sábado, 17 de junho de 2017

Martin Campbell – “Casino Royale”


Martin Campbell – “Casino Royale”
(EUA/Alemanha/Rep. Checa - 2006) – (144 min. /Cor)
Daniel Craig, Eva Green, Mads Mekkelsen, Judi Dench, Giancarlo Gianninni.

James Bond, a célebre personagem criada por Ian Fleming, encontrou em Daniel Craig o actor ideal para a sua personagem. Mais uma vez os produtores foram buscar um actor oriundo do Teatro e com muito Shakespeare no curriculum, como já sucedera anteriormente aquando da escolha de Timothy Dalton, só que desta feita tudo parece indicar que Daniel Craig é o verdadeiro “Ás de Copas”, mas não estamos só perante a chave-mestra dos filmes de acção, simplesmente porque Daniel Craig demonstrou ser um espantoso actor nessa obra intitulada “Sylvia”, sobre a vida do casal de poetas Sylvia Plath e Ted Hughes. A sua personificação de Ted Hughes é uma das mais espantosas interpretações alguma vez vistas no grande écran e a película de Christine Jeffs não toma partido pelas feministas, que usaram ao longo de uma vida Sylvia Platt como bandeira contra o mundo masculino sendo Ted Hughes, por sua vez, usado como alvo a abater ao longo da vida. Basta ler a sua derradeira obra “Cartas de Aniversário” para sabermos a verdade dos factos, mas regressemos a outro género literário, o policial.


“Casino Royale” é o livro de Ian Fleming que marca o nascimento do famoso espião e curiosamente, após tantos James Bonds, ele nunca tinha surgido no écran na sua forma de policial e dizemos isso porque ele “nasceu” no grande écran em 1967, através dos dedos de uma mão de cinco realizadores entre os quais se destaca John Huston, Ken Hughes e Val Guest que assinaram as diversas sequências de uma delirante comédia onde Peter Sellers era King e Woody Allen dava os primeiros passos, enquanto Ursula Andress, a mais mágica das Bond-Girls (“Dr. No”), surgia na figura de Vesper Lynd, personagem atribuída muitos anos depois a Eva Green.



Temos assim finalmente o primeiro livro de James Bond adaptado ao grande écran, de acordo com as páginas escritas pelo seu criador embora a guerra fria tivesse que dar lugar ao terrorismo, fruto dos tempos e da história recente, temos assim nesta obra de Martin Campbell, o Agente de Sua Majestade em todo o seu esplendor, recorde-se o início da película a preto e branco e a forma como James Bond ganha o título de 007, a fórmula perfeita de agarrar o espectador à cadeira.



Martin Campbell, o responsável pelo (re) nascer de James Bond, não é propriamente um estreante nestas andanças, já que foi ele que estendeu o tapete a Pierce Brosnan quando ele vestiu o fato da personagem pela primeira vez em “Golden Eye”, estamos assim perante alguém que domina perfeitamente os desejos dos Grandes Estúdios de Hollywood, recordam-se dos dois Zorros? Sim foi ele o responsável das obras e do relançamento das carreiras de António Banderas e Catherine Zeta-Jones, mas também possui no seu curriculum um muito interessante e pouco conhecido “Defenseless” / “Sem Defesa”, com Barbara Hershey e Sam Shepard nos protagonistas. Olhando a carreira deste neozelandês radicado em Londres onde fez a tarimba toda na BBC, partindo depois para os “States” para trabalhar na TV como cameraman, descobrimos estar perante alguém que subiu a escada a pulso e sabe do ofício, ou seja Martin Campbell não é propriamente um daqueles homens dos Estúdios e a forma como este filme de James Bond está realizado é a prova disso mesmo, porque em Casino Royale temos todos os elementos que fizeram da série de James Bond uma verdadeira Jóia da Coroa.


Le Chiffre (Mads Mikkelsen) é um perigoso terrorista que lava o dinheiro sujo, proveniente das mais longínquas paragens do globo na bolsa, usando o terrorismo para as suas acções subirem nas cotações de Wall Street, só que desta feita James Bond vai estar no seu caminho e pela primeira vez o terrorista perde e quando se perde nesse jogo da bolsa, só podemos recuperar o dinheiro usando uma nova cartada e desta feita Le Chiffre, um apaixonado pelo jogo, decide marcar um encontro com outros jogadores de reputação obscura no Casino de Montenegro e tal como sucedia em “Goldfinger” as cartas surgem como elemento na série. O MI6 envia o seu homem James Bond e o Tesouro, por causa do dinheiro envolvido na operação, envia uma funcionária para refrear as jogadas de James, a menina chama-se Vesper Lynd (Eva Green) e dizemos menina porque foi isso que a produção decidiu, embora o recomendado fosse uma mulher do género Caterina Murino, a Solange da película, morta depois de uma noite de amor com o nosso herói. Com um James Bond chamado Daniel Craig só pode haver lugar para “Women” e nunca para “Girls”, não há bela sem senão já dizia a lenda.


Mas se os ingleses enviam o seu melhor agente, embora muitas vezes em colisão com os superiores, isto é M (Judi Dench), já os americanos através da CIA enviam o seu homem (Jeffrey Wright), porém este não maneja as cartas como James Bond e o jogo do bluff de Le Chiffre instala-se na mesa, ao mesmo tempo que os pequenos tiques, sejam verdadeiros ou falsos fazem parte das jogadas.


Martin Campbell

O que interessa acima de tudo neste “Casino Royale” é a forma como toda a acção decorre, sempre nos limites e em perfeita tensão, seja ela de carácter amoroso ou de perseguição. Ninguém brinca aqui, nem o humor criado para Roger Moore, sempre com enorme sucesso e do qual guardamos excelentes memórias surge no écran, porque os tempos são outros e os erros cometidos são pagos com a tortura e a morte e assim, desta forma, Martin Campbell consegue ir buscar às páginas de Ian Fleming a verdadeira essência do Agente de Sua Majestade e nunca um final de 007 nos obrigou a gritar Uau como este!!! Quando Daniel Craig se apresenta de metralhadora em punho e soberbamente bem vestido a pronunciar a frase que o celebrizou: “My name is Bond, JAMES BOND”.