sexta-feira, 26 de maio de 2017

Neil LaBute – “Amigos e Vizinhos” / “Your Friends & Neighbors”


Neil LaBute – “Amigos e Vizinhos” / “Your Friends & Neighbors”
(EUA – 1998) – (100 min. / Cor)
Ben Stiller, Amy Brenneman, Aaron Eckhart, Catherine Keener, Jason Patric, Nastassja Kinski.

“Amigos e Vizinhos” é uma verdadeira pedrada no charco no interior do cinema Americano. E dizemos isso porque Neil Labute, a quem alguns já chamaram o novo Woody Allen, oferece-nos neste filme um retrato das relações humanas que nos deixa a todos perfeitamente perplexos, pela simples razão de sabermos que muitas vezes é assim que elas se processam, embora nunca ninguém o reconheça. E quanto a essa comparação com Woody Allen, não estamos propriamente de acordo; pensamos antes que o seu cinema se aproxima muito mais do universo desse génio chamado David Mamet. Tal como Mamet, Neil Labute é oriundo do teatro, passando para o cinema peças de que foi autor e encenador, como sucedeu com “The Shape of Things” em que os intérpretes da peça seriam os mesmos do filme.


A aventura de Neil Labute na Sétima Arte começou quando “In the Company of Men” foi o filme sensação do Festival de Sundance em 1997, seguindo-se logo no ano seguinte este “Amigos e Vizinhos”.
O cinema de Labute é frontal e nunca cruel, porque ele funciona como um espelho do quotidiano e das relações humanas, essa mesmas relações que surgem muitas vezes suavizadas à superfície, mas que por vezes são bem brutais no interior desses lares por onde passamos tantas vezes, com as suas fachadas a irradiarem uma falsa felicidade.


“Your Friends & Neighbors” é uma obra que desde já não se recomenda a essas “pequenas sensibilidades”, que se escandalizam com o calão no interior do quotidiano, embora o pratiquem através da forma como agem no seu dia-a-dia, nesses pequenos gestos nunca fortuitos onde o cinismo impera, sempre com um sorriso nos lábios.
Por aqui vamos conhecer um grupo de amigos e vizinhos cujas vidas irão ser profundamente alteradas, porque nem sempre as relações humanas são aquilo que aparentam, nem sempre os casais com quem convivemos reflectem nos jantares em grupo a célebre verdade dos factos das suas tristes vidas.


E será assim que, logo no início, iremos perceber que a vida de Jerry (Ben Stiller) e Terri (Catherine Keener, mais uma vez surpreendente) é um profundo desastre na cama, ele não se cala por um minuto sequer e ela só pretende um pouco de silêncio, para poder usufruir um pouco do prazer de fazer amor. Já no território íntimo de Barry (Aaron Eckhart, actor convocado já por cinco vezes por Neil Labute para protagonista dos seus filmes) e Mary (Amy Brenneman) as coisas também não são as melhores, devido ao egocentrismo dele.
Por outro lado Cary (Jason Patric, muito elogiado pela sua interpretação) possui um ressentimento profundo com as mulheres, tratando-as como simples objectos de prazer, para depois as transformar no seu ódio de estimação.


Ao assistirmos ao desenvolvimento destas vidas, iremos descobrir as inevitáveis traições entre “amigos”, ao mesmo tempo que Neil Labute nos oferece aqueles momentos preciosos em que eles estão todos juntos a falar delas, e elas também todas juntas a falar deles, o que acaba sempre, como todos sabemos, por levar àquelas revelações causadoras de profundas tempestades entre os casais, muitas vezes provocando o naufrágio do doce lar que pensam habitar. Embora por vezes haja alguns que conseguem nadar para uma ilha que pensavam deserta e encontrem o amor, em territórios até então inexplorados, como irá suceder com Terri (Catherine Keener) ao conhecer Cheri (Nastassja Kinski), a assistente do célebre artista que expõe na galeria, ou será melhor dizermos a secretária…

Neil LaBute

“Amigos e Vizinhos” / “Your Friends & Neighbors” oferece-nos um relato das relações humanas neste mundo em que vivemos, que nos fez recordar essa obra-prima de Woody Allen intitulada “Maridos e Mulheres” / “Husbands and Wives”, mas para além da temática, que é na verdade idêntica, o filme de Neil Labute é muito mais ácido e frio, mas nunca cruel, mesmo quando vimos no final quem é a pessoa que se encontra com Cary (Jason Patric) na cama. Percebemos então que ela está ali de livre vontade, numa tentativa de sobreviver e aprender a amar neste perigoso mundo, em que as relações humanas são cada vez mais cínicas.
É impossível ficarmos indiferentes perante o cinema de Neil Labute, um autor no verdadeiro sentido da palavra.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Ron Shelton – “Homicídio em Hollywood” / “Hollywood Homicide”


Ron Shelton – “Homicídio em Hollywood” / “Hollywood Homicide”
(EUA – 2003) – (116 min. / Cor)
Harrison Ford, Josh Hartnett, Lena Olin, Bruce Greenwood, Martin Landau, Lolita Davidivich, Isaiah Washington, Robert Wagner.



Ron Shelton iniciou a sua carreira fazendo o pleno, desde assistente de realização em “Under Fire” / “Debaixo de Fogo”, passando a argumentista, até chegar à realização. Entrou com o pé direito na realização do seu segundo filme, intitulado “Blaze” / “Blaze – Um Amor Proibido”, onde nos oferece um retrato bastante mordaz e corrosivo sobre a vida de Blaze Starr, onde Paul Newman nos surge no seu melhor, ao lado dessa excelente actriz chamada Lolita Davidovich, por sinal esposa do cineasta.


Conhecedor profundo de Hollywood, Ron Shelton, em “Homicídio em Hollywood” / “Hollywood Homicide” decide oferecer-nos um retrato mordaz de uma dupla de detectives e desde já podemos avisar que estamos bastante distante de “Dia de Treino” / “Training Day” de Antoine Fuqua,  porque aqui o olhar navega sobre a comédia. E mais uma vez Harrison Ford não deixa os seus créditos por mãos alheias. E dizemos isso porque tanto o sargento Joe Gavilan (Harrison Ford) como o seu colega K.C. Calden (Josh Hartnett) possuem outra profissão para além da de polícia. Se o primeiro se dedica à venda de casas e propriedades, conjugando esta actividade com a de polícia com uma certa dificuldade, já o segundo aspira a ser actor, aproveitando todos os intervalos na sua actividade policial para estudar o papel outrora pertencente a Marlon Brando na famosa peça/filme “Um Eléctrico Chamado Desejo” / “A Streetcar Named Desire”.


