sábado, 13 de maio de 2017

Nanni Moretti – “O Caimão” / “Il Caimano”


Nanni Moretti – “O Caimão” / “Il Caimano”
(Itália – 2006) – (112 min. / Cor)
Silvio Orlando, Margherita Bay, Jasmine Trinco, Michele Placido, Giuliano Montaldo.


Nanni Moretti, nesta película, oferece-nos de forma subtil o retrato do “político” e magnata italiano Sílvio Berlusconi, um dos homens mais ricos e poderosos de Itália. O “Woody Allen italiano”, como alguns lhe chamam, deixou a gestão do seu cinema Sacher em Roma e em 2004 decidiu entrar na campanha política italiana, recorde-se que foi numa manifestação que ele anunciou a feitura do filme.
O cineasta de “O Quarto do Filho” / “La Stanza del figlio” regressava desta forma ao cinema, depois de ter conquistado a Palma de Ouro em Cannes em 2001 com essa obra invasora da sensibilidade do espectador .


E, quando alguns pensaram ir encontrar um retrato panfletário do líder de “Forza Itália”, ao serem confrontados com a película, descobriram uma obra feita cheia de amor pelas personagens centrais, ao mesmo tempo que oferecia uma imagem contundente do dirigente político italiano, ou seja em “O Caimão” iremos encontrar dois filmes profundamente distintos e perfeitos. Mas regressemos um pouco atrás na carreira deste cineasta e actor, nome incontornável do cinema italiano.


Nanni Moretti surgiu no cinema com “Io sono un autarchico”, filme realizado em super 8, dando de imediato um murro no estômago de muitos pela forma como abordava a política, utilizando o humor e as interrogações do personagem criado, o célebre Michele Apicella, que irá surgir nos seus filmes seguintes, olhando o mundo que o rodeia. Recorde-se que em “Bianca” ele até colocava algumas interrogações sobre a actualidade política no nosso país, bem demonstrativo da sua intervenção política, cinematograficamente falando. Pelo caminho conquistaria o Leão de Ouro em Veneza, com “Sogni d’oro” / “Sonhos de Ouro” (1981) e o Urso de Prata em Berlim com “La Messa é finita”. Em Portugal seria com o seu portentoso “La Palombella Rossa” que o público cinéfilo o iria descobrir, nessa piscina onde jogava pólo, interrogando os caminhos do PCI. Depois iríamos viajar com ele na sua vespa pelas ruas de Roma em “Querido Diário” / “Caro diário”, ao som do piano de Keith Jarrett (Koln Concert) para, anos depois, em “Abril” / “Aprille” seguirmos o trajecto da nova personagem criada na primeira voz e em nome próprio, ou seja himself. Com “O Quarto do Filho” foi a vez de o grande público se render ao seu génio, como todos estamos recordados.


Ao chegarmos a “O Caimão”, deparamos com o visionamento de um filme sobre a extrema-esquerda italiana, produzido por esse produtor falido chamado Bruno Bonomo (Sílvio Orlando) e a sua estrela de serviço, a bela e mortal Aidra (Margherita Buy). Após terminar a sessão com o público a aplaudir o homenageado autor de série-B, ou melhor série-Z, uma das espectadoras dá-lhe um argumento intitulado “O Caimão”.
Bruno agradece e deixa o argumento de lado, a sua luta com os credores que lhe batem à porta do pequeno Estúdio e o seu filme de Cristóvão Colombo estão primeiro, mas o projecto vai por água abaixo, a RAI não lhe dá o financiamento e o “velho realizador” Franco Caspio (Giuliano Montaldo) (1), parte para outras paragens em busca de financiamento para o projecto, porque Bruno está irremediavelmente perdido.


Iremos assim descobrir que não é só a situação profissional de Bruno que se encontra à beira do abismo, a sua vida conjugal está também às portas da separação e com dois filhos pequenos pelo meio a situação torna-se insustentável. E aqui Nanni Moretti apresenta-nos o seu trunfo de cineasta ao envolver esta história cativante no interior do retrato do dirigente político Sílvio Berlusconi, porque o tema de “O Caimão” é precisamente o então líder político italiano.

Bruno necessita de fazer um filme com urgência, mas nunca iria fazer um filme sobre Berlusconi, primeiro porque votou nele, depois porque até é um homem de direita, um pouco reaccionário (repare-se no seu comportamento quando tem conhecimento das opções sexuais da realizadora) e depois porque o que refere o argumento já toda a Itália tem conhecimento. A forma de agir e proceder do dirigente italiano é conhecida de todos, assim como dos seus “antigos” aliados Umberto Bossi e Gianfranco Fini. Mas a insistência de Teresa (Jasmine Trinco) e a necessidade de conseguir algum dinheiro, levam-no a seguir em frente. Iremos assim assistir à sua luta pela concretização do filme e pelo regresso a casa da esposa.


Desta forma Nanni Moretti, ao contar uma simples história do quotidiano usando protagonistas cuja profissão é o cinema, irá entrar no mundo pantanoso criado pelo então Primeiro-Ministro Italiano. Ao realizar “O Caimão”, em 2006, Nanni Moretti dava desta forma o seu contributo na campanha eleitoral, apresentado a sua visão do dirigente italiano, optando por incluir imagens do próprio e “reproduzindo” a sua figura em tom de comédia para no final do filme, no “movie on movie”, assumir ele próprio a figura do dirigente italiano, no seu confronto com a autoridade dos Tribunais, dos Juízes e da Lei, numa fórmula realista que deixa o espectador agarrado à cadeira, perante a imagem dada de Sílvio Berlusconi.

“O Caimão” serve, acima de tudo, para nos dar uma lição de como o chamado “cinema político” pode usar a comédia para nos falar de assuntos bem sérios, revelando-se mais uma vez Nanni Moretti como o maior cineasta da sua geração. “O Caimão” não é só uma lição de cinema, ele também é uma lição de História Contemporânea.

(1) – Giuliano Montaldo é o célebre cineasta de “Sacco e Vanzetti”.