quarta-feira, 31 de maio de 2017

Gregory Hoblit – “Em Defesa da Honra” / “Hart’s War”


Gregory Hoblit – “Em Defesa da Honra” / “Hart’s War”
(EUA – 2002) – (125 min. / Cor)
Bruce Willis, Collin Farrell, Terrence Howard, Cole Hauser, Marcel Tures, Linus Roche.

Gregory Hoblit pertence a essa geração de cineastas que fez a tarimba toda na televisão, estreando-se no cinema só muitos anos depois, em 1996, com essa obra memorável intitulada “A Raiz do Medo” / “Primal Fear”, sobre a qual já aqui escrevemos, onde nos foi dado conhecer a genialidade desse actor chamado Edward Norton. “Hart’s War” / “Em Defesa da Honra” surge como o seu quarto capítulo na realização cinematográfica, abordando o filme de guerra, situando a acção no período da Segunda Grande Guerra.


O Tenente Thomas Hart (Colin Farrell) é filho de um Senador e por isso mesmo encontra-se afastado do teatro de operações, mas nesse dia fatal em que conduz um oficial no seu jeep até à frente de batalha, irá ser vítima de uma emboscada, terminando prisioneiro dos alemães. Iremos assim assistir ao seu interrogatório e ao consequente envio para um campo de concentração comandado pelo Coronel Werner Visser (Marcel Iures, actor romeno que merece que lhe fixemos o nome).
Ao chegar a esse inferno irá ser encaminhado para a camarata dos oficiais, vendo-se de imediato sujeito a um interrogatório pelo Coronel McNamara (Bruce Willis), que percebe que ele lhe mente sobre o que se passou durante o interrogatório, enviando-o para a camarata dos soldados, ao contrário do estipulado pelas regras.


O cineasta consegue oferecer-nos de forma perfeita o ambiente vivido no campo de concentração, ao mesmo tempo que lança dúvidas sobre o carácter do coronel McNamara, quando este envia dois oficiais negros, pilotos de um bombardeiro, para o mesmo barracão onde se encontre Hart, revelando-se de imediato, através do Sargento Bedford (Cole Hauser), o racismo existente no interior do exército americano, levando Bedford a engendrar a morte de um dos pilotos negros, perante a apatia do coronel americano que vê a guerra passar ao lado, em virtude de se encontrar prisioneiro, ao mesmo tempo que Hart se revolta, percebendo como tudo foi encenado.


Quando o Sargento Bedford surge assassinado, as culpas mais uma vez recaem sobre o outro piloto negro (Terrence Howard), que clama a sua inocência, mas como o coronel alemão até é um homem que frequentou Yale antes da Segunda Grande Guerra, aceita com curiosidade que seja feito um tribunal de acordo com as regras militares, entre os prisioneiros, para julgarem o Tenente Lincoln Scott, que irá ter como advogado de defesa o Tenente Thomas Hart, ao mesmo tempo que o papel de Juiz é atribuído ao Coronel McNamara, que não esconde de ninguém o seu desejo em condenar à morte o piloto.


Gregory Hoblit constrói assim um clima verdadeiramente tenso, em que as raízes do racismo na sociedade norte-americana surgem ao de cima, levando Hart a defender com todos os meios ao seu dispor, incluindo a ajuda que lhe dá o coronel alemão, para salvar o piloto da morte e quando menos se espera todos iremos perceber as razões de McNamara, para prolongar aquele julgamento.

Gregory Hoblit durante as filmagens
entre Bruce Willis e Collin Farrell.

Ao vermos “Em Defesa da Honra” / “Hart’s War” é inevitável recordar-se “A Grande Evasão” / “The Great Escape” de John Sturges e “Fuga para a Vitória” / “Victory” de John Huston ou essa obra-prima de Billy Wilder intitulada “Inferno na Terra” / “Stalag 17”. No entanto a película de Gregory Hoblit pretende antes de mais justificar as razões de McNamara, ao mesmo tempo que se afasta lentamente da questão racial, para no final nos oferecer esse gesto em busca da honra, levado a cabo pelos três intervenientes, ao se apresentarem como culpados da morte do sargento, para salvarem a vida uns dos outros e, como não podia deixar de ser, será Bruce Willis a vestir a pele do herói que irá sacrificar a vida em defesa da honra, ao mesmo tempo que cumpre o seu dever primordial como militar ou seja combater o inimigo por todos os meios ao seu dispor.

“Hart’s War” possui todos os ingredientes para ser um excelente filme de guerra, mas o “star-system” e o “politicamente correcto” terminaram por ditar as suas regras, ao contrário do que sucedia em “A Raiz do Medo” / “Primal Fear”.

terça-feira, 30 de maio de 2017

Martin Scorsese – “Histórias de Nova Iorque – Lições da Vida” / “New York Stories – Life Lessons”


Martin Scorsese – “Histórias de Nova Iorque – Lições da Vida” / “New York Stories – Life Lessons”
(EUA – 1989) – (44 min. / Cor)
Nick Nolte, Rosanna Arquette, Patrick O’Neal, Steve Buscemi.