Percebemos de imediato que o território abordado por Ron Shelton é a comédia, embora nunca se esqueça de a pontuar com cenas de acção. Mas a sua visão do universo das estrelas do rap/hip hop é profundamente mordaz, oferecendo-nos a forma como são criados sucessos pelos produtores, ao mesmo tempo que nos mostra como ele é quase sempre efémero, não havendo por vezes regras do jogo, mas sim regras da rua onde as armas criam um outro refrão bem diferente daquele que nasce na linguagem característica do rap. Por outro lado, o retrato que nos faz das estrelas de cinema é de um simbolismo perfeito, quando vemos o próprio Robert Wagner (himself) no célebre Passeio da Fama em Hollywood Boulevard a colocar as suas mãos no cimento, desconhecendo que irá falhar esse momento tão desejado devido à perseguição policial. E aqui temos mais um retrato do quotidiano de Hollywood, porque quem passa por aquela Free Way de LA sabe que é mesmo assim, com os helicópteros das estações de televisão no ar sempre em busca de uma perseguição automóvel, para a transmitir em directo, seguindo os helicópteros da polícia muito pouco discretamente.


Iremos assim acompanhar estes dois detectives que anseiam por mudar de profissão, a seguirem o rasto dos assassinos de um grupo de rap, ao mesmo tempo que um vai tentando vender uma propriedade e o outro estuda os diálogos de “Um Eléctrico Chamado Desejo”, não perdendo uma oportunidade para afinar a sua voz no famoso grito: “Stella!!!”, terminando ambos por concretizar os seus objectivos. Mas se a venda da propriedade de Jerry Duran (Martin Landau), um produtor de Hollywood, é um sucesso para Joe Gavilan, já a representação do jovem Calden é um desastre, sendo até a sua actuação interrompida em pleno palco pelo seu telemóvel que não pára de tocar, para o convocar para mais uma investigação. Decididamente os dois detectives possuem duas profissões que não são nada compatíveis.
“Homicídio em Hollywood” / Hollywood Homicide”, que possui um excelente conjunto de secundários com provas mais que dadas, oferece-nos uma comédia bastante refrescante que trata o mundo do cinema por tu, fruto do saber de Ron Shelton, bem como um retrato mordaz sobre as duplas de detectives, constituídas pelo veterano e o novato. Ron Shelton termina por realizar uma película com todos os ingredientes do policial, mas sempre com a comédia bem presente.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

John Waters – “Quem Não Chora Não Ama” / “Cry Baby”


John Waters – “Quem Não Chora Não Ama” / “Cry Baby”
(EUA -1990) - (91 min. / Cor)
Johnny Depp, AMy Locane, Iggy Pop, Tracy Lords, Joe Dallesandro.

Foi na verdade com grande satisfação que, uma noite, ao fazer zapping na televisão deparei com "Cry Baby" / "Quem Não Chora Não Ama" do John Waters, o célebre realizador de Baltimore, que não gosta de Hollywood tendo, no seu "Cecil B. Demented", "dito" tudo o que pensava do Paraíso dos Astros e Estrelas e da sua Indústria. Mas voltemos um pouco atrás no tempo e tenhamos cuidado com a laca no cabelo, porque foi a película "Hairspray"/ "Laca" que lançou o nome de John Waters para a ribalta, levando a que a Broadway a levasse à cena e não o contrário, do palco para o écran, como é habitual


A acção de "Laca" (*) decorre em Baltimore, cenário privilegiado dos seus filmes, no ano de 1962, contando a aventura dançante da gordinha Tracy nos concursos da WZZT TV (sátira à MTV), no programa de Corny Ollins. No entanto, nem só de danças de adolescentes de cabelos oxigenados, brilhantina aos montes e laca aos molhos, trata a película de Waters, já que ela fala desses tempos conturbados de segregação racial e das manifestações a favor da integração.
Cineasta complexo e divertido, John Waters, um icon da “trash culture” e personagem da famosa série "Os Simpson", convocou para "Cry Baby" / "Quem Não Chora Não Ama" a habitual família e estrelinhas mágicas como Pia Zadora ($$$$$), Rick Ocasek (vocalista dos Cars), Debby Harry (Blondie), Traci Lords (ex-estrela porno e sua mulher), Patrícia Hearst (ex-terrorista de boas famílias), Tracy Donahue (star dos anos sessenta), Joe Dalessandro (do Planeta Andy Wahrol), Amy Locane (das melhores famílias!) e o coleccionador de obras de arte Mr. Johnny Depp (**). Sem dúvida alguma um leque bastante ortodoxo!!!!
O seu cinema é a simbiose de Walt Disney e Andy Wahrol, porque os seus personagens, sempre figuras marginalizadas da sociedade, não apresentam o miserabilismo geralmente transmitido por outros, mas sim a pureza e a magia dos desenhos animados de Disney.


"Quem Não Chora Não Ama" / “Cry Baby” conta-nos o romance de Alison (Amy Locane) e Wade (Johnny Depp), pertencentes a classes sociais diferentes. Ela é "betinha", ele "chavaleco", andam na mesma escola e embora cada um tenha o seu grupo, estão ardentemente apaixonados, apesar da oposição das respectivas famílias.
A Baltimore dos anos cinquenta, como não podia deixar de ser, serve de cenário. A banda sonora é uma perfeita maravilha, onde descobrimos coreografias geniais parodiando o "Jailhouse Rock" de Elvis Presley ou o magnífico "Please Mister Jailer" com a Amy Locane e o trio das "bad bad girls". Mas o melhor é o duelo final de automóvel, numa homenagem muito "a la Waters" ao célebre "Fúria de Viver" / "Rebel Without a Cause" de Nick Ray, com James Dean.
Alison e Wade, o par de apaixonados, vence todos os obstáculos que se lhes deparam, tornando-se o sonho realidade, para (des)contentamento de todas as famílias!!! Venham descobrir esse "Pirata das Caraíbas" chamado Johnny Depp envergando o blusão de James Dean, conduzindo a sua mota como se fosse um Hell Angel chamado Marlon Brando e competindo com Elvis Presley no rock and roll!!!


