segunda-feira, 26 de junho de 2017

Terrence Malick – “A Barreira Invisível” / “The Thin Red Line”


Terrence Malick – “A Barreira Invisível” / “The Thin Red Line”
(EUA – 1998) – (170 min. / Cor)
Sean Penn, James Caviezel, Nick Nolte, Elias Kotea, George Clooney, John Travolta, John C. Reiley, John Cusack, Woody Harrelson, Ben Chaplin, Adrien Brody.

Terrence Malick ao realizar em 1973 “Noivos Sangrentos” / “Badlands”, em que nos revelou esse par memorável constituído por Martin Sheen e Sissy Spacek, de imediato chamou a atenção de todos sobre si. E cinco anos depois com “Dias do Paraíso” / “Days of Heaven”, com Richard Gere e Sam Shepard nos protagonistas, confirmou tudo o que se escrevera acerca dele: estamos perante um dos maiores cineastas norte-americanos! Para depois desaparecer do firmamento cinematográfico, sem deixar rasto, falando-se durante anos num possível projecto que iria ter como pano de fundo a terrível guerra do Pacífico, ocorrida durante a Segunda Grande Guerra.


Quando os rumores, muitos anos depois se tornaram realidade e se teve conhecimento que Terrence Malick preparava, para passar ao cinema, o célebre romance de James Jones “The Thin Red Line”, de imediato foram inúmeras as estrelas de Hollywood que desejaram participar no projecto, mesmo que surgissem num número reduzido de sequências, como sucedeu com George Clooney, todos estavam dispostos a figurar na película que marcava o regresso do cineasta à actividade. E como não podia deixar de ser, o resultado foi surpreendente.


Muitos tentaram comparar o filme de Terrence Malick, “A Barreira Invisível”, com a película “O Resgate do Soldado Ryan” de Steven Spielberg, o que se revelou redutor, já que a distância que as separa é enorme. Se o filme de Steven Spielberg tem essa entrada de leão, com o genial desembarque na Normandia das forças aliadas, acaba depois por perder o ritmo necessário, algo que seria corrigido no fabuloso “Cavalo de Guerra” / “War Horse” . Já “A Barreira Invisível” / “The Thin Red Line” oferece-nos um olhar contemplativo, sobre o cenário de guerra, mergulhando no espaço de forma perfeita, demonstrando como o Paraíso se pode transformar numa fracção de segundo num verdadeiro inferno, em que a vida humana não conta, revelando-se verdadeira carne para canhão, para cumprir os objectivos traçados pelas altas patentes militares.


Iremos assim ter um retrato quase filosófico do cenário de guerra, onde iremos encontrar o mais diverso tipo de homens, todos eles com visões do conflito bem patentes. Conhecemos o Tenente-Coronel Gordon Tall (Nick Nolte) disposto a sacrificar a vida dos seus homens para agradar aos superiores, conseguindo desta forma a tão ambicionada promoção, passando pelo sargento Edward Welsh (Sean Penn) com uma visão bem cínica do conflito, até chegarmos a esse capitão James Staros (Elias Kotea), um humanista no teatro de operações, que não esconde o seu ódio pelo conflito. Já o soldado desertor Witt (Jim Caviezel), que encontramos no Paraíso, acabará por ter de regressar à sua companhia para enfrentar a dor e a morte numa feroz luta contra as tropas japonesas que, como todos sabemos, venderam bem cara a derrota na chamada Guerra do Pacífico. Aliás a ferocidade dos combates é bem patente no filme, demonstrando como as guerras são o momento mais baixo da humanidade.


“A Barreira Invisível” / “The Thin Red Line” marcou decididamente o regresso à actividade do cineasta Terrence Malick, que, embora injustamente esquecido pela Academia, nos ofereceu um filme memorável, transformando esta obra-prima num dos melhores filmes do género, realizados ao longo de mais de cem anos da História do Cinema.

domingo, 25 de junho de 2017

David Fincher – “Sete Pecados Mortas” / “Seven”


David Fincher – “Sete Pecados Mortas” / “Seven”
(EUA – 1995) – (127 min. / Cor)
Morgan Freeman, Brad Pitt, Kevin Spacey, Gwyneth Paltrow.

Quando David Fincher surgiu nos nossos écrans a realizar o terceiro capítulo da série “Alien”, muitos ficaram espantados pela forma claustrofóbica como ele dirigia a película, revelando um saber pouco usual num estreante nas longas-metragens de ficção, mas este cineasta que anteriormente tinha trabalho com John Korty na Industrial Light and Magic era dono de um saber cinematográfica que se irá expandir nas suas obras seguintes, como todos puderam comprovar. Após deixar a Industrial Light and Magic, David Fincher dedicou-se à publicidade e à realização de video-clips, sendo Madonna, Sting e George Michael alguns dos que conheceram o seu brilhantismo no género.