Durante os anos setenta do século xx (convém não esquecer que vivemos no século XXI), estiveram muito em voga os filmes de “sketches”, em que diversos realizadores abordavam um determinado tema, basta recordar esse maravilhoso “Boccacio 70” ou “Amor e Raiva” / “Amore e Rabbia”, para nos situarmos na época mas, com a passagem do tempo, o género deixou de cativar as audiências, até que em 1989 Woody Allen convidou Martin Scorsese para participar num filme de “sketches”, no qual o tema seria a cidade de Nova Iorque. O terceiro cineasta deveria ser Steven Spielberg, que acabaria por desistir do projecto, sendo substituído por Francis Ford Coppola, nascendo assim essa obra com o título genérico de “New York Stories”. Mas como por vezes sucede, há um abismo entre o filme de Martin Scorsese, “Life Lessons”, e as outras duas películas assinadas por Woody Allen e Francis Coppola.


Na época em que o filme se estreou em Lisboa ainda vigoravam os célebres intervalos e, curiosamente, o filme de Martin Scorsese ocupava a primeira parte da secção. Nós por aqui apaixonámo-nos por “Life Lessons” e fomos algumas vezes ao cinema só para ver a história do pintor Lionel Dobie (Nick Nolte), saindo depois ao intervalo.
Tínhamos encontrado uma obra-prima que nos convidava a meditar nessa Arte classificada de Sétima. “Life Lessons” é muito mais que lições da vida na relação entre o pintor e a sua obra, já que o artista se encontra dependente da presença da sua assistente/amante, para criar a sua obra.
“Life Lessons” é uma lição de cinema e poderemos dizer que este continua a ser a película que mais vezes visitamos, sempre com um enorme prazer cinematográfico, que nos convida a meditar sobre a forma simples como se pode realizar um filme.


O argumento de Richard Price é soberbo porque nele não existe uma palavra a mais, nem a menos, depois temos uma fotografia inesquecível de Nestor Almendros, que filma o trabalho do artista com uma elegância electrizante, como se sentíssemos o cheiro das tintas, ao vermos ao longo do filme como o quadro vai nascendo, mas também não nos podemos esquecer do trabalho de montagem levado a cabo por Thelma Schoonmaker, colaboradora de Martin Scorsese desde esse dia em que eles se encontraram na “sala escura” de “Woodstock”. E, por fim, temos a realização de Martin Scorsese, que manipula os planos de forma alucinante, numa velocidade vertiginosa, sempre com um raccord mais-que-perfeito, ao som do rock dos Procol Harum, Cream, Bob Dylan (fase eléctrica), chegando a criar uma perfeita magia quando funde o “Conquistador” dos Procol Harum com o “Nessun Dorma” de Puccini, nesse momento em que Lionel Dobie demonstra a Reuben Toro como a sua Arte é superior ao do jovem que acabou de partilhar a cama com a mulher que ele tanto ama.


Lionel Dobie (Nick Nolte) é um pintor famoso que habita um “loft” no Soho, em Nova Iorque e que se encontra artisticamente dependente da presença da sua assistente Paulette (Rosanna Arquette), porque ela representa esse desejo de que tanto necessita para terminar a obra que prepara para uma exposição a inaugurar dentro de dias.
Quando a vai buscar ao aeroporto (numa sequência inesquecível), fica sabendo que ela decidira deixá-lo porque se apaixonara por um jovem artista de “stand-up comedy” chamado Gregory Stark (Steve Buscemi), mas ele é tão lunático que até a deixara nas férias após uma discussão. Ora como Lionel necessita da sua presença para terminar a obra, pede-lhe para ela regressar, dando-lhe a sua palavra de escuteiro de que serão apenas bons amigos. Mas a atracção que sente por ela é superior a tudo e começa a viver um profundo martírio, embora retome o seu trabalho, dando início à criação de um quadro de grandes dimensões de uma beleza pictural absoluta. Será essa mesma criação que iremos acompanhar ao longo da película, ao mesmo tempo que vamos assistindo ao duelo entre ele e Paulette, na busca desse amor perdido.


Ele tudo faz para controlar a vida dela, ao mesmo tempo que se deixa subjugar, até chegar esse momento em que ela desiste de tudo porque percebe que nunca conseguirá ser uma grande pintora, ela nunca irá passar da “miúda” que vive com o grande génio.
Para grande alegria de Phillip Fowler (Patrick O’Neal) que acompanha o pintor há já vinte anos, as obras ficam prontas para a exposição que se revela um grande sucesso e será aqui que ele, ao beber um copo no bar, sente a mão da rapariga que o serviu na sua e percebe como a sua Arte apenas depende da presença de uma jovem mulher na sua vida. Tinha acabado de encontrar uma nova aluna a quem poderia dar lições da vida, nessa grande metrópole chamada Nova Iorque… a única cidade.


A beleza pictórica desta obra de Martin Scorsese demonstra bem como o seu génio transforma em Arte tudo em que toca, em apenas 44 minutos ele oferece-nos um filme inesquecível onde os actores são dirigidos de forma exemplar, Nick Nolte aliás tem uma das melhores interpretações da sua carreira e onde ainda temos dois “cameos” de Peter Gabriel e Deborah Harry. Nunca é demais dizer que as personagens que nos surgem no écran são perfeitamente plausíveis, todas elas com os seus desejos e frustrações, em busca da eterna luz da celebridade.
“Life Lessons” é um daqueles pequenos prazeres que leva qualquer espectador de cinema a apaixonar-se pela Sétima Arte.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Douglas Sirk – “Tempo de Amar e Tempo de Morrer” / “A Time to Love and a Time to Die”


Douglas Sirk – “Tempo de Amar e Tempo de Morrer” / “A Time to Love and a Time to Die”
(EUA – 1958) – (132 min./ Cor)
John Gavin, Liselotte Pulver, Erich Maria Remarque, Jack Mahoney.