Redescobrir o cinema encantado de John Waters é uma aventura gratificante. Com laca ou brilhantina, os “movies” de John Waters usam cosméticos de cinema de autor, de uma forma maravilhosamente provocante, para acentuar a sua independência da indústria. “Cry Baby” está disponível em dvd.

(*) – O movie "Hairspray" (Laca) conta com a participação de Divine, o célebre travesti, na época quase um alter-ego de Waters. Anos mais tarde será feito um “remake” com John Travolta.

(**) - Foi Martin Landau que nos intervalos das filmagens de "Ed Wood" convenceu Johnny Depp a se tornar coleccionador de Arte (pintura).

terça-feira, 23 de maio de 2017

Richard Brooks – “O Homem das Lentes Mortais” / “Wrong is Right”


Richard Brooks – “O Homem das Lentes Mortais” / “Wrong is Right”
(EUA – 1982) – (117 min. / Cor)
Sean Connery, George Grizzard, Robert Conrad, Katharne Ross, John Saxon, Henry Silva, Leslie Nielsen.

E a ficção tornou-se realidade… assim poderia terminar esta crónica de cinema sobre a película de Richard Brooks, “Wrong is Right”, mas optámos por inserir a frase no início porque o que está aqui em jogo é precisamente o poder dos “Media” e a sua manipulação pelos políticos, embora também seja possível ver este filme como inspiração de factos ocorridos duas décadas depois.
Vamos buscar a cinéfilia para concretizar melhor este ponto de vista, quando Barry Levinson, no intervalo das filmagens de “A Esfera” / “Sphere”, devido à longa produção dos efeitos especiais, decidiu levar ao écran um argumento do fabuloso David Mamet intitulado “Manobras na Casa Branca” / “Wag the Dog”, nunca pensando que uma história muito idêntica estivesse a decorrer no maior dos segredos nessa mesma Casa Branca, como os acontecimentos posteriores vieram a demonstrar.
Ora o que sucede com o filme de Richard Brooks é que antecipa a História em duas décadas. Como sabemos, após os ataques do 11 de Setembro em New York, foram criadas as condições para desencadear uma guerra, tendo como pretexto a existência de armas de destruição maciça em mãos erradas, tudo por causa da riqueza do petróleo. Se virmos bem, é disso mesmo que trata “Wrong is Right”.


 “O Homem das Lentes Mortais” faz assim história, quase um quarto de século depois da sua estreia nos écrans. Na época em que o vimos pela primeira vez em Lisboa, no saudoso cinema Monumental, foi com enorme prazer que encontrámos Sean Connery na figura do destemido jornalista Patrick Hale, sempre acompanhado da sua câmara de filmar, essa câmara de lentes mortais que tudo fixa e tudo transmite, sempre ao “serviço da verdade jornalística”.
Richard Brooks, como um profeta, mostra-nos aquela que será a televisão do século XXI, com os seus “reality shows”, onde se confessam “crimes não cometidos”, desde a mulher que deseja matar o marido, a filha que pretende aniquilar a mãe, desejos esses que o pequeno écran irá servir ao espectador como uma espécie de terapia, ao mesmo tempo que os seus protagonistas atingem esses 15 minutos de fama de que tanto falou Andy Wahrol.


Mas se para muitos, incluindo o próprio Patrick Hale (Sean Connery), o jornalismo representa o “Quarto Poder”, iremos verificar como este poder é tão frágil que consegue ser usado e manipulado para proveito dos mais poderosos, porque aqui não há regras do jogo, porque a partida está viciada desde o início, todas as cartas estão marcadas.
Partindo do livro “The Better Angels” de Charles McCarry, o argumento que Richard Brooks escreveu a duas mãos com o escritor oferece-nos a criação/existência dos homens bombas, numa célebre antecipação dos bombistas suicidas que proliferam pelo mundo inteiro, só que nesta ficção o objectivo é chamar a atenção para a sua luta e não de provocarem o maior número de vítimas inocentes como sucede nos dias de hoje nos atentados terroristas.
Temos assim o jornalista Patrick Hale, que se movimenta muito bem nos corredores do poder, tanto na Casa Branca como no Médio-Oriente, entrando por sua própria iniciativa na rede de espionagem mantida por americanos e israelitas, onde não faltam os inevitáveis vendedores de armas (o negócio gere milhões) e aqui vamos encontrar essa estrela chamada Katherine Ross (a miúda da época, para alguns cinéfilos) envolvida em redes incontroláveis, porque nunca se sabe quem está a manipular os acontecimentos.


Repare-se na forma como nos é apresentado o Presidente Lockwood (George Grenville), que nos faz recordar uma certa pessoa, desde os seus discursos até à forma de se comportar perante os “média”, usando sempre as reportagens contundentes de Patrick Hale (Sean Connery) “para levar a água ao seu moinho”, enquanto por outro lado o jornalista vai transmitindo aos espectadores a informação mais credível sobre o desenrolar dos acontecimentos sempre em “prime-time” para manter o “share” das audiências e assim aumentar as receitas da publicidade.
A forma como é montada toda a intriga, assim como os métodos da contra-informação, levam-nos a pensar até que ponto não somos manipulados neste século xxi, diariamente, pela informação que consumimos, porque cada vez mais o que se publica não é a verdade dos factos, mas sim as notícias que conseguem angariar as maiores receitas: morte, crime, destruição, guerra.
Recorde-se que na panóplia de imagens televisivas com que se inicia o filme “Wrong is Right” / “O Homem das Lentes Mortais” está lá essa maravilhosa publicidade para nos ajudar a viver no melhor dos universos, porque neste Admirável Mundo Novo cada vez mais se vai copiar o pior da história do passado, para se criar a história do presente..

 Sean Connery num filme incontornável 
de Richard Brooks!

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Passions and Desires – An ECM Records Blog’s Fan.