Ao realizar “Seven” / “Sete Pecados Mortais”, David Fincher mergulhou no género policial explorando a psicologia do assassino, um “serial killer” que irá basear os seus assassinatos hediondos nos famosos sete pecados mortais de que fala a Bíblia, demonstrando um sadismo insuportável para o espectador, veja-se aliás a forma como nos é retratada a gula, logo no início da película, verdadeiramente macabro.
Iremos assim seguir o trabalho de dois detectives dos homicídios, os tenentes William Somerset (Morgan Freeman), um homem bem conhecedor dos terrenos que pisa e o novato David Mills (Brad Pitt), que assim formam a habitual dupla policial constituída pelo veterano e o novato.


Para tornar o filme mais negro, David Fincher oferece-nos um clima terrível numa cidade em que a chuva é impiedosa e constante e onde o “serial killer” continua a sua missão assassina sem ser apanhado, até chegar esse momento em que se entrega na esquadra e os detectives descobrem que seria impossível identificá-lo através das impressões digitais, porque ele tinha cortado a ponta dos dedos, para não ser identificado. E quando o “serial killer” os conduz para fora da cidade para lhes revelar o último dos seus crimes, iremos descobrir de forma atroz que o alvo foi Tracy Mills (Gwyneth Paltrow), a mulher grávida do detective David Mills (Brad Pitt).


Ao longo de toda a película a violência impera de forma atroz, sendo os assassínios de John Doe (Kevin Spacey) verdadeiramente macabros e arrepiantes, contagiando desta forma a atenção do espectador, ao mesmo tempo que vamos acompanhando o desenrolar das investigações, escondendo David Fincher o rosto do “serial killer”, para assim aguçar ainda mais o interesse na descoberta da sua identidade.
A forma como nos é oferecido “Seven” / “Os Sete Pecados Mortais” é memorável, espalhando o terror em todas as suas vertentes, perante a impotência dos detectives. E quando terminamos de ver a película só nos apetece respirar um pouco de ar puro, porque o clima em que vivemos as duas horas de filme tornou quase irrespirável o oxigénio que consumimos.

David Fincher durante a rodagen de "Seven"

“Seven” / “Os Sete Pecados Mortais” terminou por nos revelar um cineasta que controla com todo o seu saber o material cinematográfico que tem em mãos, explorando até ao limite o horror perpetrado por esse assassino chamado John Doe (Kevin Spacey), um “serial-killer” que após ter terminado a sua “missão divina” só deseja ser morto, como vemos no final da película.

sábado, 24 de junho de 2017

Eric Rohmer – “O Amor às Três da Tarde” / “L’amour l’aprés-midi”


Eric Rohmer – “O Amor às Três da Tarde” / “L’amour l’aprés-midi”
(França – 1972) – (98 min. / Cor)
Bernard Verley, Zouzou, Françoise Verley, Barbette Ferrier.


Com “O Amor às Três da Tarde” Eric Rohmer irá encerrar a sua série intitulada “Contos Morais” e, uma vez mais, ele irá oferecer-nos uma história em que o convite ao adultério é o tema.
Fréderic (Bernard Verley) mora nos subúrbios com a mulher e uma criança, fruto do amor que ambos nutrem um pelo outro, encontrando-se um segundo filho “a caminho”. A sua relação é tranquila e ele gosta de ocupar o tempo que tem, durante a hora de almoço, a passear e a visitar lojas, acabando sempre por comprar algo, como iremos ver naquele dia em que compra uma camisola de gola alta, devido à insistência da bela vendedora, apesar de não gostar da cor.


Estamos assim decididamente no interior do cinema de autor de Eric Rohmer, com essa bela Paris em fundo e de imediato percebemos que o nosso herói é um homem fascinado pelas mulheres, gostando de estar sentado no café a observar as mulheres que passam, acabando muitas vezes por viver sonhos na sua companhia. E será durante um desses sonhos que Eric Rohmer faz desfilar perante o olhar do protagonista e do espectador as estrelas femininas dos seus contos morais anteriores: Françoise Fabian e Marie-Christine Barrault, protagonistas de “A Minha Noite em Casa de Maud” / “Ma Nuit Chez Maud”; Haydée Politoff, a heroína de “A Coleccionadora” / La Collectionneuse”; Aurora Cornu, Laurende de Monaghan e Béatrice Romand, o trio feminino de “O Joelho de Claire” / “Le Genou de Claire”. E de imediato percebemos a atracção que exerce o sexo feminino em Fréderic, esse jovem advogado de sucesso, sendo inevitável a comparação com o protagonista de “O Homem que Gostava das Mulheres” / “L´homme qui aimait les femmes”, criado por François Truffaut.