Douglas Sirk, quando realizou “Tempo de Amar e Tempo de Morrer” / “A Time To Love and a Time To Die”, já era considerado por muitos o Mestre do Melodrama e esta película, sobre um amor durante a Segunda Grande Guerra, é a prova provada disso mesmo, que nos seja perdoada a redundância.


Nascido em Hamburgo em 1900 e filho de pais dinamarqueses de nome Sierck Detlef, iniciou a sua carreira na Alemanha mas, como muitos outros com a ascensão de Hitler, trocou o velho continente pelo novo mundo, americanizando o seu nome para Douglas Sirk, passando imediatamente a ser conhecido como um génio do melodrama, fazendo aliás diversos “remakes” desse outro mestre norte-americano chamado John Stahl.
Utilizando a cor como ninguém e usando as cambiantes com um sentido dramático, foi o responsável pela descoberta desse grande actor chamado Rock Hudson, que interpretou alguns dos seus melhores filmes como “Sublime Expiação” / “Magnificent Obsession”, “O que o Céu Permite” / “All That Heaven Allows” e “Escrito no Vento” / “Written on The Wind”.



Douglas Sirk utilizou sempre, nos seus filmes, o plano sequência com uma magia digna de nota, aliás sempre se disse que ele era um dos cineastas que montava os filmes na câmara, para evitar as célebres interferências dos produtores. E nunca é demais recordar a espantosa homenagem que lhe prestou Todd Haynes, no seu sublime filme “Longe do Paraíso” / “Far From Heaven”, em que cita de forma explícita os seus filmes e usa as célebres cores do cineasta e já agora nunca é demais falar nesse outro cineasta chamado Rainer Werner Fassbinder, que nunca escondeu as influências de Douglas Sirk nos seus filmes, tendo aliás escrito diversos textos sobre a sua obra, chegando até a colaborar com ele, numa espécie de homenagem ao Mestre.


“A Time to Love and A Time to Die” inicia-se no final da Segunda Grande Guerra, nesse momento em que as tropas alemães, à beira da derrota na Frente Russa, começam a retirar e quando menos espera Ernst Graeber (John Gavin, que iremos encontrar no filme seguinte de Douglas Sirk “Imitação da Vida” / “Imitation of Life”), irá ter direito a uma curta licença em Berlim. Espantado e satisfeito, irá descobrir a sua cidade completamente destruída e vítima de constantes bombardeamentos. A casa dos seus pais está destruída e o seu paradeiro é desconhecido.

Inicia então diversas buscas para os localizar. E será durante esse período que se irá encontrar com Elizabeth (Liselotte Pulver), a filha do médico da família e sua antiga colega de escola, para então descobrir que o regime por quem oferece a vida se encontra à beira do fim, ao mesmo tempo que a Gestapo continua a sua perseguição aos que colocam em causa as ideias do Fuhrer. Basta uma palavra de critica para se ser imediatamente preso ou destituído de funções, como sucedeu com o seu professor, aqui interpretado pelo célebre escritor alemão Erich Maria Remarque, que também é o autor do livro em que se baseia o argumento do filme.


Recorde-se que Erich Maria Remarque já tinha assinado esse espantoso livro intitulado “A Oeste Nada de Novo”, que mostrava de forma bem crua o sentido da guerra, neste caso concreto a Primeira Guerra Mundial, livro esse que depois do seu enorme sucesso foi adaptado ao grande écran por Lewis Milestone. E em “Tempo de Amar, Tempo de Morrer”, o próprio escritor dá corpo a uma das personagens, esse professor Pohlmann que um dia se atreveu a criticar o sentido da guerra e as opções do regime.


Ernst Graeber (John Gavin) irá encontrar em Elisabeth (Liselotte Pulver) o sentido da vida, durante a sua breve licença, descobrindo amargamente como um dia corresponde a um ano de vida. Este par irá viver os dias que passam juntos como uma última oportunidade de vida, terminando até por se casarem por sugestão dele, porque assim sempre poderá deixar uma pensão à mulher, porque sabe muito bem que aquele breve período é um tempo para amar e depois só lhe resta morrer na frente oriental, porque a sua hora de morrer está à muito anunciada.
Iremos assim acompanhar este par ao longo dos dias, numa Berlim à beira do fim, ao mesmo tempo que ambos vão descobrindo como funciona o regime, com as suas prisões e campos de concentração. Aliás o pai de Elizabeth irá morrer num desses mesmos campos.


“Tempo de Amar e Tempo de Morrer” mantem-se fiel ao melodrama de que Douglas Sirk foi Mestre Cinematográfico. Basta ver como ele nos mostra a partida de Ernst Graeber para a frente de batalha/morte e o olhar submisso de Elizabeth na estação em busca dele, para uma derradeira despedida, sabendo muito bem que nunca mais se irão encontrar. Depois a forma como ele morre na frente, ao ser morto por um dos russos que acabou de libertar das garras do SS, porque já não acredita nos valores daquela guerra, demonstra bem como o seu destino estava traçado, sendo o seu gesto traído por esse ódio de que a guerra se alimenta sempre. “A Time to Love and A Time to Die” é uma das obras mais fascinantes de Douglas Sirk, um cineasta que merece sempre ser recordado como o Grande Mestre do Melodrama.

