terça-feira, 30 de maio de 2017

Martin Scorsese – “Histórias de Nova Iorque – Lições da Vida” / “New York Stories – Life Lessons”


Martin Scorsese – “Histórias de Nova Iorque – Lições da Vida” / “New York Stories – Life Lessons”
(EUA – 1989) – (44 min. / Cor)
Nick Nolte, Rosanna Arquette, Patrick O’Neal, Steve Buscemi.


Durante os anos setenta do século xx (convém não esquecer que vivemos no século XXI), estiveram muito em voga os filmes de “sketches”, em que diversos realizadores abordavam um determinado tema, basta recordar esse maravilhoso “Boccacio 70” ou “Amor e Raiva” / “Amore e Rabbia”, para nos situarmos na época mas, com a passagem do tempo, o género deixou de cativar as audiências, até que em 1989 Woody Allen convidou Martin Scorsese para participar num filme de “sketches”, no qual o tema seria a cidade de Nova Iorque. O terceiro cineasta deveria ser Steven Spielberg, que acabaria por desistir do projecto, sendo substituído por Francis Ford Coppola, nascendo assim essa obra com o título genérico de “New York Stories”. Mas como por vezes sucede, há um abismo entre o filme de Martin Scorsese, “Life Lessons”, e as outras duas películas assinadas por Woody Allen e Francis Coppola.


Na época em que o filme se estreou em Lisboa ainda vigoravam os célebres intervalos e, curiosamente, o filme de Martin Scorsese ocupava a primeira parte da secção. Nós por aqui apaixonámo-nos por “Life Lessons” e fomos algumas vezes ao cinema só para ver a história do pintor Lionel Dobie (Nick Nolte), saindo depois ao intervalo.
Tínhamos encontrado uma obra-prima que nos convidava a meditar nessa Arte classificada de Sétima. “Life Lessons” é muito mais que lições da vida na relação entre o pintor e a sua obra, já que o artista se encontra dependente da presença da sua assistente/amante, para criar a sua obra.
“Life Lessons” é uma lição de cinema e poderemos dizer que este continua a ser a película que mais vezes visitamos, sempre com um enorme prazer cinematográfico, que nos convida a meditar sobre a forma simples como se pode realizar um filme.


O argumento de Richard Price é soberbo porque nele não existe uma palavra a mais, nem a menos, depois temos uma fotografia inesquecível de Nestor Almendros, que filma o trabalho do artista com uma elegância electrizante, como se sentíssemos o cheiro das tintas, ao vermos ao longo do filme como o quadro vai nascendo, mas também não nos podemos esquecer do trabalho de montagem levado a cabo por Thelma Schoonmaker, colaboradora de Martin Scorsese desde esse dia em que eles se encontraram na “sala escura” de “Woodstock”. E, por fim, temos a realização de Martin Scorsese, que manipula os planos de forma alucinante, numa velocidade vertiginosa, sempre com um raccord mais-que-perfeito, ao som do rock dos Procol Harum, Cream, Bob Dylan (fase eléctrica), chegando a criar uma perfeita magia quando funde o “Conquistador” dos Procol Harum com o “Nessun Dorma” de Puccini, nesse momento em que Lionel Dobie demonstra a Reuben Toro como a sua Arte é superior ao do jovem que acabou de partilhar a cama com a mulher que ele tanto ama.


Lionel Dobie (Nick Nolte) é um pintor famoso que habita um “loft” no Soho, em Nova Iorque e que se encontra artisticamente dependente da presença da sua assistente Paulette (Rosanna Arquette), porque ela representa esse desejo de que tanto necessita para terminar a obra que prepara para uma exposição a inaugurar dentro de dias.
Quando a vai buscar ao aeroporto (numa sequência inesquecível), fica sabendo que ela decidira deixá-lo porque se apaixonara por um jovem artista de “stand-up comedy” chamado Gregory Stark (Steve Buscemi), mas ele é tão lunático que até a deixara nas férias após uma discussão. Ora como Lionel necessita da sua presença para terminar a obra, pede-lhe para ela regressar, dando-lhe a sua palavra de escuteiro de que serão apenas bons amigos. Mas a atracção que sente por ela é superior a tudo e começa a viver um profundo martírio, embora retome o seu trabalho, dando início à criação de um quadro de grandes dimensões de uma beleza pictural absoluta. Será essa mesma criação que iremos acompanhar ao longo da película, ao mesmo tempo que vamos assistindo ao duelo entre ele e Paulette, na busca desse amor perdido.