E será precisamente durante uma dessas viagens, na hora de almoço, que Fréderic se irá cruzar com Chloé (Zouzou), a antiga namorada do seu amigo Bruno, que irradia uma frescura contagiante. No início tudo não passa de um encontro casual, mas como temos sempre 99 por cento de hipóteses de encontrar essa mesma pessoa no dia seguinte, assim sucede com eles. E Chloé gosta de furar as regras, vivendo sempre ao sabor dos homens que vai encontrando, usando-os de acordo com as suas conveniências.
Lentamente a bela aranha irá construir a sua teia em redor de Fréderic: começa a visitá-lo no emprego; faz-se encontrada com o casal para conhecer Hélene (Françoise Verley) e envia-lhe uma linda roupa para o futuro recém-nascido; pede a Fréderic para ele ir com ela visitar uma casa que pretende alugar. Até chegarem essas três horas da tarde, em que o amor tem de decidir o seu destino.


Quase no final do filme, quando vimos Chloé nua, deitada na cama, Eric Rohmer cita Ingres e constrói um dos planos mais belos de “O Amor Às Três da Tarde”, embora também se possa ver nessa imagem a “Olympia” de Manet, como referiu o próprio Eric Rohmer. Mas não há nada como lhe dar a palavra sobre esse momento sublime: «A pose recorda talvez mais a “Olympia” de Manet, do que as “Odaliscas”, mas o modelo e o desenho, parecem-me muito “ingrescos”. Isso vem não apenas da maneira como a figura é fotografada, mas igualmente das suas características intrínsecas: os traços regulares, gregos, do rosto, o tom da carne, a estrutura do corpo longilíneo e, ao mesmo tempo projectado de perfil. (…) O único truque utilizado foi-me sugerido por Bernard Verley que é pintor e conhece as astúcias do atelier: colocámos sob o colchão almofadas para quebrar a linha do corpo e valorizar as suas curvas.»


E assim Eric Rohmer oferece-nos esse plano sublime de “O Amor às Três da Tarde” / “L’amour l’aprés midi”, que irá decidir a vida amorosa do sonhador Fréderic. Irá ele resistir aos encantos da bela e sensual Chloé ou cairá na tentação do pecado?

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Obrigado Google por esta bela surpresa!


Um dia especial!


A descoberta de "Nunquan" de Lawrence Durrell em Paris, no Antiquário da Shakespeare & Co., graças à simpatia inesquecível de duas jovens funcionárias da Livraria e da minha Princesa, fizeram da viagem a Paris, deste ano de 2017, um momento inesquecível, porque "perseguia" este livro, que é a continuação de "Tunc", desde finais dos anos setenta do século xx.
Há horas felizes, obrigado Princesa!

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Michael Powell – “A Vítima do Medo” / “Peeping Tom”


Michael Powell – “A Vítima do Medo” / “Peeping Tom”
(Inglaterra – 1960) – (109 min. / Cor)
Karl-Heinz Boehm, Anna Massey, Moira Shearer.

 “A Vítima do Medo” será sempre um filme que está acima do género que aborda, o filme de terror ou de psicopatas, porque o seu autor se chama Michael Powell. Na época, o filme de terror arrastava o público para as salas de cinema mas o cineasta pretendia, acima de tudo, oferecer-nos uma visão bem diferente do habitual, ao apresentar-nos uma personagem vítima da infância, já que fora o seu pai, um psiquiatra, que lhe incutira ao longo dos anos o sentimento do medo e do desejo, fazendo experiências com o filho, ainda criança, ao mesmo tempo que o filmava. Aliás será extremamente curioso o facto da figura do pai ser interpretada pelo próprio cineasta, que estava profundamente seduzido pelo argumento de Leo Marks.


Michael Powell refere-se desta forma à película: «“Peeping Tom” é um filme muito terno. Quase romântico. Fiquei logo fascinado pelo assunto. Senti-me muito próximo do protagonista, que é um realizador “absoluto”, alguém que aborda a vida na perspectiva de um realizador, tem consciência disso e por isso sofre. Ele é um técnico da emoção. E eu sou uma pessoa fascinada pela técnica, constantemente a montar, mentalmente, as cenas que se passam diante de mim na rua, por isso consegui partilhar a angústia do protagonista.»