A Time to Love and a Time to Die.
Tempo de Amar e Tempo de Morrer.

domingo, 28 de maio de 2017

Lawrence Kasdan – “Amar-te-ei Até Te Matar” / “I Love You To Death”


Lawrence Kasdan – “Amar-te-ei Até Te Matar” / “I Love You To Death”
(EUA – 1990) – (97 min. / Cor)
Kevin Kline, Tracey Ullman, Joan Plowright, River Phoenix, William Hurt, Keanu Reeves.

A comédia era um género que Lawrence Kasdan, na sua passagem para trás da câmara, ainda não tinha ensaiado ao chegarmos à década de noventa do século passado, tendo o cineasta decidido abordar este género tão difícil convidando o multifacetado Kevin Kline para ser a figura principal da comédia “Amar-te-ei Até Te Matar” / “I Love You To Death”.


Joey Boca (Kevin Kline) mais a mulher Rosalie Boca (Tracey Ullman) são donos de uma pizzaria e enquanto ela pensa que o marido está a trabalhar, nas inúmeras entregas de pizzas, ele lá se vai encontrando com as diversas amantes que vai coleccionando, até chegar esse dia em que a verdade bate à porta e a bela Rosalie Boca, uma católica fervorosa, descobre a infidelidade do marido.


Como não podia deixar de ser, Rosalie Boca (Tracey Ullman) na companhia da sua mãe Nadja (Joan Plowright) decide arquitectar a morte de Joey Boca, recorrendo ao inevitável assassínio. Devo Nod (River Phoenix), o empregado sempre prestável da Pizzaria, decide apoiá-la e contrata os perigosos irmãos James, dois “passados”, interpretados pela dupla William Hurt e Keanu Reeves, mas o nosso heróico Joey Boca (Kevin Kline) lá vai sobrevivendo aos atentados de que é vitima e teima em não morrer.


Se Lawrence Kasdan pretendia entrar bem no interior da comédia, ao realizar esta película, não o conseguiu, em virtude de uma certa colagem à comédia britânica, ao mesmo tempo que a personagem de Kevin Kline (usando bigode, como sempre sucede quando é interprete de comédias) está muito próxima da loucura da personagem criada pelo actor em “Um Peixe Chamado Wanda” / “A Fish Called Wanda”. Por outro lado, o famoso “nonsense” nem sempre funciona, porque na verdade nem todos se podem chamar Ernst Lubitsch ou Billy Wilder


Mas Lawrence Kasdan, alguns anos após a feitura de “Amar-te-ei Até Te Matar”, irá finalmente construir a sua grande comédia, ao oferecer-nos “French Kiss” / “O Beijo”, corrigindo os erros cometidos em “I Love You To Death”, contando novamente com o extraordinário Kevin Kline e a maravilhosa Meg Ryan, um filme sobre o qual já aqui escrevemos.

sábado, 27 de maio de 2017

Michael Wadleigh – “Cidade em Pânico” / “Wolfen”


Michael Wadleigh – “Cidade em Pânico” / “Wolfen”
(EUA – 1981) – (115 min. / Cor)
Albert Finney, Diane Venora, Edward James Olmos, Gregory Hines, Tom Noonan.

Ao olharmos “Wolfen” / “Cidade em Pânico”, segundo o célebre ângulo da "Política de Autores", obriga-nos a relembrar que Michael Wadleigh é o célebre realizador de "Woodstock", essa película que retratou uma época de uma forma exemplar, ao abrir as portas para um novo "género" de musical, o concerto e o seu registo, que contou na montagem com Martin Scorsese e Thelma Schoonmaker


As imagens iniciais de "Woodstock" com o tractor invadindo o verde da paisagem que inunda o horizonte são já fruto da visão ecológica do cineasta, a qual irá surgir notavelmente integrada no argumento de "Wolfen"  / “Cidade em Pânico”, tendo em conta que a película estabelece o paralelo entre a extinção a que os lobos e os índios estão sujeitos, sendo esta "dualidade cultural" o fio condutor de toda a história.


Não nos esqueçamos que foram os índios que construíram a maioria dos arranha-céus nova-iorquinos, vendo a sua pradaria a ser invadida pelos monstros de betão.
Mas o que são os "Wolfen" pergunta o leitor. A resposta é dada na película através do velho índio, símbolo visionário duma ficção do real. "Wolfen" são seres inteligentes, fruto da junção índio/lobo, que lutam pela posse do seu território, de forma violenta, porque no seu mundo não há morte nem assassínio, apenas esse instinto de sobrevivência, tão caracteristicamente humano.


“Wolfen” / “Cidade em Pânico” de Michael Wadleigh oferece-nos um Albert Finney em toda a sua arte, ao levar até ao limite a personificação de Dewey Wilson, esse polícia suspenso devido ao excessivo consumo de álcool, revelando assim o actor que o célebre “método” também vive no seu ser. Um filme que merece ser (re)descoberto.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Neil LaBute – “Amigos e Vizinhos” / “Your Friends & Neighbors”


Neil LaBute – “Amigos e Vizinhos” / “Your Friends & Neighbors”
(EUA – 1998) – (100 min. / Cor)
Ben Stiller, Amy Brenneman, Aaron Eckhart, Catherine Keener, Jason Patric, Nastassja Kinski.

