quinta-feira, 29 de junho de 2017

Eric Rohmer – “A Coleccionadora” / ” La collectionneuse”


Eric Rohmer – “A Coleccionadora”  / ” La collectionneuse”
(França – 1967) – (85 min. / Cor)
Patrick Bachau, Haydée Politoff, Daniel Pommeurelle.


E assim chegou Eric Rohmer ao seu quarto capítulo dos seus “Contos Morais”, oferecendo-nos mais uma das suas sedutoras mulheres, de seu nome Haydée Politoff, que dá o seu nome à personagem e será precisamente com ela que se inicia o filme, num primeiro prólogo em que a vemos à beira mar, filmada de todos os ângulos possíveis, como se o cineasta estivesse seduzido por ela. E será precisamente de sedução o que se trata neste conto de Eric Rohmer, sedução e solidão ou melhor a impossibilidade de a solidão ser seduzida, como veremos no final quando Adrien (Patrick Bachau) decide partir daquele lugar paradisíaco, porque já não suporta estar só.


Tornou-se um hábito dizer que o cinema deste cineasta francês é “palavroso” e aqui, mais do que nunca, a voz do narrador é o leitor perfeito do estado psicológico das personagens.
Adrien decide partir para a casa de um amigo para passar férias onde sabe que apenas irá encontrar Daniel, parceiro dos mesmos hábitos, podendo assim mergulhar no sentido da vida através da paisagem e da leitura (sempre os livros como referência, ele vai lendo Rousseau, durante a sua estadia). Mas, ao chegar ao paraíso sonhado, encontra também na casa uma musa chamada Haydée, uma das muitas conhecidas do amigo ausente, que faz da casa o seu ponto de chegada e partida para as suas conquistas. Todos os dias um rapaz diferente vem buscar Haydée para sair e quando ela regressa, muitas vezes, não é o amigo da véspera que a acompanha, porque na verdade ela, na sua arte de sedução, é uma coleccionadora.


Tanto Adrien como Daniel pretendem estar sós naquela casa e a presença de um ser estranho ao universo de ambos surge como elemento perturbador, embora ambos se sintam seduzidos por ela. Decididamente ela é o inimigo que desejam amar e por isso mesmo decidem desprezá-la, mas a presença de Haydée é cada vez mais forte apesar de quase os ignorar, controlando a pouco e pouco a vida de ambos de forma ambígua. Se Daniel é o primeiro a desistir do jogo partindo derrotado, depois de tentar humilhá-la sem sucesso, já Adrien não resiste a abandoná-la na estrada, quando ela está a falar com dois amigos que a convidam para ela partir com eles para Itália. Adrien nem queria fugir em busca da solidão, mas o impulso, esse pequeno gesto que muitas vezes pode mudar uma vida, foi mais forte que ele e ao chegar a casa pensou que finalmente iria ter as férias que tanto desejava, sozinho, amando a passagem das horas. Porém, o que foi descobrir foi a insuportável ausência da coleccionadora ou melhor de Haydée.
A passagem das horas passou a fazer parte do seu martírio e então decide partir, para fugir do silêncio em busca desse outro lugar onde a namorada o espera e regressar ao quotidiano, embora a imagem de "dandy" que gosta de cultivar lhe faça companhia.

2 comentários:

  1. Eric Rohmer é um dos meus cineastas autores favorito!

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    1. Desde que vi pela primeira vez este belo filme no saudoso Estudio 444, já por diversas vezes o visitei, descobrindo sempre algo de novo e de belo nas imagens e nos diálogos deste cineasta eternamente jovem!
      Beijinhos

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