Foi em meados da década de setenta do seculo xx que descobri a música da editora ECM Records – European Contemporary Music e desde então, ao longo de quarenta anos, descobri um dos mais belos universos musicais da História da Música, graças a esse produtor e nome incontornável da editora alemã, chamado Manfred Eicher que, primeiro em vinil e depois no formato de cd, nos ofereceu gravações de uma qualidade muito acima da média e sempre com um design das capas dos álbuns de uma beleza deslumbrante.

aqui vos falei do produtor Manfred Eicher e da sua editora ECM Records e por diversas vezes ofereci a minha opinião aqui sobre as suas edições discográficas, algo que irei continuar a fazer sempre que possível no blog “Manuscritos da Galaxia” mas, como fan, decidi criar um blog intitulado “Passions and Desires” de divulgação da música da ECM Records, de forma cronológica, a fim de permitir um olhar diferente sobre a editora de Munique, para quem a música não possui fronteiras, mas apenas a beleza das suas sonoridades, criando assim a mais bela música depois do silêncio. Aqui vos deixo o convite para visitarem o blog “Passions and Desires” (click no título do blogue).


Desejo a todos uma boa semana!

domingo, 21 de maio de 2017

James Cameron – “Titanic”


James Cameron – “Titanic”
(EUA – 1997) – (194 min. / Cor)
Leonardo DiCaprio, Kate Winslet, Billy Zane, Kathy Bates, Frances Fisher, Gloria Stuart, Bill Paxton, David Warner.

Goste-se ou não de “blockbusters”, temos de reconhecer a grandeza de “Titanic” de James Cameron, cujos custos de produção ultrapassaram os 200 milhões de dollars, mas que foram largamente ultrapassados pelas receitas do filme, ao mesmo tempo que conquistava onze Oscars da Academia, um feito apenas atingido por “Ben-Hur” e certamente ainda estamos recordados do grito do realizador na entrega da famosa estatueta, na noite dos Oscars: “sou o rei do universo”.
Na realidade “Titanic” ultrapassou todas as expectativas, depois de uma rodagem repleta de problemas, mas ao vermos o resultado final, só podemos “tirar o chapéu” à genialidade do cineasta, que nos narra em simultâneo a “love story” entre Jack Dawson (Leonardo DiCaprio) e Rose Dewitt (Kate Winslet), membros de classes sociais bem distintas, ao mesmo tempo que nos oferece a tragédia do célebre navio, que foi ao fundo após colidir com um iceberg.


Na cerimónia dos Oscars, ao contrário do que se pensava, os dois protagonistas ficaram fora dos prémios, tendo até DiCaprio nem sequer sido nomeado, o que se revelou uma profunda injustiça, como todos sabemos. E hoje ninguém coloca em dúvida o valor que ambos representam no universo cinematográfico, assim como as suas excelentes interpretações no filme contribuíram para o enorme sucesso da película.
A forma como James Cameron nos coloca no interior do navio, em que as classes sociais a bordo ocupam lugares bem distintos, e nos narra o encontro dos dois protagonistas e os sonhos de ambos, rumo à terra prometida, prendem o espectador.
Embora todos conheçamos a história do Titanic, a forma como nos é oferecido o afundamento do navio, graças aos superiores efeito especiais, conquistam de imediato a atenção do espectador, que de certa forma revive a tragédia.


Já o romance protagonizado por Jack Dawson (Leonardo DiCaprio) e Rose DeWitt (Kate Winslet), que se encontra noiva de Calefon Hockley (Billy Zane), cativou as plateias de todo o mundo, ao mesmo tempo que a banda sonora pontuava de forma decisiva todos os momentos do filme, incluindo o encontro dos amantes no convés do navio, onde a voz de Celine Dion se revelava única.

“Titanic” de James Cameron é um “blockbuster”, mas ninguém conseguiu ficar indiferente perante a genialidade demonstrada pelo cineasta ao realizar este filme.

sábado, 20 de maio de 2017

Ron Howard – “Cocoon – A Aventura dos Corais Perdidos” / “Cocoon”


Ron Howard – “Cocoon – A Aventura dos Corais Perdidos” / “Cocoon”
(EUA - 1985) – (108 min. / Cor)
Don Ameche, Brian Dennehy, Steve Guttenberg, Jessica Tandy, Tyrone Power Jr.

Não me recordo do Ron Howard nas séries de TV, mas lembro-me muito bem dele no filme de George Lucas "American Graffiti" / "Nova Geração", mas que título!!!!
Na verdade nunca poderemos esquecer que Ron é o responsável por aquela película intitulada "Far and Away" / "Horizonte Longínquo" em que Tom Cruise até consegue ressuscitar para viver ao lado da sua amada Nicole! Alguém aqui ao lado está-me a dizer que o Howard até já ganhou o Oscar com "A Beautiful Mind" / “Uma Mente Brilhante”, pois é verdade e Alfred Hitchcock nunca recebeu nenhum Oscar pela realização, mas adiante senão não falo ao que me trouxe até aqui. Ron Howad também é o responsável por aquele quarteto de “movies”, constituído pelo pouco conhecido "EdTV", que merece ser (re)visto à luz do nosso quotidiano; o remake de "Ransom" / "Resgate" com um Mel Gibson em boa forma; o já esquecido "Apollo 13" (porque será que não ficou na memória de ninguém?) e por fim aquele que é uma das suas películas mais interessantes, "The Paper" / "Primeira Página", com um elenco maravilha constituído por Michael Keaton, Glen Close, Robert  Duvall e Marisa Tomei e mais uma vez este palavreado todo para chegarmos a "Cocoon".


Ron Howard, em "Cocoon", relata-nos a história de extraterrestres (os antigos senhores de Atlântida) que regressam ao planeta Terra para virem buscar aqueles que não partiram dez mil anos antes. Evidentemente que este regresso implica o inevitável romance entre dois seres de sistemas diferentes (*), ao mesmo tempo que instaura indirectamente o rejuvenescimento nos habitantes de um lar para a terceira idade, terminando todos por partir para a eternidade.
Ao vermos "Cocoon", a memória recorda-se dos "movies" de Steven Spielberg "Encontros Imediatos de Terceiro Grau." / “Close Encounters of the Third Kind”, "E.T – O Extra-Terrestre" / “E.T. the Extra-Terrestrial” e o episódio para "No Limiar da Realidade" / “Twilight Zone” e verificamos que as situações mágicas oferecidas por Ron Howard em "Cocoon" já tinham sido encenadas cinematograficamente. No entanto a magia de Steven Spielberg reside na memória da ficção científica/terror dos anos 40/50, da qual ele é um dos herdeiros.


