sexta-feira, 5 de maio de 2017

Alejandro Gonzalez Iñarritu – “Babel”


Alejandro Gonzalez Iñarritu – “Babel”
(EUA/México - 2006) – (142 min. / Cor)
Brad Pitt, Cate Blanchett, Mohamed Akhzam, Gael Garcia Bernal, Adrianna Barraza, Rinko Kikuche, Koji Yakusho.

Era uma vez um casal de turistas americanos em viagem de reconciliação, através da paisagem desértica de Marrocos, olhando a areia do deserto. Olhando o deserto do outro lado do mundo, uma adolescente japonesa joga voleibol com as colegas em busca da vitória, enquanto nas montanhas marroquinas um pastor de cabras oferece como prenda uma espingarda aos seus dois filhos para eles protegerem o rebanho dos chacais, já Amélia recebe a notícia tão esperada em terras americanas, o casamento do seu querido filho. Estamos assim perante um mundo tranquilo e sereno, sem “choques de civilizações”, onde sobrevivem culturas diferentes numa harmonia desejada.


Estas são as imagens de um mundo “perfeito”, mas por detrás dele esconde-se um outro universo profundamente imperfeito e será esse mesmo território que será descoberto através de uma simples bala disparada por uma das crianças marroquinas, atingindo uma americana (Cate Blanchett) criando desta forma o efeito bola de neve do argumento de “Babel”, assinado mais uma vez por Guilherme Arriaga. Recorde-se que tanto “Amor Cão” / “Amores Perros” como “21 Gramas” / “21 Grams” foram assinados por ele, numa colaboração com “El Negro”, como era conhecido Iñarritu nos tempos em que este era DJ. Alejandro Gonzalez Iñarritu iniciou-se na rádio, mais precisamente na estação WFM, sendo talvez por essa razão o facto de ter assinado diversas bandas sonoras, será porém na televisão que fará escola, frequentando simultaneamente as aulas de cinema. “Amor Cão” será a película do seu “baptismo” no mundo da Sétima Arte, levando nessa viagem consigo o actor Gael Garcia Bernal, que possui em “Os Diários de Che” / “Diários de Motocicleta” de Walter Sales o seu melhor desempenho.



“Babel” fala-nos do efeito de uma bala no interior da globalização, situando a acção em terras marroquinas, japonesas, mexicanas e americanas. Estamos assim perante os contrastes de civilizações, onde a pobreza e a abundância vivem de costas viradas, o universo tecnológico japonês é de uma frieza e de um vazio de sentimentos, repare-se na forma como Chieko (Rinko Kikuche), uma surda-muda habitante de um mundo sem sons, deseja encontrar o amor através da oferta do seu corpo, numa busca desesperante de descobrir um sentido para a vida. Já em terras marroquinas o sentido das “coisas” habita no limiar da sobrevivência, enquanto no continente americano uma fronteira separa o “Paraíso” do “Purgatório”, como sabemos o desejo de uma alma no “Purgatório” é sempre a fuga para o Paraíso, como fez Amélia (Adrianna Barraza) clandestinamente, tornando-se numa das muitas ilegais mexicanas a trabalhar em casa dos “senhores americanos”, foram 16 anos de luta para depois tudo se perder numa noite na fronteira. Essa fronteira tão bem retratada por Chantal Akerman em “De L’autre Coté”.


Nesta película de Iñarritu, premiada em Cannes, deparamo-nos perante o olhar estranho de territórios fechadas sobre si mesmo, de costas voltadas e onde a abundância cria muros intransponíveis para a pobreza. Depois temos a língua, quando em total desespero Richard (Brad Pitt) tenta comunicar com o “exterior” na aldeia marroquina perdida no deserto, encontrando em Anwar (Mohamed Akhzam) o único interlocutor, já que os seus companheiros de viagem, apesar de falarem a mesma língua o abandonam naquela terra “estranha”. E por fim a política e os “media” não podiam deixar de estar presentes, os primeiros vendo de imediato a mão de terroristas e os “media” que mais uma vez procuram a notícia com que gostam de abrir os telejornais… o sangue!!! Porque o sangue possui audiência garantida e se reparar caro leitor todos os dias os nossos telejornais noticiam um desastre, uma catástrofe, eles nunca falham e se for preciso vão até ao país mais longínquo e inacessível, porque a catástrofe é necessária para aumentar o célebre share! Mas quem constitui as audiências? A resposta é profundamente incómoda!!!


“Babel” é na verdade um filme a visitar, porque nele encontramos um olhar sobre o mundo do século XXI, este mundo em que vivemos, onde a injustiça é o maior dos males.
Utilizando dois nomes sonantes do firmamento de Hollywood como são Brad Pitt (no seu melhor) e a camaleónica Cate Blanchett (que não pára de nos surpreender) e usando a figura de Gael Garcia Bernal para o mercado latino-americano, a produção de “Babel” jogou forte no interior da indústria e saiu triunfante no mundo do cinema, goste-se ou não da forma como toda a estratégia foi delineada.
Alejandro Gonzalez Iñarritu sai vencedor com este “Babel” e se isto é pecado não sabemos, outros que o digam, porque não seremos nós, amantes do cinema, que o iremos julgar.

4 comentários:

  1. Um filme excelente, mas perturbador!

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    1. Um filme que nos leva a pensar no mundo em que vivemos e como ele se revela bem diferente consoante a latitude por onde se navega.
      Boa tarde!

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  2. Fiquei com imensa vontade de ver.
    Um abraço e bom fim-de-semana

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    1. Babel é um profundo retrato do mundo em que vivemos e que nos leva a interrogar como é possível existirem abismos tão grandes entre as civilizações.
      Muito boa tarde

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