domingo, 7 de maio de 2017

Ang Lee – “Tempestade de Gelo” / “The Ice Storm”


Ang Lee – “Tempestade de Gelo” / “The Ice Storm”
(EUA – 1997) – (112 min. / Cor)
Kevin Kline, Joan Allen, Sigourney Weaver, Tobey Maguire, Christina Ricci, Elijah Wood, James Sheridan, Katie Holmes.

“Tempestade de Gelo” / “The Ice Storm” revela-se como o quinto filme da filmografia de Ang Lee. Este cineasta, nascido em Taiwan em 1954, iniciou-se no cinema com “Pushing Hands” (1992), seguindo-se “The Wedding Banquet” / “Banquete de Casamento”, (1993) uma hilariante comédia onde o sexo é o tema, no ano seguinte o cineasta irá demonstrar todo o seu saber dramático ao realizar “Eat Drink Man Woman”, mas seria com “Sense and Sensibility” / “Sensibilidade e Bom Senso” (1995), uma maravilhosa adaptação cinematográfica do famoso romance de Jane Austen, com argumento de Emma Thompson, que todos irão fixar o seu nome para sempre.


Como não podia deixar de ser, Hollywood abre as portas para o receber e tendo em conta o seu saber na arte do melodrama, decide passar ao grande écran o espantoso livro de Rick Moody, intitulado “The Ice Storm”, onde são retratados os anos setenta e a sua liberalização de costumes, nessa época em que a chamada revolução sexual ditava as regras de convívio entre os casais, mas também estendendo-se às relações entre os adolescentes maravilhados com o álcool, sexo e rock and roll.


Iremos assim descobrir o jovem Paul Hood (Tobey Maguire) no início da película, sentado num comboio imobilizado na linha devido a uma tempestade de gelo, a ler as aventuras do célebre Quarteto Fantástico, aguardando que a electricidade regresse e o comboio inicie a sua marcha rumo a New Canaan, onde reside com os pais, desconhecendo o espectador que dentro em breve irá entrar num genial “flashback”, que nos irá contar a vida daquela pequena comunidade.


Os pais de Paul, Ben Hood (Kevin Kline) e Elena Hood (Joan Allen) desistiram da então famosa terapia de casais, recorde-se que estamos na época de ouro da psicanálise, porque já não sentem necessidade dela, no entanto Ben mantém uma relação extra-conjugal com Janey Carver (Sigourney Weaver), sua vizinha e casada com um seu amigo. E se para ele a relação poderá ditar o seu futuro, devido à falta de comunicação com a esposa, já Janey encara a relação como um simples “affair” sexual, descoberta essa que irá destroçar o coração de Ben. Por seu lado Elena, que até sabe do caso, possui uma certa paixão pela cleptomania, como iremos saber ao vê-la a roubar diversos batons numa loja, apesar de ser bem conhecida dos donos.


Ao acompanharmos estes “brandos costumes” das duas famílias, iremos descobrir a forma como interagiam certos casais no início dos anos setenta, com uma verdadeira sofreguidão de sexo, recorde-se que o célebre jogo das chaves em que trocavam de par nas festas para terem novas experiências sexuais, interacção essa que se vai estender aos seus filhos, que se vão iniciar de forma “doméstica” no sexo, veja-se o relacionamento da radical Wendy Hood (Christina Ricci) com os dois filhos dos Carver, ao mesmo tempo que consomem todo o tipo de bebidas de forma verdadeiramente extravagante, ou o caso da rica Libbets Casey (Katie Holmes) misturando álcool com todo o género de comprimidos que encontra, em busca das famosas viagens cósmicas.


Como não podia deixar de ser, a tragédia espreita em cada esquina, nessa época em que Richard Nixon proclamava na televisão a sua inocência perante a descoberta do caso Watergate, e apesar destas famílias, antecessoras dos famosos yuppies surgidos nos anos oitenta, julgarem estar incólumes a tudo devido ao seu poder económico, a tragédia irá cair sobre elas das mais diversas formas, nessa terrível noite em que uma tempestade de gelo se irá abater sobe New Canaan, atingindo tanto pais como filhos, num argumento mais que perfeito e com interpretações muito acima da média, mas a que não pode ser alheia a genialidade de Ang Lee, que aqui nos oferece uma das melhores películas da sua filmografia.


“The Ice Storm” / “Tempestade de Gelo” revela-se assim como um retrato perfeito de uma certa sociedade norte-americana, nesse ano de 1970, em que a tolerância e a descoberta de novas vias para o relacionamento entre as pessoas se encontrava na ordem do dia, terminado o espectador por se encontrar perante um verdadeiro documento sociológico de uma época em que a revolução sexual atingira o seu apogeu, esquecendo-se de como eram frágeis os seus alicerces.

Sem comentários:

Enviar um comentário