segunda-feira, 12 de junho de 2017

Stephen Frears – “Anatomia do Golpe” / “The Grifters”


Stephen Frears – “Anatomia do Golpe” / “The Grifters”
(EUA – 1990) – (119 min. / Cor)
Anjelica Huston, John Cusack, Annette Bening, J. T. Walsh, Pat Hingle.


Durante os anos quarenta e cinquenta (do século passado), o cinema norte-americano ofereceu-nos os melhores “film noir” de sempre mas, em 1990, Martin Scorsese decidiu revisitar o género como produtor, convidando o britânico Stephen Frears para realizar “The Grifters”, oferecendo desta forma uma das mais belas homenagens a este género do cinema, hoje em dia um pouco arredado do grande écran.



“Anatomia do Golpe”, título da película em Portugal, baseia-se num romance do escritor Jim Thompson de 1950 e que Donald Westlake transportou para os dias de hoje, de uma forma exemplar. Iremos assim conhecer a história de três vigaristas. E aqui não estamos perante aquilo que é hábito denominar a grande golpada (no género “The Sting”/ “A Golpada” de George Roy Hill, que tinha Paul Newman e Robert Redford como protagonistas), mas sim os pequenos golpes, para sobreviver no dia-a-dia.
Roy Dillon (John Cusack) é um daqueles jovens que um dia saiu de casa porque já não conseguia estar junto da sua mãe, que o trouxe ao mundo com apenas 14 anos, decidindo seguir o seu próprio caminho. Escolhendo o pequeno golpe como modo de vida e quando falamos em pequeno golpe falamos de se estar num bar e pedir uma bebida, perguntando ao empregado se tem troco de vinte dollars, dando-lhe de seguida uma nota de um dollar, ficando para si com o respectivo troco. Ou, por outro lado, jogando às cartas e dados com ingénuos que encontra pelo caminho e que desconhecem que estão perante um burlão que possui dados e cartas viciados.



Já Mira Langsty (Annette Bening), a sua namorada, é uma burlona que teve o seu tempo alto, usando o corpo como trunfo em parceria com o seu amigo e mentor Cole (J.T.Walsh) até este enlouquecer, vítima do stress das operações ilícitas, nas quais pequenos empresários em busca de dinheiro fácil iam caindo. Sem ele, ela é uma verdadeira órfã, encontrando em Roy Dillon (John Cusack) o seu suporte e amparo, embora nunca desista de fazer o seu grande golpe, que insiste em fugir-lhe entre os dedos, continuando a usar o corpo como modo de sobrevivência.
Já a mãe de Roy Dillon, a fria e cínica Lilly Dillon (Anjelica Huston), sabe que só pode contar consigo mesma num mundo em que vive subjugada pela máfia, para quem trabalha na área de viciação de apostas de corridas de cavalos, estando encarregada de fazer subir as apostas no último minuto. Ela é uma mulher bem sucedida, que vai lentamente roubando os seus patrões à medida que vai trabalhando com eles. Mas o seu calcanhar de Aquiles é a memória do seu filho que ela nunca conseguiu amar como mãe, porque ele fora o filho indesejado, fruto do destino, quando ela começava a dar os primeiros passos rumo à adolescência.



Um dia estas três personagens vão-se cruzar no hospital onde Roy se encontra a recuperar de uma tareia que levou com um taco de baseball, quando tentava enganar mais um empregado de bar. E se Roy não gosta muito da presença da sua mãe junto de si, já Mira vê nela uma rival, devido à sua juventude bem visível, percebendo que ela é uma mulher de sucesso, no universo dos burlões.
Ao longo do filme, sempre num clima profundamente “film noir”, a música de Elmer Bernstein agarra-nos à cadeira, pontuando de forma exemplar todas as sequências, ao mesmo tempo que a fotografia de Oliver Stapleton não deixa créditos por mãos alheias, conseguindo oferecer-nos em cada fotograma a intensidade e tragédia da história.



A oportunidade do grande golpe nascerá para Myra (Annette Bening) depois de ver como Lilly (Anjelica Huston) funciona nas apostas de cavalos e, após denunciá-la à máfia, parte no seu encalço para lhe roubar o dinheiro. Mas nem sempre o sucesso persegue a mais bela e será a experiente Lilly a conseguir sobreviver, apesar de perseguida pelos seus antigos patrões. Só lhe resta ir ter com o filho para lhe pedir todo o dinheiro possível para concretizar a sua fuga dos gangsters que a perseguem. Mas Roy (John Cusack) não está disposto a ajudar a mulher que nunca o tratou como filho e, depois de ela tentar seduzi-lo, nasce uma discussão que irá conduzir à morte acidental dele, quando ela pretende roubar-lhe o dinheiro. Nasce desta forma a tragédia de que em tempos Oscar Wilde falou, quando terminamos por matar a pessoa que amamos. E, curiosamente, o único desejo de Roy Dillon era ser amado, primeiro pela mãe e depois pela namorada, terminando por ver o seu amor traído por ambas.



Este filme espantoso possui no trio dos protagonistas o seu ponto forte, todos eles atingindo o firmamento estrelar: se John Cusack demonstra ser um dos maiores actores da sua geração, Annette Bening constrói uma personagem profundamente sedutora e arrepiante, tendo sido indigitada para o Óscar, já Anjelica Huston oferece-nos todo o seu saber e experiência numa interpretação espantosa, onde os sentimentos se encontram em permanente conflito, tendo também sido indigitada para o Óscar, tal como o cineasta Stephen Frears, que aqui revisitou um género, com o apoio desse “maverick” do cinema chamado Martin Scorsese.
Rever este filme, muitos anos depois da sua estreia (vimo-lo na estreia no saudoso Apolo 70), fruto do dvd, é na verdade assistirmos a uma lição sobre o “film noir”, oferecida por conhecedores da matéria. E já agora façam uma sessão dupla com “Anatomia do Golpe” e “Corrupção” de Fritz Lang e mergulhem neste universo cinematográfico, que tantas obras-primas ofereceu à Sétima Arte.

4 comentários:

  1. Com estas resenhas, fico sempre com vontade de ver os filmes descritos.
    Um abraço

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    1. Obrigado pela visita e pelo amável comentário.
      Um abraço!

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  2. Um filme interessante com duas excelentes actrizes.

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    1. Uma bela homenagem ao "filme noir", com um elenco de luxo e a minha actriz favorita (Annette Bening!).
      Um abraço!

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