Recorde-se que Mark Lewis (Karl-Heinz Boehm numa memorável interpretação) utiliza uma câmara de 16 mm para filmar a morte violenta das suas vítimas, oferecendo-lhes através de um espelho a visão desse momento atroz, a fim de levar até ao limite o seu voyeurismo assassino. A câmara que usa possui um estilete que utiliza para as matar, geralmente mulheres que encontra na rua a exercerem a sua “profissão” e que ele convida para o seu quarto.
Mas um dia os seus “sentimentos/impulsos” mórbidos serão fortemente perturbados, quando se cruza com a sua vizinha (Anna Massey) a quem conta as práticas psiquiatras do pai com ele, mostrando-lhe os filmes de infância.
O amor que começa a sentir pela jovem perturba a sua mente assassina, até que chega esse dia em que só lhe resta o suicídio, para fugir ao mal que lhe perturba a alma, usando a própria arma do crime, quando a polícia descobre finalmente a sua identidade.


Muito mal recebido na época, “A Vítima do Medo” / “Peeping Tom” foi o derradeiro filme de um dos mais fascinantes cineastas britânicos, uma das personagens mais admiradas por Martin Scorsese no universo da Sétima Arte, que nos deixou obras imortais como “Os Sapatos Vermelhos” / “The Red Shoes” e “Quando os Sinos Dobram”./ “The Black Narcissus”.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Cameron Crowe – “Quase Famosos” / “Almost Famous”


Cameron Crowe – “Quase Famosos” / “Almost Famous”
(EUA – 2000) – (122min. / Cor)  
Billy Crudup, Frances McDormand, Kate Hudson, Patrick Fugit, Jason Lee, Philip Seymour Hoffman, Zooey Deschanel.

Cameron Crowe realiza com “Almost Famous” / “Quase Famosos” uma viagem pelo mundo do “rock and roll”, nesse momento chave que foi o ano de 1973 e se no Reino Unido era o Rock Progressivo que dava cartas, já na América era o “Rock and Roll” e o “Country Rock” que arrastavam multidões. Convém recordar aqui que o cineasta é um profundo conhecedor desses tempos e do meio que descreve, já que se iniciou como jornalista na área musical, ainda adolescente, possuindo a personagem de William Miller (um magnifico Patrick Fugit) muito de si mesmo.


Patrick Fugit vive com a mãe (Francês McDormand) e a irmã (Zooey Deschanel), já que o seu pai morreu vítima de um ataque cardíaco; será num ambiente familiar conturbado pela existência do “rock and roll” que ele irá crescer, em virtude de a mãe, uma professora com uma visão muito céptica sobre esses tempos, olhar a filha mais velha de lado devido aos discos que ela ouve no quarto, mesmo quando se trata de um álbum de Simon and Garfunkel. Ela encontra nas letras das canções um incentivo ao consumo de drogas, ao mesmo tempo que o filho mais novo desconhece a sua idade real. Como é uma criança muito dotada, saltou dois anos na escolaridade, tendo 11 anos quando ele mesmo pensa que tem 13 anos, até esse momento fatal em que a mãe, por insistência da filha, é obrigada a confessar a verdade dos factos. Para o pequeno William Miller, tratado pelos colegas de escola por “narc”, fica então tudo esclarecido e terá que esperar mais uns anos pela chegada da puberdade. Mas a irmã, ao ver chegar essa idade mágica que são os dezoito anos, decide sair de casa e partir com o namorado rumo ao seu destino, deixando ao seu irmão um mundo escondido debaixo da cama: um saco com os seus LPs mágicos, onde ele irá descobrir um mundo novo que o irá fascinar para sempre, por ali moram os Black Sabbath, Joni Mitchell, Bob Dylan, The Who e o seu “Tommy”, que ela recomenda a ser escutado atentamente à luz de uma vela, porque por ali passa a vida de William Miller himself.



Assim iremos descobrir o nosso Billy aos 15 anos como um profundo fan do “rock and roll”, escrevendo crónicas musicais para a revista do liceu, ao mesmo tempo que tem uma profunda veneração pelo crítico musical Lester Bangs (Philip Seymour Hoffman, a interpretar uma figura muito famosa na época) da Revista Creem, que esteve à frente do seu tempo. Será então nos encontros com Bangs que William irá aprender a escrever sobre o universo musical desses anos e será por incitamento dele que enviará uma crónica para a célebre revista Rolling Stone. Como não poderia deixar de ser, a revista mais importante editada na época decide convidá-lo a escrever uma crónica, desconhecendo a sua idade e assim ele parte para fazer a reportagem do concerto dos Black Sabbath, terminando por escrever sobre a banda que fazia a primeira parte do concerto, os Stillwater (que existiram). Fica então acordado com a revista ele acompanhar a tournée do grupo.


