quarta-feira, 21 de junho de 2017

Cameron Crowe – “Quase Famosos” / “Almost Famous”


Cameron Crowe – “Quase Famosos” / “Almost Famous”
(EUA – 2000) – (122min. / Cor)  
Billy Crudup, Frances McDormand, Kate Hudson, Patrick Fugit, Jason Lee, Philip Seymour Hoffman, Zooey Deschanel.

Cameron Crowe realiza com “Almost Famous” / “Quase Famosos” uma viagem pelo mundo do “rock and roll”, nesse momento chave que foi o ano de 1973 e se no Reino Unido era o Rock Progressivo que dava cartas, já na América era o “Rock and Roll” e o “Country Rock” que arrastavam multidões. Convém recordar aqui que o cineasta é um profundo conhecedor desses tempos e do meio que descreve, já que se iniciou como jornalista na área musical, ainda adolescente, possuindo a personagem de William Miller (um magnifico Patrick Fugit) muito de si mesmo.


Patrick Fugit vive com a mãe (Francês McDormand) e a irmã (Zooey Deschanel), já que o seu pai morreu vítima de um ataque cardíaco; será num ambiente familiar conturbado pela existência do “rock and roll” que ele irá crescer, em virtude de a mãe, uma professora com uma visão muito céptica sobre esses tempos, olhar a filha mais velha de lado devido aos discos que ela ouve no quarto, mesmo quando se trata de um álbum de Simon and Garfunkel. Ela encontra nas letras das canções um incentivo ao consumo de drogas, ao mesmo tempo que o filho mais novo desconhece a sua idade real. Como é uma criança muito dotada, saltou dois anos na escolaridade, tendo 11 anos quando ele mesmo pensa que tem 13 anos, até esse momento fatal em que a mãe, por insistência da filha, é obrigada a confessar a verdade dos factos. Para o pequeno William Miller, tratado pelos colegas de escola por “narc”, fica então tudo esclarecido e terá que esperar mais uns anos pela chegada da puberdade. Mas a irmã, ao ver chegar essa idade mágica que são os dezoito anos, decide sair de casa e partir com o namorado rumo ao seu destino, deixando ao seu irmão um mundo escondido debaixo da cama: um saco com os seus LPs mágicos, onde ele irá descobrir um mundo novo que o irá fascinar para sempre, por ali moram os Black Sabbath, Joni Mitchell, Bob Dylan, The Who e o seu “Tommy”, que ela recomenda a ser escutado atentamente à luz de uma vela, porque por ali passa a vida de William Miller himself.



Assim iremos descobrir o nosso Billy aos 15 anos como um profundo fan do “rock and roll”, escrevendo crónicas musicais para a revista do liceu, ao mesmo tempo que tem uma profunda veneração pelo crítico musical Lester Bangs (Philip Seymour Hoffman, a interpretar uma figura muito famosa na época) da Revista Creem, que esteve à frente do seu tempo. Será então nos encontros com Bangs que William irá aprender a escrever sobre o universo musical desses anos e será por incitamento dele que enviará uma crónica para a célebre revista Rolling Stone. Como não poderia deixar de ser, a revista mais importante editada na época decide convidá-lo a escrever uma crónica, desconhecendo a sua idade e assim ele parte para fazer a reportagem do concerto dos Black Sabbath, terminando por escrever sobre a banda que fazia a primeira parte do concerto, os Stillwater (que existiram). Fica então acordado com a revista ele acompanhar a tournée do grupo.


Embora a mãe continue a ver a música da época como a porta de entrada para o universo da droga, ele parte com o grupo depois de ter feito amizade com o guitarrista Russell Hammond (Billy Crudup), ao mesmo tempo que encontra uma rapariga que o encanta chamada Penny Lane (Kate Hudson), uma das muitas “groupies” que acompanhavam as bandas nessa época, nas suas tournées, embora ela se afirme como uma “Band Aid” ou seja a fonte de inspiração dos músicos. Recorde-se que numa das tournées dos Rolling Stones, registada em filme, ficou célebre a violação de uma “groupie” no avião onde se deslocava o grupo.