“Amigos e Vizinhos” é uma verdadeira pedrada no charco no interior do cinema Americano. E dizemos isso porque Neil Labute, a quem alguns já chamaram o novo Woody Allen, oferece-nos neste filme um retrato das relações humanas que nos deixa a todos perfeitamente perplexos, pela simples razão de sabermos que muitas vezes é assim que elas se processam, embora nunca ninguém o reconheça. E quanto a essa comparação com Woody Allen, não estamos propriamente de acordo; pensamos antes que o seu cinema se aproxima muito mais do universo desse génio chamado David Mamet. Tal como Mamet, Neil Labute é oriundo do teatro, passando para o cinema peças de que foi autor e encenador, como sucedeu com “The Shape of Things” em que os intérpretes da peça seriam os mesmos do filme.


A aventura de Neil Labute na Sétima Arte começou quando “In the Company of Men” foi o filme sensação do Festival de Sundance em 1997, seguindo-se logo no ano seguinte este “Amigos e Vizinhos”.
O cinema de Labute é frontal e nunca cruel, porque ele funciona como um espelho do quotidiano e das relações humanas, essa mesmas relações que surgem muitas vezes suavizadas à superfície, mas que por vezes são bem brutais no interior desses lares por onde passamos tantas vezes, com as suas fachadas a irradiarem uma falsa felicidade.


“Your Friends & Neighbors” é uma obra que desde já não se recomenda a essas “pequenas sensibilidades”, que se escandalizam com o calão no interior do quotidiano, embora o pratiquem através da forma como agem no seu dia-a-dia, nesses pequenos gestos nunca fortuitos onde o cinismo impera, sempre com um sorriso nos lábios.
Por aqui vamos conhecer um grupo de amigos e vizinhos cujas vidas irão ser profundamente alteradas, porque nem sempre as relações humanas são aquilo que aparentam, nem sempre os casais com quem convivemos reflectem nos jantares em grupo a célebre verdade dos factos das suas tristes vidas.


E será assim que, logo no início, iremos perceber que a vida de Jerry (Ben Stiller) e Terri (Catherine Keener, mais uma vez surpreendente) é um profundo desastre na cama, ele não se cala por um minuto sequer e ela só pretende um pouco de silêncio, para poder usufruir um pouco do prazer de fazer amor. Já no território íntimo de Barry (Aaron Eckhart, actor convocado já por cinco vezes por Neil Labute para protagonista dos seus filmes) e Mary (Amy Brenneman) as coisas também não são as melhores, devido ao egocentrismo dele.
Por outro lado Cary (Jason Patric, muito elogiado pela sua interpretação) possui um ressentimento profundo com as mulheres, tratando-as como simples objectos de prazer, para depois as transformar no seu ódio de estimação.


Ao assistirmos ao desenvolvimento destas vidas, iremos descobrir as inevitáveis traições entre “amigos”, ao mesmo tempo que Neil Labute nos oferece aqueles momentos preciosos em que eles estão todos juntos a falar delas, e elas também todas juntas a falar deles, o que acaba sempre, como todos sabemos, por levar àquelas revelações causadoras de profundas tempestades entre os casais, muitas vezes provocando o naufrágio do doce lar que pensam habitar. Embora por vezes haja alguns que conseguem nadar para uma ilha que pensavam deserta e encontrem o amor, em territórios até então inexplorados, como irá suceder com Terri (Catherine Keener) ao conhecer Cheri (Nastassja Kinski), a assistente do célebre artista que expõe na galeria, ou será melhor dizermos a secretária…

Neil LaBute

“Amigos e Vizinhos” / “Your Friends & Neighbors” oferece-nos um relato das relações humanas neste mundo em que vivemos, que nos fez recordar essa obra-prima de Woody Allen intitulada “Maridos e Mulheres” / “Husbands and Wives”, mas para além da temática, que é na verdade idêntica, o filme de Neil Labute é muito mais ácido e frio, mas nunca cruel, mesmo quando vimos no final quem é a pessoa que se encontra com Cary (Jason Patric) na cama. Percebemos então que ela está ali de livre vontade, numa tentativa de sobreviver e aprender a amar neste perigoso mundo, em que as relações humanas são cada vez mais cínicas.
É impossível ficarmos indiferentes perante o cinema de Neil Labute, um autor no verdadeiro sentido da palavra.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Ron Shelton – “Homicídio em Hollywood” / “Hollywood Homicide”


Ron Shelton – “Homicídio em Hollywood” / “Hollywood Homicide”
(EUA – 2003) – (116 min. / Cor)
Harrison Ford, Josh Hartnett, Lena Olin, Bruce Greenwood, Martin Landau, Lolita Davidivich, Isaiah Washington, Robert Wagner.



Ron Shelton iniciou a sua carreira fazendo o pleno, desde assistente de realização em “Under Fire” / “Debaixo de Fogo”, passando a argumentista, até chegar à realização. Entrou com o pé direito na realização do seu segundo filme, intitulado “Blaze” / “Blaze – Um Amor Proibido”, onde nos oferece um retrato bastante mordaz e corrosivo sobre a vida de Blaze Starr, onde Paul Newman nos surge no seu melhor, ao lado dessa excelente actriz chamada Lolita Davidovich, por sinal esposa do cineasta.


Conhecedor profundo de Hollywood, Ron Shelton, em “Homicídio em Hollywood” / “Hollywood Homicide” decide oferecer-nos um retrato mordaz de uma dupla de detectives e desde já podemos avisar que estamos bastante distante de “Dia de Treino” / “Training Day” de Antoine Fuqua,  porque aqui o olhar navega sobre a comédia. E mais uma vez Harrison Ford não deixa os seus créditos por mãos alheias. E dizemos isso porque tanto o sargento Joe Gavilan (Harrison Ford) como o seu colega K.C. Calden (Josh Hartnett) possuem outra profissão para além da de polícia. Se o primeiro se dedica à venda de casas e propriedades, conjugando esta actividade com a de polícia com uma certa dificuldade, já o segundo aspira a ser actor, aproveitando todos os intervalos na sua actividade policial para estudar o papel outrora pertencente a Marlon Brando na famosa peça/filme “Um Eléctrico Chamado Desejo” / “A Streetcar Named Desire”.