Um actor extraordinário chamado Brian Dennehy

De qualquer forma, "Cocoon" oferece-nos imagens, com a ajuda preciosa da "Light & Magic" de George Lucas , que dificilmente esqueceremos e Ron Howard assina nesta obra um dos seus melhores trabalhos a par de "Mar de Chamas" / “Backdraft”.
"Cocoon – A Aventura dos Corais Perdidos" obteve um Oscar para os melhores efeitos visuais e Don Ameche recebeu a estatueta para o melhor actor secundário, reconhecimento da sua longa carreira ao serviço da Sétima Arte.
"Cocoon" é um filme para todas as gerações e merece, sem dúvida, uma nova visita de todos nós!

(*) Ah! Se Hollywood tivesse permitido esse romance proibido do "Planeta dos Macacos", mas o Tim Burton lá deixou a sequência "perdida" na sala de montagem.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Budd Boetticher – “Têmpera de Herói” / “Buchanan Rides Alone”


Budd Boetticher – “Têmpera de Herói” / “Buchanan Rides Alone”
(EUA – 1958) – (78 min. / Cor)
Randolph Scott, Craig Steven, Barry Kelly, Tol Avery, Peter Kelly.

Budd Boetticher nasceu em Chicago em 1916 e ao contrário do que sucede geralmente, não teve como primeira profissão um trabalho na Sétima Arte, mas sim toureiro no México, percebendo-se assim o seu desejo, quando já tinha abraçado a profissão de cineasta, de realizar a película “Azzuza”, sobre a vida e a arte de um dos mais célebres toureiros mexicanos.
E se John Ford nos ofereceu esse actor chamado John Wayne nos seus “westerns”, já Budd Boetticher elegeu como seu alter-ego o actor Randolph Scott, que protagonizou inúmeros “westerns”, um género no qual o cineasta investiu todo o seu saber, embora também tenha abordado o filme de gangsters de forma sublime, em “The Raise and Fall of Legs Diamond”.


Em “Tempera de Herói” / “Buchanan Rides Alone”, mais uma vez iremos descobrir Randolph Scott no protagonista, numa história em que iremos conhecer Tom Buchanan, um homem pacífico e honesto, que apenas pretende regressar ao Texas, depois de ter andado pelo Oeste ao longo dos anos, conduzindo manadas, embora também tenha dado o seu contributo ao lado das forças revolucionária mexicanas, mas como a revolução terminou, ele decidiu regressar à terra que o viu nascer para construir uma nova vida, levando consigo a bela quantia de dois mil dollars, que foi amealhando ao longo dos anos. Mas ao pernoitar numa cidade controlada pela família Agry, irá ver-se metido em apuros.


Budd Boetticher oferece-nos aqui a imagem de um pacífico cow-boy que até sabe manejar a arma, mas que é bem diferente de todos aqueles que nos foram oferecidos nos “westerns”, porque não temos aqui o pistoleiro, já que Tom Buchanan por diversas vezes é derrotado, ficando até sem as economias de uma vida. No entanto o destino irá sorrir-lhe no final.
O cineasta demonstra em “Tempera de Herói” / “Buchanan Rides Alone” como uma cidade cai facilmente sobra a alçada de uma família: os Agry dominam o comércio e a lei, perante a passividade de uma população aterrorizada.


Apesar de ser feito com meios bastante reduzidos, este filme de Budd Boetticher revela-se uma obra sóbria, elaborada de acordo com as regras, oferecendo-nos uma vez mais a famosa luta do cow-boy solitário contra a prepotência dos poderosos, terminando o primeiro por sair vitorioso.

“Buchanan Rides Alone” / “Tempera de Herói” surge assim como uma película bem demonstrativa da capacidade de magia do “western” no interior da Série-B.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Paul Thomas Anderson – “Magnolia”


Paul Thomas Anderson – “Magnolia”
(EUA – 1999) – (188 min. / Cor)
Julianne Moore, William H. Macy, John C. Reilly, Tom Cruise, Philip Baker Hall, Jason Robards, Philip Seymour Hoffman, Alfred Molina.      

“Magnólia”, do cineasta Paul Thomas Anderson, é uma película em estrutura de mosaico, que nos vai relatar a vida de um conjunto de pessoas ligadas entre si por laços familiares, mas também por simples coincidências, no período temporal de um dia, nessa grande metrópole que é Los Angeles, ao mesmo tempo que iremos conhecer como as esperanças de muitos dos protagonistas se transformaram em verdadeiros fracassos.
Por aqui assistimos a um retrato feroz da sociedade contemporânea, em que mesmo as boas intenções irão embater nesse muro intransponível da dura realidade.


Earl Partridge (Jason Robards) é um magnata que se encontra retido no leito, às portas da morte e apesar de todo o amor que a sua segunda mulher Linda Partridge (Julianne Moore) lhe dedica, compartilhando o seu sofrimento, não irá alterar o seu inevitável destino. Já o seu filho Frank Mackey (Tom Cruise, numa interpretação extraordinária, bem merecedora do Oscar) é uma espécie de sexólogo-evangelista, profundamente misógino, que olha o universo feminino com profundo desprezo. Por sua vez Donnie Smith (William H. Macy) fora na infância uma criança cujo futuro radioso se encontrava ao virar da esquina, mas que por ele foi hipotecado ao longo dos anos, tornando-se num desses derrotados da sociedade, que caminham cabisbaixos pelas artérias das grandes cidades. Já o famoso apresentador de televisão Earl Partridge (Philip Baker Hall) encontra-se também ele no final dos seus dias.