Embora a mãe continue a ver a música da época como a porta de entrada para o universo da droga, ele parte com o grupo depois de ter feito amizade com o guitarrista Russell Hammond (Billy Crudup), ao mesmo tempo que encontra uma rapariga que o encanta chamada Penny Lane (Kate Hudson), uma das muitas “groupies” que acompanhavam as bandas nessa época, nas suas tournées, embora ela se afirme como uma “Band Aid” ou seja a fonte de inspiração dos músicos. Recorde-se que numa das tournées dos Rolling Stones, registada em filme, ficou célebre a violação de uma “groupie” no avião onde se deslocava o grupo.


Cameron Crowe vai-nos então oferecer o trajecto de William Miller com a banda dos “Stillwater” que, embora simpatizando com o jovem cronista, lhe chama “o inimigo”, porque sabem que ele está a trabalhar para a “Rolling Stone”, a revista que descerrou um feroz ataque aos Led Zeppelin, portanto todo o cuidado seria sempre pouco. Mas o jovem Miller irá registando em pequenas notas todos os momentos atribulados do grupo, desde os conflitos entre o guitarrista e o vocalista (Jason Lee), ambos em busca do estrelato e da liderança da banda, assim como esse momento em que os ácidos tomam conta do primeiro. Tudo será registado pela sua pena, ao mesmo tempo que Miss Penny Lane (Kate Hudson) lhe vai ensinando umas verdades sobre o mundo do “rock and roll”, estabelecendo-se uma relação profunda entre eles, terminando na confissão de alguns segredos: a verdadeira idade de Miller e o nome de baptismo dela… Lady Goodman.


Estamos perante os tempos em que o movimento foi tomado de assalto pelo sentido comercial de alguns produtores, que enriqueceram com a ingenuidade de muitas bandas, aliás bem demonstrada por Cameron Crowe quando os “Stillwater” mudam de produtor e trocam o seu autocarro pelo avião, o que irá dar resultados bastante maus, porque perante uma queda no abismo as verdades terminam sempre por vir ao de cima: desde o “adultério” até às opções sexuais de um dos membros, acabando de forma abrupta a digressão de 1973. E com ela termina a reportagem de William Miller que, ao se apresentar na redacção da Rolling Stone em S. Francisco, deixa o seu chefe Ben Fong-Torres (outra personagem real) em estado de choque, porque na sua frente está um miúdo que lhe gastou 6000 dollars a fazer a reportagem, mas o pior ainda está para vir porque os factos narrados por Miller são desmentidos pelo guitarrista à revista, perdendo-se a capa e a respectiva reportagem dedicada ao grupo.


Ao longo da película, o cineasta oferece-nos uma reconstituição da época bastante sólida ou não fosse ele um profundo conhecedor do meio, ao mesmo tempo que as relações entre “groupies” e músicos surgem muito bem retratadas, basta ver a forma como funciona a relação de Penny Lane com Russell Hammond, ao longo da tournée, até esse momento em que Nova Iorque surge no horizonte e já não há lugar para ela, porque na Big Apple a sua “mulher” espera por ele. Aqui assistimos a esse momento de angústia que se chama tentativa de suicídio, por parte da inconsolável Penny Lane. Por outro lado, a forma como o “rock and roll” vivia nos hotéis faz-nos recordar esse espaço mítico que foi o “Chelsea Hotel”, casa de uma geração até ao incêndio que o devastou e que serviu de tema a uma canção de Leonard Cohen.


Mas como todas as histórias do rock and roll devem ter um final feliz, segundo Cameron Crowe, os “Stillwater” voltam à estrada no ano seguinte no seu famoso autocarro e graças a Miss Penny Lane, que possui uma ternura infinita por William Miller e um amor profundo por Russell Hammond, cria-se um novo encontro entre o jovem cronista e o guitarrista na casa do primeiro, nascendo desta forma esse happy-end de que todos gostamos: Russell confirma a reportagem à revista Rolling Stone, saindo pouco depois a reportagem de William Miller com a banda como tema da capa, ao mesmo tempo que a jovem “groupie” decide partir para Marrocos, em busca de outros ares, os "beatnicks" ainda andavam por lá.

O cineasta Cameron Crowe e os seus "duplos"!

