado Ronald Reagan na Presidência da América, que se esquecia das frases no Teatro, como confessou um dia Ida Lupino, tudo é possível na América.