A vida e a dor das personagens criadas por Paul Thomas Anderson, que também assina o argumento, surgem aqui como o espelho de uma sociedade imperfeita, sem rumo e sem glória, à beira do apocalipse, ao mesmo tempo que percebemos como as coincidências nos transportam para o interior e o conhecimento de outras vidas, tornando-nos de certa forma ligados ao seu destino, como sucede com o enfermeiro Phil Parma (Philip Seymour Hoffman). E quando assistimos ao encontro de Frank Mackey (Tom Cruise) com o pai, Earl Partridge (Jason Robards) no seu leito da morte, iremos descobrir uma das muitas referências bíblicas que navegam pelo interior da película.


“Magnólia”, do cineasta/argumentista Paul Thomas Anderson, revela-se como um verdadeiro murro no estômago na sociedade contemporânea, retratando-a de forma exemplar, partindo do chamado núcleo familiar, estendendo depois a sua teia em todas as direcções, fruto dessas simples e estranhas coincidências, transformadoras desse quotidiano contemporâneo em que todos habitamos.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Abbas Kiarostami – “O Sabor da Cereja” / “Ta’m Guilass”


Abbas Kiarostami – “O Sabor da Cereja” / “Ta’m Guilass”
(Irão/França – 1997) – (95 min. / Cor)
Homayoun Ershabi, Abdolrahman Bagheri, Mir Hossein Noon, Safar Ali Moradi.

Abbas Kiarostami, possivelmente o mais célebre cineasta iraniano, constrói os seus filmes de forma minimalista, oferecendo-nos histórias sobre o quotidiano iraniano, sempre tão distante e desconhecido do observador ocidental. Como referiu um dia numa entrevista, o seu cinema deve muito a Roberto Rossellini, vendo muitos no cineasta uma espécie de herdeiro do criador do neo-realismo.


“O Sabor da Cereja” / “Ta’m e Guilass”, produzido com capitais franceses, acabaria por vencer em 1997, de forma surpreendente, a Palma de Ouro do Festival de Cannes. E mais uma vez o cineasta irá revelar no improviso das filmagens muito do seu saber, ao contar-nos a história de um homem que vemos a percorrer as ruas de Teerão no seu automóvel, solicitando auxílio para algo que desconhecemos, mas cujo pedido recebe sempre uma resposta negativa, por vezes até violenta.
Ao longo do filme Baddi (Homayoun Ershabi) até aceita dar boleia, para mais uma vez expressar as suas razões ao seu interlocutor, razões essas que continuamos a desconhecer, colocando-se Abbas Kiarostami no interior da própria viatura, com a sua pequena câmara, para assim construir o campo/contra-campo, situação que ele irá desenvolver noutras películas.


Ao acompanharmos esta caminhada, ou calvário se preferirem, do protagonista, iremos descobrir finalmente as razões que levam as pessoas a recusarem o pedido deste homem tranquilo. Ele pretende suicidar-se, mas a sua fé manda que ele seja enterrado e não quer de maneira nenhuma ser encontrado morto à beira de uma estrada. Finalmente irá encontrar um seminarista afegão (Mir Hossein Noon), que lhe promete ir ter ao local onde ele se irá suicidar, presumivelmente com veneno, depois de ele próprio ter aberto a respectiva cova, para o enterrar.
No entanto nunca iremos ver esse mesmo suicídio, nem saberemos se ele será concretizado, porque o cineasta irá deixar a personagem a meditar, possivelmente no seu passado, enquanto a noite cai.

Abbas Kiarostami

Abbas Kiarostami, com “O Sabor da Cereja” / “Ta’m e Guilass”, constrói assim com poucos meios mais uma película surpreendente, que nos deixa a reflectir sobre essa estranha fronteira que separa a vida da morte e as razões que nos levam a tomar a decisão de partir, antes da inevitável hora chegar. Aqui vos deixo o convite para descobrirem a obra cinematográfica deste cineasta, que recentemente nos deixou.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Martin Scorsese – “Casino”


Martin Scorsese – “Casino”
(EUA – 1995) – (178 min. / Cor)
Robert de Niro, Sharon Stone, Joe Pesci, James Woods, Frank Vincent.

Las Vegas é a capital mundial do jogo e como muitos devem estar recordados foi um gangster, o célebre e visionário Bugsy com o seu “Flamingo”, que fez daquele deserto uma das cidades mais prósperas da América, embora não tenha vivido para ver o seu sucesso. E desde muito cedo os célebres negócios da Máfia passaram por Las Vegas e as suas casas de jogo. Como não podia deixar de ser quando Nicholas Pillegi publicou o seu livro sobre esses tempos, após ter escutado diversos relatos de intervenientes, que lhe relataram as suas memórias desses tempos, o cineasta Martin Scorsese decidiu levar ao grande écran o seu olhar sobre a Las Vegas dessa época.


“Casino” irá assim contar-nos a história de Sam “Ace” Rothstein (Robert de Niro, mais uma vez em parceria com o cineasta), o narrador de “Casino”, baseando-se a sua figura em Frank “Lefty” Rosenthal, um corretor de apostas de Chicago cujo sucesso irá atrair a Máfia, que o convida a estabelecer-se em Las Vegas no início dos anos setenta para gerir o Tangiers Casino.
Mais uma vez Martin Scorsese irá usar em “Casino” um tipo de narração idêntico ao usado em “Tudo Bons Rapazes” / “Goodfellas” , terminando por utilizar em demasia a voz-off no desenrolar dos acontecimentos que nos retratam a vida de Sam “Ace” Rothstein, que um dia irá descobrir nos monitores do Casino uma mulher chamada Ginger Mckenna (Sharon Stone, que não foi a primeira escolha do cineasta) e que não passa de uma “call girl” que vive com o perigoso Lester Diamond (James Woods), terminando Sam (Robert de Niro) por a conquistar, mas quando ele lhe propõe casamento ela recusa, porém o dinheiro tudo compra e ela não passa de uma “call girl”, que não irá resistir às prendas recebidas, terminando por aceitar a proposta de casamento, ao mesmo tempo que começa a beber e as discussões entre ambos regadas a álcool irão tornar a vida de sucesso de Sam “Ace” Rothstein num inferno. Mas nem só de um matrimónio agitado irá viver Sam, porque o seu amigo de infância Nicky Santoro (Joe Pesci), um perigoso ladrão e assassino decide trabalhar com ele, ao mesmo tempo que não irá resistir ao apelo da droga que então começava a navegar pelas ruas à vista desarmada.


