quarta-feira, 17 de maio de 2017

Abbas Kiarostami – “O Sabor da Cereja” / “Ta’m Guilass”


Abbas Kiarostami – “O Sabor da Cereja” / “Ta’m Guilass”
(Irão/França – 1997) – (95 min. / Cor)
Homayoun Ershabi, Abdolrahman Bagheri, Mir Hossein Noon, Safar Ali Moradi.

Abbas Kiarostami, possivelmente o mais célebre cineasta iraniano, constrói os seus filmes de forma minimalista, oferecendo-nos histórias sobre o quotidiano iraniano, sempre tão distante e desconhecido do observador ocidental. Como referiu um dia numa entrevista, o seu cinema deve muito a Roberto Rossellini, vendo muitos no cineasta uma espécie de herdeiro do criador do neo-realismo.


“O Sabor da Cereja” / “Ta’m e Guilass”, produzido com capitais franceses, acabaria por vencer em 1997, de forma surpreendente, a Palma de Ouro do Festival de Cannes. E mais uma vez o cineasta irá revelar no improviso das filmagens muito do seu saber, ao contar-nos a história de um homem que vemos a percorrer as ruas de Teerão no seu automóvel, solicitando auxílio para algo que desconhecemos, mas cujo pedido recebe sempre uma resposta negativa, por vezes até violenta.
Ao longo do filme Baddi (Homayoun Ershabi) até aceita dar boleia, para mais uma vez expressar as suas razões ao seu interlocutor, razões essas que continuamos a desconhecer, colocando-se Abbas Kiarostami no interior da própria viatura, com a sua pequena câmara, para assim construir o campo/contra-campo, situação que ele irá desenvolver noutras películas.


Ao acompanharmos esta caminhada, ou calvário se preferirem, do protagonista, iremos descobrir finalmente as razões que levam as pessoas a recusarem o pedido deste homem tranquilo. Ele pretende suicidar-se, mas a sua fé manda que ele seja enterrado e não quer de maneira nenhuma ser encontrado morto à beira de uma estrada. Finalmente irá encontrar um seminarista afegão (Mir Hossein Noon), que lhe promete ir ter ao local onde ele se irá suicidar, presumivelmente com veneno, depois de ele próprio ter aberto a respectiva cova, para o enterrar.
No entanto nunca iremos ver esse mesmo suicídio, nem saberemos se ele será concretizado, porque o cineasta irá deixar a personagem a meditar, possivelmente no seu passado, enquanto a noite cai.

Abbas Kiarostami

Abbas Kiarostami, com “O Sabor da Cereja” / “Ta’m e Guilass”, constrói assim com poucos meios mais uma película surpreendente, que nos deixa a reflectir sobre essa estranha fronteira que separa a vida da morte e as razões que nos levam a tomar a decisão de partir, antes da inevitável hora chegar. Aqui vos deixo o convite para descobrirem a obra cinematográfica deste cineasta, que recentemente nos deixou.

4 comentários:

  1. Um filme com o nome da minha fruta favorita só pode ser belo!

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    1. Uma película que nos oferece todo o saber desse Mestre do Cinema chamado Abbas Kiarostami:)
      Boa tarde!

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  2. Confesso que me é completamente estranho.

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    1. Abbas Kiarostami falecido recentemente e que esteve em Portugal aquando de um ciclo na Cinemateca é uma personagem extraordinária e um cineasta fascinante que sempre conseguiu contornar com um sorriso nos lábios, os obstáculos que o poder sempre lhe colocou, revelando-se um dos olhares cinematográficos mais cristalinos e fascinantes da Sétima Arte. vale a pena descobrir.
      Um abraço!

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