Percebemos de imediato que o território abordado por Ron Shelton é a comédia, embora nunca se esqueça de a pontuar com cenas de acção. Mas a sua visão do universo das estrelas do rap/hip hop é profundamente mordaz, oferecendo-nos a forma como são criados sucessos pelos produtores, ao mesmo tempo que nos mostra como ele é quase sempre efémero, não havendo por vezes regras do jogo, mas sim regras da rua onde as armas criam um outro refrão bem diferente daquele que nasce na linguagem característica do rap. Por outro lado, o retrato que nos faz das estrelas de cinema é de um simbolismo perfeito, quando vemos o próprio Robert Wagner (himself) no célebre Passeio da Fama em Hollywood Boulevard a colocar as suas mãos no cimento, desconhecendo que irá falhar esse momento tão desejado devido à perseguição policial. E aqui temos mais um retrato do quotidiano de Hollywood, porque quem passa por aquela Free Way de LA sabe que é mesmo assim, com os helicópteros das estações de televisão no ar sempre em busca de uma perseguição automóvel, para a transmitir em directo, seguindo os helicópteros da polícia muito pouco discretamente.


Iremos assim acompanhar estes dois detectives que anseiam por mudar de profissão, a seguirem o rasto dos assassinos de um grupo de rap, ao mesmo tempo que um vai tentando vender uma propriedade e o outro estuda os diálogos de “Um Eléctrico Chamado Desejo”, não perdendo uma oportunidade para afinar a sua voz no famoso grito: “Stella!!!”, terminando ambos por concretizar os seus objectivos. Mas se a venda da propriedade de Jerry Duran (Martin Landau), um produtor de Hollywood, é um sucesso para Joe Gavilan, já a representação do jovem Calden é um desastre, sendo até a sua actuação interrompida em pleno palco pelo seu telemóvel que não pára de tocar, para o convocar para mais uma investigação. Decididamente os dois detectives possuem duas profissões que não são nada compatíveis.
“Homicídio em Hollywood” / Hollywood Homicide”, que possui um excelente conjunto de secundários com provas mais que dadas, oferece-nos uma comédia bastante refrescante que trata o mundo do cinema por tu, fruto do saber de Ron Shelton, bem como um retrato mordaz sobre as duplas de detectives, constituídas pelo veterano e o novato. Ron Shelton termina por realizar uma película com todos os ingredientes do policial, mas sempre com a comédia bem presente.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

John Waters – “Quem Não Chora Não Ama” / “Cry Baby”


John Waters – “Quem Não Chora Não Ama” / “Cry Baby”
(EUA -1990) - (91 min. / Cor)
Johnny Depp, AMy Locane, Iggy Pop, Tracy Lords, Joe Dallesandro.

Foi na verdade com grande satisfação que, uma noite, ao fazer zapping na televisão deparei com "Cry Baby" / "Quem Não Chora Não Ama" do John Waters, o célebre realizador de Baltimore, que não gosta de Hollywood tendo, no seu "Cecil B. Demented", "dito" tudo o que pensava do Paraíso dos Astros e Estrelas e da sua Indústria. Mas voltemos um pouco atrás no tempo e tenhamos cuidado com a laca no cabelo, porque foi a película "Hairspray"/ "Laca" que lançou o nome de John Waters para a ribalta, levando a que a Broadway a levasse à cena e não o contrário, do palco para o écran, como é habitual


A acção de "Laca" (*) decorre em Baltimore, cenário privilegiado dos seus filmes, no ano de 1962, contando a aventura dançante da gordinha Tracy nos concursos da WZZT TV (sátira à MTV), no programa de Corny Ollins. No entanto, nem só de danças de adolescentes de cabelos oxigenados, brilhantina aos montes e laca aos molhos, trata a película de Waters, já que ela fala desses tempos conturbados de segregação racial e das manifestações a favor da integração.
Cineasta complexo e divertido, John Waters, um icon da “trash culture” e personagem da famosa série "Os Simpson", convocou para "Cry Baby" / "Quem Não Chora Não Ama" a habitual família e estrelinhas mágicas como Pia Zadora ($$$$$), Rick Ocasek (vocalista dos Cars), Debby Harry (Blondie), Traci Lords (ex-estrela porno e sua mulher), Patrícia Hearst (ex-terrorista de boas famílias), Tracy Donahue (star dos anos sessenta), Joe Dalessandro (do Planeta Andy Wahrol), Amy Locane (das melhores famílias!) e o coleccionador de obras de arte Mr. Johnny Depp (**). Sem dúvida alguma um leque bastante ortodoxo!!!!
O seu cinema é a simbiose de Walt Disney e Andy Wahrol, porque os seus personagens, sempre figuras marginalizadas da sociedade, não apresentam o miserabilismo geralmente transmitido por outros, mas sim a pureza e a magia dos desenhos animados de Disney.