Em “Casino”, Martin Scorsese oferece-nos mais uma vez um filme inesquecível, veja-se a forma como ele nos retrata a capital do jogo, com os seus travellings intensos e uma montagem soberba, cativando o espectador de imediato. Por outro lado o cineasta ao optar por nos dar, logo no inicio, um Robert de Niro a ir com o seu carro pelos ares, faz-nos perceber de imediato estarmos perante um daqueles flashbacks condutores da história do protagonista em que iremos assistir, mais uma vez, a uma excelente interpretação de Robert de Niro, na história da ascensão e queda de um homem vulgar, vitima do amor, que descurou os negócios para que fora contratado pela Máfia.

Embora “Casino” não seja uma das obras-primas de Martin Scorsese, a película mantém toda a frescura da estreia, sendo possível descobrir nela o universo de autor do cineasta.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Milos Forman – “Valmont”


Milos Forman – “Valmont”
(França/EUA -1989) – (137 min. / Cor)
Colin Firth, Annette Bening, Meg Tilly, Fairuza Balk, Jeffrey Jones, Henry Thomas.

Muitos de nós fixámos o nome deste cineasta checo quando surgiu nos nossos écrans essa obra intitulada “Voando Sobre um Ninho de Cucos” / “One Flew Over the Cuckoo’s Nest”, baseada no livro do ex-beatnick Ken Keasy e, como alguns devem estar recordados, na época o cinema Quarteto fez uma retrospectiva do cineasta na qual foi possível descobrir alguns filmes do seu período checo, onde encontrámos obras como “O Ás de Espadas” / “Cerny Petr” sobre a adolescência, “O Baile dos Bombeiros” / “Hori má panenko”, retrato mordaz de uma sociedade e o maravilhoso “Amores de uma Loira” / “Lásky jedné plavovlásky” onde a imagem de um regime se fazia sentir, de forma perfeita e irónica. Depois, com a invasão da Checoslováquia pelas tropas de Pacto de Varsóvia, pondo fim à então chamada “Primavera de Praga”, Milos Forman optou por partir e escolheu a América como a sua segunda casa. Aí rodou primeiro “Os Amores de Uma Adolescente” / “Taking Off” e participou numa obra colectiva sobre os jogos olímpicos,”Visions of Eight”, tendo escolhido o decatlo para nos oferecer a sua visão sobre esta difícil modalidade.


Após o êxito estrondoso de “Voando Sobre um Ninho de Cucos”, realizou o infelizmente pouco conhecido “Ragtime”, retrato de uma nação e viu chegar o reconhecimento de todos com o célebre “Amadeus” em 1984. Cinco anos depois, decide levar ao grande écran o célebre livro de Chordelos de Laclos, “Ligações Perigosas”, tendo escolhido como argumentista o famoso Jean-Claude Carriére. E, mais uma vez, surpreendeu tudo e todos não só pela escolha dos actores: Colin Firth, Annette Bening e Meg Tilly, todos eles com grandes interpretações, como pela sua reconstituição histórica, simplesmente perfeita. Mas na época um outro Estúdio decidiu também levar ao grande écran o célebre romance, partindo da peça de teatro escrita por Christopher Hampton, com John Malkovich, Glenn Close e Michelle Pfeifer, que estaria concluído antes do filme de Milos Forman, terminando por ganhar na batalha das bilheteiras.



“Valmont” de Milos Forman, ao contrário do filme de Stephen Frears, privilegia a reconstituição histórica e o naturalismo, sendo o trabalho dos actores muito mais credível, fruto da excelente direcção do cineasta checo e, ao dizermos isto, não estamos de forma alguma a menosprezar a obra do britânico, apenas pretendemos referir que Forman nos oferece um retrato muito mais plausível e aliciante, fruto das interpretações espantosas dos actores e nunca nos podemos esquecer que esta foi a segunda película de Annette Bening, que nos mergulha numa Madame de Merteuil cheia de sensualidade e cinismo, em busca da vingança, após descobrir que o seu amante Gercourt (Jeffrey Jones) vai casar com a jovem e inocente Cecile de Volanges (Fairuza Balk).
Decide então envolver o seu amigo Valmont (Colin Firth) em apostas amorosas, cuja finalidade é oferecer ao seu amante uma noiva “em segunda mão”. E nesta rede de pequenos enganos e grandes ódios irão cair a bela e inocente Madame de Tourval (Meg Tilly), que se irá apaixonar perdidamente pelo belo Valmont, ao mesmo tempo que o jovem professor de música Danceny (Henry Thomas… em tempos o célebre amigo de “E.T.”) se irá por sua vez perder de amor e razão pela bela Cecília, fazendo-lhe a corte (sempre com a cumplicidade de Madame de Merteuil), apesar de saber que ela está prometida a Gercourt, nascendo aqui a mais perfeita história de intrigas onde todos acabarão por sair a perder, incluindo Valmont, que será morto num duelo pelo jovem Danceny.


Ao revermos hoje esta obra de Milos Forman, descobrimos que o seu ”Valmont” não apresenta as marcas da passagem dos anos, surgindo como um belo e profundo retrato de uma época, a França do século XVIII, em que os jogos de amor e traição conviviam abertamente com a morte e a perdição, porque o que aqui encontramos é esse profundo desejo de amar, esse mesmo desejo que irá consumir a bela Madame de Tourval (Mel Tilly), a qual nunca irá esquecer a enorme paixão que nutre por Valmont, reparem bem como ela vai deixando que o seu amor por ele lhe consuma a vida. A película realizada por Milos Forman respira Cinema por todos os poros!

domingo, 14 de maio de 2017

Mohsen Makhmalbaf - “Kandahar” / “Safar e Ghandehar”


Mohsen Makhmalbaf  - “Kandahar” / “Safar e Ghandehar”
(Irão/França – 2001) – (85 min. / Cor)
Niloufar Pazira, Hassan Tantal, Sadou Teymouri, Hoyatala Hakimi.