“Quase Famosos” revela-nos uma direcção de actores espantosa, aliás uma das artes de Cameron Crowe, sendo de destacar a interpretação de Philip Seymour Hoffman como o grande mentor de William Miller e como não podia deixar de ser o jovem Patrick Fugit que dá muito boa conta do recado, depois nunca nos poderemos esquecer dessa figura composta por Kate Hudson, com a sua fragilidade bem escondida e Billy Crudup, um nome que merece ser fixado. Reencontrar este “Almost Famous” é entrar pela porta mágica do cinema no interior do universo dos anos setenta e do maravilhoso mundo do “rock and roll”.

Nota: Há uma versão do cineasta com a duração de 162 minutos em dvd.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Nanni Moretti – “Querido Diário” / “Caro Diário


Nanni Moretti – “Querido Diário” / “Caro Diário
(Itália/França – 1994) – (100 min. / cor)
Nanni Moretti, Giovanna Bozzolo, Sebastiano Nardone, Antonio Petrocelli.

Nanni Moretti, desde que surgiu nos écrans, tem-se destacado por uma intervenção na primeira pessoa, surgindo tanto à frente como por detrás da câmara, partilhando confissões e dúvidas sobre os caminhos percorridos pela sociedade contemporânea em geral e pela sua Itália em particular, revelando um humor muito acima da média, ao mesmo tempo que nos faz recordar os grandes Mestres da Comédia Italiana, que nos anos setenta do séc. xx, invadiram os écrans de todo o mundo, usando o humor como crítica social.


“Em Querido Diário” / “Caro Diário” iremos descobrir Nanni Moretti no primeiro segmento a percorrer as ruas de Roma na sua vespa, com o seu inconfundível capacete branco, ao mesmo tempo que nos vai contando as suas memórias da cidade, na companhia do célebre piano de Keith Jarrett (The Koln Concert), que vai pontuando de forma perfeita a viagem do cineasta, até chegar a essa praia onde Pier Paolo Pasolini foi assassinado.


Já no segundo segmento do filme vamos encontrá-lo na companhia de um amigo em busca de um lugar solitário onde possam usufruir da paixão da leitura, longe desse terror dos tempos modernos chamado televisão e em especial essas célebres novelas que captam a atenção de um povo, que vive quotidianamente pendente das paixões e dramas dos intervenientes, vivendo cada momento como se tratasse de uma realidade invasora das suas vidas. E no ferryboat, rumo a essas ilhas paradisíacas e sossegadas que convidam à reflexão, iremos perceber como a acção da televisão irá contagiar o seu companheiro de viagem, que fica perfeitamente vidrado e dependente dos dramas que se desenrolam no pequeno écran, ao mesmo tempo que Nanni Moretti nos oferece um humor corrosivo das situações que acompanhamos, transformando-as numa crítica feroz e acutilante ao panorama actual do audiovisual em Itália, mas também em outros países da Europa. Como sucede no nosso pequeno Portugal.


A terminar “Querido Diário” / “Caro Diario”, iremos acompanhar a luta de Nanni Moretti com a doença, desde esse preciso momento em que lhe foi diagnosticado um cancro, revelando este episódio final um saber único na forma comedida como nos é narrada a história.

Se muitos cineastas usam a câmara como um diário íntimo e não transmissível já Nanni Moretti, em “Querido Diário” / “Caro Diário”, expõe-se de forma sincera, demonstrando uma profunda honestidade e frontalidade, na forma como nos dá a conhecer a sua visão pessoal do universo que o rodeia. Conseguindo elaborar uma obra verdadeiramente inesquecível, eliminando as barreiras que separam a ficção do documentário, ao mesmo tempo que transforma “Querido Diário” / “Caro Diário”, na película mais pessoal de toda a sua filmografia.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Candice Renoir

"Candice Renoir" é uma excelente série policial francesa,
bem diferente e cativante, que se estreia hoje
no canal AXN, às 21H20 de segunda a sexta-feira, 
que anteriormente tinha sido exibida na RTP2,
merece a sua visita. Não Perca!!!

Candice Renoir não é só uma agente da autoridade,
mas também uma mãe de quatro crianças, 
por vezes bem complicadas: os gémeos são uns "diabinhos"!

E o crime também habita a bela cidade de Sète!

As relações profissionais entre 
a Comandante Candice Renoir (Cécile Bois)
e o Capitão Antoine Dumas (Raphael Langlet)
não serão as melhores no início, mas depois...

Divorciada e mãe de quatro filhos,
Candice Renoir também tem direito a amar...

A Comandante Candice Renoir (Cécile Bois)
com a sua equipa de investigação 
e a mal-amada chefia.

sábado, 17 de junho de 2017

Martin Campbell – “Casino Royale”


Martin Campbell – “Casino Royale”
(EUA/Alemanha/Rep. Checa - 2006) – (144 min. /Cor)
Daniel Craig, Eva Green, Mads Mekkelsen, Judi Dench, Giancarlo Gianninni.