"Quem Não Chora Não Ama" / “Cry Baby” conta-nos o romance de Alison (Amy Locane) e Wade (Johnny Depp), pertencentes a classes sociais diferentes. Ela é "betinha", ele "chavaleco", andam na mesma escola e embora cada um tenha o seu grupo, estão ardentemente apaixonados, apesar da oposição das respectivas famílias.
A Baltimore dos anos cinquenta, como não podia deixar de ser, serve de cenário. A banda sonora é uma perfeita maravilha, onde descobrimos coreografias geniais parodiando o "Jailhouse Rock" de Elvis Presley ou o magnífico "Please Mister Jailer" com a Amy Locane e o trio das "bad bad girls". Mas o melhor é o duelo final de automóvel, numa homenagem muito "a la Waters" ao célebre "Fúria de Viver" / "Rebel Without a Cause" de Nick Ray, com James Dean.
Alison e Wade, o par de apaixonados, vence todos os obstáculos que se lhes deparam, tornando-se o sonho realidade, para (des)contentamento de todas as famílias!!! Venham descobrir esse "Pirata das Caraíbas" chamado Johnny Depp envergando o blusão de James Dean, conduzindo a sua mota como se fosse um Hell Angel chamado Marlon Brando e competindo com Elvis Presley no rock and roll!!!


Redescobrir o cinema encantado de John Waters é uma aventura gratificante. Com laca ou brilhantina, os “movies” de John Waters usam cosméticos de cinema de autor, de uma forma maravilhosamente provocante, para acentuar a sua independência da indústria. “Cry Baby” está disponível em dvd.

(*) – O movie "Hairspray" (Laca) conta com a participação de Divine, o célebre travesti, na época quase um alter-ego de Waters. Anos mais tarde será feito um “remake” com John Travolta.

(**) - Foi Martin Landau que nos intervalos das filmagens de "Ed Wood" convenceu Johnny Depp a se tornar coleccionador de Arte (pintura).

terça-feira, 23 de maio de 2017

Richard Brooks – “O Homem das Lentes Mortais” / “Wrong is Right”


Richard Brooks – “O Homem das Lentes Mortais” / “Wrong is Right”
(EUA – 1982) – (117 min. / Cor)
Sean Connery, George Grizzard, Robert Conrad, Katharne Ross, John Saxon, Henry Silva, Leslie Nielsen.

E a ficção tornou-se realidade… assim poderia terminar esta crónica de cinema sobre a película de Richard Brooks, “Wrong is Right”, mas optámos por inserir a frase no início porque o que está aqui em jogo é precisamente o poder dos “Media” e a sua manipulação pelos políticos, embora também seja possível ver este filme como inspiração de factos ocorridos duas décadas depois.
Vamos buscar a cinéfilia para concretizar melhor este ponto de vista, quando Barry Levinson, no intervalo das filmagens de “A Esfera” / “Sphere”, devido à longa produção dos efeitos especiais, decidiu levar ao écran um argumento do fabuloso David Mamet intitulado “Manobras na Casa Branca” / “Wag the Dog”, nunca pensando que uma história muito idêntica estivesse a decorrer no maior dos segredos nessa mesma Casa Branca, como os acontecimentos posteriores vieram a demonstrar.
Ora o que sucede com o filme de Richard Brooks é que antecipa a História em duas décadas. Como sabemos, após os ataques do 11 de Setembro em New York, foram criadas as condições para desencadear uma guerra, tendo como pretexto a existência de armas de destruição maciça em mãos erradas, tudo por causa da riqueza do petróleo. Se virmos bem, é disso mesmo que trata “Wrong is Right”.


 “O Homem das Lentes Mortais” faz assim história, quase um quarto de século depois da sua estreia nos écrans. Na época em que o vimos pela primeira vez em Lisboa, no saudoso cinema Monumental, foi com enorme prazer que encontrámos Sean Connery na figura do destemido jornalista Patrick Hale, sempre acompanhado da sua câmara de filmar, essa câmara de lentes mortais que tudo fixa e tudo transmite, sempre ao “serviço da verdade jornalística”.
Richard Brooks, como um profeta, mostra-nos aquela que será a televisão do século XXI, com os seus “reality shows”, onde se confessam “crimes não cometidos”, desde a mulher que deseja matar o marido, a filha que pretende aniquilar a mãe, desejos esses que o pequeno écran irá servir ao espectador como uma espécie de terapia, ao mesmo tempo que os seus protagonistas atingem esses 15 minutos de fama de que tanto falou Andy Wahrol.


Mas se para muitos, incluindo o próprio Patrick Hale (Sean Connery), o jornalismo representa o “Quarto Poder”, iremos verificar como este poder é tão frágil que consegue ser usado e manipulado para proveito dos mais poderosos, porque aqui não há regras do jogo, porque a partida está viciada desde o início, todas as cartas estão marcadas.
Partindo do livro “The Better Angels” de Charles McCarry, o argumento que Richard Brooks escreveu a duas mãos com o escritor oferece-nos a criação/existência dos homens bombas, numa célebre antecipação dos bombistas suicidas que proliferam pelo mundo inteiro, só que nesta ficção o objectivo é chamar a atenção para a sua luta e não de provocarem o maior número de vítimas inocentes como sucede nos dias de hoje nos atentados terroristas.
Temos assim o jornalista Patrick Hale, que se movimenta muito bem nos corredores do poder, tanto na Casa Branca como no Médio-Oriente, entrando por sua própria iniciativa na rede de espionagem mantida por americanos e israelitas, onde não faltam os inevitáveis vendedores de armas (o negócio gere milhões) e aqui vamos encontrar essa estrela chamada Katherine Ross (a miúda da época, para alguns cinéfilos) envolvida em redes incontroláveis, porque nunca se sabe quem está a manipular os acontecimentos.


