segunda-feira, 29 de maio de 2017

Douglas Sirk – “Tempo de Amar e Tempo de Morrer” / “A Time to Love and a Time to Die”


Douglas Sirk – “Tempo de Amar e Tempo de Morrer” / “A Time to Love and a Time to Die”
(EUA – 1958) – (132 min./ Cor)
John Gavin, Liselotte Pulver, Erich Maria Remarque, Jack Mahoney.

Douglas Sirk, quando realizou “Tempo de Amar e Tempo de Morrer” / “A Time To Love and a Time To Die”, já era considerado por muitos o Mestre do Melodrama e esta película, sobre um amor durante a Segunda Grande Guerra, é a prova provada disso mesmo, que nos seja perdoada a redundância.


Nascido em Hamburgo em 1900 e filho de pais dinamarqueses de nome Sierck Detlef, iniciou a sua carreira na Alemanha mas, como muitos outros com a ascensão de Hitler, trocou o velho continente pelo novo mundo, americanizando o seu nome para Douglas Sirk, passando imediatamente a ser conhecido como um génio do melodrama, fazendo aliás diversos “remakes” desse outro mestre norte-americano chamado John Stahl.
Utilizando a cor como ninguém e usando as cambiantes com um sentido dramático, foi o responsável pela descoberta desse grande actor chamado Rock Hudson, que interpretou alguns dos seus melhores filmes como “Sublime Expiação” / “Magnificent Obsession”, “O que o Céu Permite” / “All That Heaven Allows” e “Escrito no Vento” / “Written on The Wind”.



Douglas Sirk utilizou sempre, nos seus filmes, o plano sequência com uma magia digna de nota, aliás sempre se disse que ele era um dos cineastas que montava os filmes na câmara, para evitar as célebres interferências dos produtores. E nunca é demais recordar a espantosa homenagem que lhe prestou Todd Haynes, no seu sublime filme “Longe do Paraíso” / “Far From Heaven”, em que cita de forma explícita os seus filmes e usa as célebres cores do cineasta e já agora nunca é demais falar nesse outro cineasta chamado Rainer Werner Fassbinder, que nunca escondeu as influências de Douglas Sirk nos seus filmes, tendo aliás escrito diversos textos sobre a sua obra, chegando até a colaborar com ele, numa espécie de homenagem ao Mestre.


“A Time to Love and A Time to Die” inicia-se no final da Segunda Grande Guerra, nesse momento em que as tropas alemães, à beira da derrota na Frente Russa, começam a retirar e quando menos espera Ernst Graeber (John Gavin, que iremos encontrar no filme seguinte de Douglas Sirk “Imitação da Vida” / “Imitation of Life”), irá ter direito a uma curta licença em Berlim. Espantado e satisfeito, irá descobrir a sua cidade completamente destruída e vítima de constantes bombardeamentos. A casa dos seus pais está destruída e o seu paradeiro é desconhecido.

Inicia então diversas buscas para os localizar. E será durante esse período que se irá encontrar com Elizabeth (Liselotte Pulver), a filha do médico da família e sua antiga colega de escola, para então descobrir que o regime por quem oferece a vida se encontra à beira do fim, ao mesmo tempo que a Gestapo continua a sua perseguição aos que colocam em causa as ideias do Fuhrer. Basta uma palavra de critica para se ser imediatamente preso ou destituído de funções, como sucedeu com o seu professor, aqui interpretado pelo célebre escritor alemão Erich Maria Remarque, que também é o autor do livro em que se baseia o argumento do filme.


Recorde-se que Erich Maria Remarque já tinha assinado esse espantoso livro intitulado “A Oeste Nada de Novo”, que mostrava de forma bem crua o sentido da guerra, neste caso concreto a Primeira Guerra Mundial, livro esse que depois do seu enorme sucesso foi adaptado ao grande écran por Lewis Milestone. E em “Tempo de Amar, Tempo de Morrer”, o próprio escritor dá corpo a uma das personagens, esse professor Pohlmann que um dia se atreveu a criticar o sentido da guerra e as opções do regime.


Ernst Graeber (John Gavin) irá encontrar em Elisabeth (Liselotte Pulver) o sentido da vida, durante a sua breve licença, descobrindo amargamente como um dia corresponde a um ano de vida. Este par irá viver os dias que passam juntos como uma última oportunidade de vida, terminando até por se casarem por sugestão dele, porque assim sempre poderá deixar uma pensão à mulher, porque sabe muito bem que aquele breve período é um tempo para amar e depois só lhe resta morrer na frente oriental, porque a sua hora de morrer está à muito anunciada.
Iremos assim acompanhar este par ao longo dos dias, numa Berlim à beira do fim, ao mesmo tempo que ambos vão descobrindo como funciona o regime, com as suas prisões e campos de concentração. Aliás o pai de Elizabeth irá morrer num desses mesmos campos.


“Tempo de Amar e Tempo de Morrer” mantem-se fiel ao melodrama de que Douglas Sirk foi Mestre Cinematográfico. Basta ver como ele nos mostra a partida de Ernst Graeber para a frente de batalha/morte e o olhar submisso de Elizabeth na estação em busca dele, para uma derradeira despedida, sabendo muito bem que nunca mais se irão encontrar. Depois a forma como ele morre na frente, ao ser morto por um dos russos que acabou de libertar das garras do SS, porque já não acredita nos valores daquela guerra, demonstra bem como o seu destino estava traçado, sendo o seu gesto traído por esse ódio de que a guerra se alimenta sempre. “A Time to Love and A Time to Die” é uma das obras mais fascinantes de Douglas Sirk, um cineasta que merece sempre ser recordado como o Grande Mestre do Melodrama.

A Time to Love and a Time to Die.
Tempo de Amar e Tempo de Morrer.

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