Ele tudo faz para controlar a vida dela, ao mesmo tempo que se deixa subjugar, até chegar esse momento em que ela desiste de tudo porque percebe que nunca conseguirá ser uma grande pintora, ela nunca irá passar da “miúda” que vive com o grande génio.
Para grande alegria de Phillip Fowler (Patrick O’Neal) que acompanha o pintor há já vinte anos, as obras ficam prontas para a exposição que se revela um grande sucesso e será aqui que ele, ao beber um copo no bar, sente a mão da rapariga que o serviu na sua e percebe como a sua Arte apenas depende da presença de uma jovem mulher na sua vida. Tinha acabado de encontrar uma nova aluna a quem poderia dar lições da vida, nessa grande metrópole chamada Nova Iorque… a única cidade.


A beleza pictórica desta obra de Martin Scorsese demonstra bem como o seu génio transforma em Arte tudo em que toca, em apenas 44 minutos ele oferece-nos um filme inesquecível onde os actores são dirigidos de forma exemplar, Nick Nolte aliás tem uma das melhores interpretações da sua carreira e onde ainda temos dois “cameos” de Peter Gabriel e Deborah Harry. Nunca é demais dizer que as personagens que nos surgem no écran são perfeitamente plausíveis, todas elas com os seus desejos e frustrações, em busca da eterna luz da celebridade.
“Life Lessons” é um daqueles pequenos prazeres que leva qualquer espectador de cinema a apaixonar-se pela Sétima Arte.

9 comentários:

  1. Também gosto de ver a "mãe" do Woody Allen nos céus de New York! E até a Zoe! Mas reconheço que este trecho de cinema é magnífico!

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    1. O segmento assinado pelo Woody Allen é bem divertido e o do Coppola o que gostei menos. Já este "Life Lessons" continuo a adorar!
      Boa Tarde!

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  2. Gostei muito deste filme, mas do conjunto gostei mais do de Woody Allen. Bom dia!

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    1. O terceiro episódio assinado pelo Woody Allen é bem divertido com aquela mãe possessiva que insiste em controlar a vida do filho. Já o episódio do Coppola escrito pela sua filha Sofia, foi uma desilusão. O "Life Lessons" do Martin Scorsese continua a fascinar-me profundamente.
      Muito boa tarde!

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  3. Fico sempre aflito, quando penso ordenar, por preferência pessoal e gosto, os filmes de Scorsese, porque gosto de quase todos.
    Mas, intensamente impressiva, ficou-me gravada a sequência final de "O Padrinho III", aquele hausto enorme de silêncio, de Al Pacino, antes do grito. Que também se me associa às 3 versões de "O Grito", de Munch.
    Um bom resto de semana, para os dois!

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  4. Em tempo:
    erro colossal, o meu. Devo andar com muitas imagens dos quadros do E. Munch, na cabeça..:-)
    Claro que os "Padrinho" são do Coppola, e não do Scorsese.
    As minhas desculpas!

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    1. Quando gostamos da obra de um cineasta e pensamos em eleger o melhor terminamos por descobrir que estamos perante uma opção difícil de fazer para não dizer impossível, porque terminamos sempre por ir buscar mais um título e depois o nosso filme favorito expande-se por meia-dúzia de películas.
      Quanto ao lapso da troca dos nomes, não se preocupe, por vezes também me sucede. Aproveito para lhe contar que um dia estava com uns amigos a conversar sobre um filme que tinha descoberto, do Joseph Mankiewicz, falei no realizador, nos actores, contei a história e quando me perguntaram o título do filme... esqueci-me:)
      Obrigado pela visita e comentário e votos de uma boa semana.

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    1. Tenho que confessar que "Life Lessons", o primeiro segmento de "New York Stories" é o filme de Martin Scorsese, que mais vezes vi ao longo da vida.
      Um abraço!

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