Repare-se na forma como nos é apresentado o Presidente Lockwood (George Grenville), que nos faz recordar uma certa pessoa, desde os seus discursos até à forma de se comportar perante os “média”, usando sempre as reportagens contundentes de Patrick Hale (Sean Connery) “para levar a água ao seu moinho”, enquanto por outro lado o jornalista vai transmitindo aos espectadores a informação mais credível sobre o desenrolar dos acontecimentos sempre em “prime-time” para manter o “share” das audiências e assim aumentar as receitas da publicidade.
A forma como é montada toda a intriga, assim como os métodos da contra-informação, levam-nos a pensar até que ponto não somos manipulados neste século xxi, diariamente, pela informação que consumimos, porque cada vez mais o que se publica não é a verdade dos factos, mas sim as notícias que conseguem angariar as maiores receitas: morte, crime, destruição, guerra.
Recorde-se que na panóplia de imagens televisivas com que se inicia o filme “Wrong is Right” / “O Homem das Lentes Mortais” está lá essa maravilhosa publicidade para nos ajudar a viver no melhor dos universos, porque neste Admirável Mundo Novo cada vez mais se vai copiar o pior da história do passado, para se criar a história do presente..

 Sean Connery num filme incontornável 
de Richard Brooks!

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Passions and Desires – An ECM Records Blog’s Fan.



Foi em meados da década de setenta do seculo xx que descobri a música da editora ECM Records – European Contemporary Music e desde então, ao longo de quarenta anos, descobri um dos mais belos universos musicais da História da Música, graças a esse produtor e nome incontornável da editora alemã, chamado Manfred Eicher que, primeiro em vinil e depois no formato de cd, nos ofereceu gravações de uma qualidade muito acima da média e sempre com um design das capas dos álbuns de uma beleza deslumbrante.

aqui vos falei do produtor Manfred Eicher e da sua editora ECM Records e por diversas vezes ofereci a minha opinião aqui sobre as suas edições discográficas, algo que irei continuar a fazer sempre que possível no blog “Manuscritos da Galaxia” mas, como fan, decidi criar um blog intitulado “Passions and Desires” de divulgação da música da ECM Records, de forma cronológica, a fim de permitir um olhar diferente sobre a editora de Munique, para quem a música não possui fronteiras, mas apenas a beleza das suas sonoridades, criando assim a mais bela música depois do silêncio. Aqui vos deixo o convite para visitarem o blog “Passions and Desires” (click no título do blogue).


Desejo a todos uma boa semana!

domingo, 21 de maio de 2017

James Cameron – “Titanic”


James Cameron – “Titanic”
(EUA – 1997) – (194 min. / Cor)
Leonardo DiCaprio, Kate Winslet, Billy Zane, Kathy Bates, Frances Fisher, Gloria Stuart, Bill Paxton, David Warner.

Goste-se ou não de “blockbusters”, temos de reconhecer a grandeza de “Titanic” de James Cameron, cujos custos de produção ultrapassaram os 200 milhões de dollars, mas que foram largamente ultrapassados pelas receitas do filme, ao mesmo tempo que conquistava onze Oscars da Academia, um feito apenas atingido por “Ben-Hur” e certamente ainda estamos recordados do grito do realizador na entrega da famosa estatueta, na noite dos Oscars: “sou o rei do universo”.
Na realidade “Titanic” ultrapassou todas as expectativas, depois de uma rodagem repleta de problemas, mas ao vermos o resultado final, só podemos “tirar o chapéu” à genialidade do cineasta, que nos narra em simultâneo a “love story” entre Jack Dawson (Leonardo DiCaprio) e Rose Dewitt (Kate Winslet), membros de classes sociais bem distintas, ao mesmo tempo que nos oferece a tragédia do célebre navio, que foi ao fundo após colidir com um iceberg.


Na cerimónia dos Oscars, ao contrário do que se pensava, os dois protagonistas ficaram fora dos prémios, tendo até DiCaprio nem sequer sido nomeado, o que se revelou uma profunda injustiça, como todos sabemos. E hoje ninguém coloca em dúvida o valor que ambos representam no universo cinematográfico, assim como as suas excelentes interpretações no filme contribuíram para o enorme sucesso da película.
A forma como James Cameron nos coloca no interior do navio, em que as classes sociais a bordo ocupam lugares bem distintos, e nos narra o encontro dos dois protagonistas e os sonhos de ambos, rumo à terra prometida, prendem o espectador.
Embora todos conheçamos a história do Titanic, a forma como nos é oferecido o afundamento do navio, graças aos superiores efeito especiais, conquistam de imediato a atenção do espectador, que de certa forma revive a tragédia.


Já o romance protagonizado por Jack Dawson (Leonardo DiCaprio) e Rose DeWitt (Kate Winslet), que se encontra noiva de Calefon Hockley (Billy Zane), cativou as plateias de todo o mundo, ao mesmo tempo que a banda sonora pontuava de forma decisiva todos os momentos do filme, incluindo o encontro dos amantes no convés do navio, onde a voz de Celine Dion se revelava única.

“Titanic” de James Cameron é um “blockbuster”, mas ninguém conseguiu ficar indiferente perante a genialidade demonstrada pelo cineasta ao realizar este filme.