James Bond, a célebre personagem criada por Ian Fleming, encontrou em Daniel Craig o actor ideal para a sua personagem. Mais uma vez os produtores foram buscar um actor oriundo do Teatro e com muito Shakespeare no curriculum, como já sucedera anteriormente aquando da escolha de Timothy Dalton, só que desta feita tudo parece indicar que Daniel Craig é o verdadeiro “Ás de Copas”, mas não estamos só perante a chave-mestra dos filmes de acção, simplesmente porque Daniel Craig demonstrou ser um espantoso actor nessa obra intitulada “Sylvia”, sobre a vida do casal de poetas Sylvia Plath e Ted Hughes. A sua personificação de Ted Hughes é uma das mais espantosas interpretações alguma vez vistas no grande écran e a película de Christine Jeffs não toma partido pelas feministas, que usaram ao longo de uma vida Sylvia Platt como bandeira contra o mundo masculino sendo Ted Hughes, por sua vez, usado como alvo a abater ao longo da vida. Basta ler a sua derradeira obra “Cartas de Aniversário” para sabermos a verdade dos factos, mas regressemos a outro género literário, o policial.


“Casino Royale” é o livro de Ian Fleming que marca o nascimento do famoso espião e curiosamente, após tantos James Bonds, ele nunca tinha surgido no écran na sua forma de policial e dizemos isso porque ele “nasceu” no grande écran em 1967, através dos dedos de uma mão de cinco realizadores entre os quais se destaca John Huston, Ken Hughes e Val Guest que assinaram as diversas sequências de uma delirante comédia onde Peter Sellers era King e Woody Allen dava os primeiros passos, enquanto Ursula Andress, a mais mágica das Bond-Girls (“Dr. No”), surgia na figura de Vesper Lynd, personagem atribuída muitos anos depois a Eva Green.



Temos assim finalmente o primeiro livro de James Bond adaptado ao grande écran, de acordo com as páginas escritas pelo seu criador embora a guerra fria tivesse que dar lugar ao terrorismo, fruto dos tempos e da história recente, temos assim nesta obra de Martin Campbell, o Agente de Sua Majestade em todo o seu esplendor, recorde-se o início da película a preto e branco e a forma como James Bond ganha o título de 007, a fórmula perfeita de agarrar o espectador à cadeira.



Martin Campbell, o responsável pelo (re) nascer de James Bond, não é propriamente um estreante nestas andanças, já que foi ele que estendeu o tapete a Pierce Brosnan quando ele vestiu o fato da personagem pela primeira vez em “Golden Eye”, estamos assim perante alguém que domina perfeitamente os desejos dos Grandes Estúdios de Hollywood, recordam-se dos dois Zorros? Sim foi ele o responsável das obras e do relançamento das carreiras de António Banderas e Catherine Zeta-Jones, mas também possui no seu curriculum um muito interessante e pouco conhecido “Defenseless” / “Sem Defesa”, com Barbara Hershey e Sam Shepard nos protagonistas. Olhando a carreira deste neozelandês radicado em Londres onde fez a tarimba toda na BBC, partindo depois para os “States” para trabalhar na TV como cameraman, descobrimos estar perante alguém que subiu a escada a pulso e sabe do ofício, ou seja Martin Campbell não é propriamente um daqueles homens dos Estúdios e a forma como este filme de James Bond está realizado é a prova disso mesmo, porque em Casino Royale temos todos os elementos que fizeram da série de James Bond uma verdadeira Jóia da Coroa.


Le Chiffre (Mads Mikkelsen) é um perigoso terrorista que lava o dinheiro sujo, proveniente das mais longínquas paragens do globo na bolsa, usando o terrorismo para as suas acções subirem nas cotações de Wall Street, só que desta feita James Bond vai estar no seu caminho e pela primeira vez o terrorista perde e quando se perde nesse jogo da bolsa, só podemos recuperar o dinheiro usando uma nova cartada e desta feita Le Chiffre, um apaixonado pelo jogo, decide marcar um encontro com outros jogadores de reputação obscura no Casino de Montenegro e tal como sucedia em “Goldfinger” as cartas surgem como elemento na série. O MI6 envia o seu homem James Bond e o Tesouro, por causa do dinheiro envolvido na operação, envia uma funcionária para refrear as jogadas de James, a menina chama-se Vesper Lynd (Eva Green) e dizemos menina porque foi isso que a produção decidiu, embora o recomendado fosse uma mulher do género Caterina Murino, a Solange da película, morta depois de uma noite de amor com o nosso herói. Com um James Bond chamado Daniel Craig só pode haver lugar para “Women” e nunca para “Girls”, não há bela sem senão já dizia a lenda.