Cameron Crowe vai-nos então oferecer o trajecto de William Miller com a banda dos “Stillwater” que, embora simpatizando com o jovem cronista, lhe chama “o inimigo”, porque sabem que ele está a trabalhar para a “Rolling Stone”, a revista que descerrou um feroz ataque aos Led Zeppelin, portanto todo o cuidado seria sempre pouco. Mas o jovem Miller irá registando em pequenas notas todos os momentos atribulados do grupo, desde os conflitos entre o guitarrista e o vocalista (Jason Lee), ambos em busca do estrelato e da liderança da banda, assim como esse momento em que os ácidos tomam conta do primeiro. Tudo será registado pela sua pena, ao mesmo tempo que Miss Penny Lane (Kate Hudson) lhe vai ensinando umas verdades sobre o mundo do “rock and roll”, estabelecendo-se uma relação profunda entre eles, terminando na confissão de alguns segredos: a verdadeira idade de Miller e o nome de baptismo dela… Lady Goodman.


Estamos perante os tempos em que o movimento foi tomado de assalto pelo sentido comercial de alguns produtores, que enriqueceram com a ingenuidade de muitas bandas, aliás bem demonstrada por Cameron Crowe quando os “Stillwater” mudam de produtor e trocam o seu autocarro pelo avião, o que irá dar resultados bastante maus, porque perante uma queda no abismo as verdades terminam sempre por vir ao de cima: desde o “adultério” até às opções sexuais de um dos membros, acabando de forma abrupta a digressão de 1973. E com ela termina a reportagem de William Miller que, ao se apresentar na redacção da Rolling Stone em S. Francisco, deixa o seu chefe Ben Fong-Torres (outra personagem real) em estado de choque, porque na sua frente está um miúdo que lhe gastou 6000 dollars a fazer a reportagem, mas o pior ainda está para vir porque os factos narrados por Miller são desmentidos pelo guitarrista à revista, perdendo-se a capa e a respectiva reportagem dedicada ao grupo.


Ao longo da película, o cineasta oferece-nos uma reconstituição da época bastante sólida ou não fosse ele um profundo conhecedor do meio, ao mesmo tempo que as relações entre “groupies” e músicos surgem muito bem retratadas, basta ver a forma como funciona a relação de Penny Lane com Russell Hammond, ao longo da tournée, até esse momento em que Nova Iorque surge no horizonte e já não há lugar para ela, porque na Big Apple a sua “mulher” espera por ele. Aqui assistimos a esse momento de angústia que se chama tentativa de suicídio, por parte da inconsolável Penny Lane. Por outro lado, a forma como o “rock and roll” vivia nos hotéis faz-nos recordar esse espaço mítico que foi o “Chelsea Hotel”, casa de uma geração até ao incêndio que o devastou e que serviu de tema a uma canção de Leonard Cohen.


Mas como todas as histórias do rock and roll devem ter um final feliz, segundo Cameron Crowe, os “Stillwater” voltam à estrada no ano seguinte no seu famoso autocarro e graças a Miss Penny Lane, que possui uma ternura infinita por William Miller e um amor profundo por Russell Hammond, cria-se um novo encontro entre o jovem cronista e o guitarrista na casa do primeiro, nascendo desta forma esse happy-end de que todos gostamos: Russell confirma a reportagem à revista Rolling Stone, saindo pouco depois a reportagem de William Miller com a banda como tema da capa, ao mesmo tempo que a jovem “groupie” decide partir para Marrocos, em busca de outros ares, os "beatnicks" ainda andavam por lá.

O cineasta Cameron Crowe e os seus "duplos"!

“Quase Famosos” revela-nos uma direcção de actores espantosa, aliás uma das artes de Cameron Crowe, sendo de destacar a interpretação de Philip Seymour Hoffman como o grande mentor de William Miller e como não podia deixar de ser o jovem Patrick Fugit que dá muito boa conta do recado, depois nunca nos poderemos esquecer dessa figura composta por Kate Hudson, com a sua fragilidade bem escondida e Billy Crudup, um nome que merece ser fixado. Reencontrar este “Almost Famous” é entrar pela porta mágica do cinema no interior do universo dos anos setenta e do maravilhoso mundo do “rock and roll”.

Nota: Há uma versão do cineasta com a duração de 162 minutos em dvd.

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