Mas se os ingleses enviam o seu melhor agente, embora muitas vezes em colisão com os superiores, isto é M (Judi Dench), já os americanos através da CIA enviam o seu homem (Jeffrey Wright), porém este não maneja as cartas como James Bond e o jogo do bluff de Le Chiffre instala-se na mesa, ao mesmo tempo que os pequenos tiques, sejam verdadeiros ou falsos fazem parte das jogadas.


Martin Campbell

O que interessa acima de tudo neste “Casino Royale” é a forma como toda a acção decorre, sempre nos limites e em perfeita tensão, seja ela de carácter amoroso ou de perseguição. Ninguém brinca aqui, nem o humor criado para Roger Moore, sempre com enorme sucesso e do qual guardamos excelentes memórias surge no écran, porque os tempos são outros e os erros cometidos são pagos com a tortura e a morte e assim, desta forma, Martin Campbell consegue ir buscar às páginas de Ian Fleming a verdadeira essência do Agente de Sua Majestade e nunca um final de 007 nos obrigou a gritar Uau como este!!! Quando Daniel Craig se apresenta de metralhadora em punho e soberbamente bem vestido a pronunciar a frase que o celebrizou: “My name is Bond, JAMES BOND”.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

David Lynch – “Dune”


David Lynch – “Dune”
(EUA - 1984) – (137 min. / Cor)
Kyle MacLachlan, Francesca Annis, Brad Dourif, Virginia Madsen, Silvana Mangano, José Ferrer.

“A Guerra das Estrelas” / “Star Wars” é a Space Opera por excelência, mas com “Dune” de David Lynch um novo caminho foi aberto no interior do género. Esta obra de Frank Herbert, que vendeu cerca de 18 milhões de exemplares, fascinou o produtor Dino de Laurentis e o cineasta escolhido para transformar o sonho/pesadelo de Frank Herbert, para o grande écran foi David Lynch, numa época em que ainda estava longe o projecto que o celebrizou perante o grande público, a série “Twin Peaks”.


Oriundo da pintura, tal como Robert Bresson e Akira Kurosawa, o cineasta David Lynch realizou a sua primeira película aos 26 anos, como complemento da sua obra pictórica. Os filmes seguintes, “Alphabet”, “The Grandmother” e “The Amputee” possuíam no seu interior a germinação do saber cinematográfico, aliado ao surrealismo, cujo primeiro grande fruto seria “Eraserhead” / “No Céu Tudo é Perfeito” (1976), onde já se encontravam bem patentes as linhas orientadoras do seu Universo: a deformação dos corpos e a imperfeição da beleza.


Seria através da mão de Mel Brooks que David Lynch viu surgir a consagração com “O Homem Elefante” / "The Elephant Man". George Lucas convidou-o imediatamente para realizar “O Regresso de Jedi”, mas a recusa não se fez esperar, tendo em conta o controlo pessoal que George Lucas impõe nas suas produções. Depois de uma passagem pelos Zoetrope Studios, de Francis Ford Coppola, onde o projecto “Ronnie Rocket” não chegou a ver a luz do dia, David Lynch aceitou a realização de “Dune”, ao ver nele delineados os mecanismos do exercício do poder.


O planeta “Dune” como é conhecido, também se chama “Arrakis” e nele se encontra a “Melange”, sinónimo de poder. Quem a possui obtém o controlo do sistema. Mas a guerra produz o holocausto e só a paz possibilita a sobrevivência, sendo efectuada uma aliança pelos diversos poderes (político, económico e militar). No entanto a sua eficácia revela-se precária e os conflitos renascem, demonstrando a fragilidade das palavras do Homem.


Tendo em conta os milhões postos à disposição por Dino de Laurentis, temia-se o pior para David Lynch porém o seu universo, muito pessoal e intransmissível, bem conhecido hoje em dia dos cinéfilos, manteve-se presente, ao mesmo tempo que a sua segunda paixão – a pintura, se revela perfeita na sequência do fabuloso sonho.

“Dune” não é o filme imaginado inicialmente por David Lynch, mas tendo em conta o seu poder de síntese bem expresso no início da película, devido à célebre questão da duração (*), terminamos por encontrar o universo de David Lynch no interior da ficção científica, utilizando o romance de Frank Herbert como veículo ideal.

David Lynch durante a rodagem de "Dune".

(*) - Foi lançada no mercado americano uma nova versão alargada de "Dune" da responsabilidade de David Lynch, com uma duração de 190 minutos.