Mohsen Makhmalbaf nasceu em Teerão em 1957 e o seu primeiro filme “Tobeh Nasooh” / “O Arrependido” foi realizado em 1982. Tendo iniciado a sua actividade na rádio, o futuro cineasta rapidamente passou à escrita de romances e peças de teatro, olhando sempre o cinema de forma maravilhada. Os seus filmes, mais de uma dezena de longas-metragens, desde cedo apresentaram um olhar crítico sobre a sociedade iraniana, sentindo-se neles uma forte influência do neo-realismo italiano, aliás bem patente em todo o cinema iraniano, mas também da “nouvelle vague” francesa e desde cedo, como não podia deixar de ser, começou a ter dificuldades com a censura iraniana, que proibiu a exibição no território de quatro dos seus filmes, o que não foi impedimento para ele desistir dos seus princípios, criando uma escola de cinema, ao mesmo tempo que na sua família vai nascendo uma espécie de clã Makhmalbaf em virtude dos seus filhos, bastante influenciados pelo pai, terem decidido seguir o mesmo caminho do progenitor, sendo a sua filha Samira uma das grandes promessas do novo cinema iraniano.


Numa entrevista à revista britânica “Sight & Sound”, o cineasta referiu que quando começou a fazer cinema o seu ponto de vista era mais político. Agora entendia que a vida é maior do que a política, estando mais interessado no lado humano do que no aspecto meramente político. Quando era jovem e estava envolvido na política, era muito pessimista e queria mudar as coisas, chorar as coisas, salvar o mundo. Agora pensa que a melhor maneira de salvar a humanidade é regressar à beleza e à poesia da vida quotidiana.
Como todos sabemos a vertente situada na narração de histórias do quotidiano, acabou por surgir como a metáfora perfeita, encontrada pelos cineastas iranianos para contornarem ou enganarem, se preferirem, a feroz censura do regime que, cada vez mais, aperta as malhas em redor da sétima arte.

Niloufar Pazira

Quando os Taliban tomaram o poder no Afeganistão, Kandhar foi uma das suas praças-fortes, impondo de imediato o seu impiedoso regime, sendo muitos os que fugiram para os mais diversos pontos do globo. Nafas (Niloufar Pizira) foi uma das muitas jovens que, nascidas no Afeganistão, conseguiu partir do país, indo viver para o Canadá, onde se dedicou ao jornalismo, mas ao saber que a irmã, que tinha perdido as duas pernas, decidira suicidar-se, para fugir ao terror dos Taliban, regressa clandestinamente ao seu país natal para impedir o suicídio da irmã, que escolhera o dia em que iria ocorrer um eclipse, para deixar o mundo das trevas em que vivia. Iremos assim acompanhar a viagem clandestina de Nafas, possuidora de uns olhos azuis resplandecentes, que verá como a destruição, a miséria e o medo tomaram conta do Afeganistão.

Mohsen Maklmalbaf

“Kandhar”, que recebeu o Prémio do Júri Ecuménico do Festival de Cannes, ofereceu ao mundo um relato belo e tenebroso de uma sociedade onde a vida se desenrola no limite das suas forças, sempre com a morte a espreitar a cada minuto.

Passada mais de uma década sobre a feitura desta película, ela continua a possuir uma força que nos deixa consternados, pelo simples facto de quase tudo permanecer na mesma. Apesar da intervenção das forças ocidentais, o terror e a morte violenta continuam a existir diariamente, basta a noite começar a cair para eles saírem das suas tocas para espalharem o terror e a morte, entre todos aqueles que aspiram a respirar o simples e doce sabor da liberdade.

sábado, 13 de maio de 2017

Nanni Moretti – “O Caimão” / “Il Caimano”


Nanni Moretti – “O Caimão” / “Il Caimano”
(Itália – 2006) – (112 min. / Cor)
Silvio Orlando, Margherita Bay, Jasmine Trinco, Michele Placido, Giuliano Montaldo.


Nanni Moretti, nesta película, oferece-nos de forma subtil o retrato do “político” e magnata italiano Sílvio Berlusconi, um dos homens mais ricos e poderosos de Itália. O “Woody Allen italiano”, como alguns lhe chamam, deixou a gestão do seu cinema Sacher em Roma e em 2004 decidiu entrar na campanha política italiana, recorde-se que foi numa manifestação que ele anunciou a feitura do filme.
O cineasta de “O Quarto do Filho” / “La Stanza del figlio” regressava desta forma ao cinema, depois de ter conquistado a Palma de Ouro em Cannes em 2001 com essa obra invasora da sensibilidade do espectador .


E, quando alguns pensaram ir encontrar um retrato panfletário do líder de “Forza Itália”, ao serem confrontados com a película, descobriram uma obra feita cheia de amor pelas personagens centrais, ao mesmo tempo que oferecia uma imagem contundente do dirigente político italiano, ou seja em “O Caimão” iremos encontrar dois filmes profundamente distintos e perfeitos. Mas regressemos um pouco atrás na carreira deste cineasta e actor, nome incontornável do cinema italiano.


Nanni Moretti surgiu no cinema com “Io sono un autarchico”, filme realizado em super 8, dando de imediato um murro no estômago de muitos pela forma como abordava a política, utilizando o humor e as interrogações do personagem criado, o célebre Michele Apicella, que irá surgir nos seus filmes seguintes, olhando o mundo que o rodeia. Recorde-se que em “Bianca” ele até colocava algumas interrogações sobre a actualidade política no nosso país, bem demonstrativo da sua intervenção política, cinematograficamente falando. Pelo caminho conquistaria o Leão de Ouro em Veneza, com “Sogni d’oro” / “Sonhos de Ouro” (1981) e o Urso de Prata em Berlim com “La Messa é finita”. Em Portugal seria com o seu portentoso “La Palombella Rossa” que o público cinéfilo o iria descobrir, nessa piscina onde jogava pólo, interrogando os caminhos do PCI. Depois iríamos viajar com ele na sua vespa pelas ruas de Roma em “Querido Diário” / “Caro diário”, ao som do piano de Keith Jarrett (Koln Concert) para, anos depois, em “Abril” / “Aprille” seguirmos o trajecto da nova personagem criada na primeira voz e em nome próprio, ou seja himself. Com “O Quarto do Filho” foi a vez de o grande público se render ao seu génio, como todos estamos recordados.


Ao chegarmos a “O Caimão”, deparamos com o visionamento de um filme sobre a extrema-esquerda italiana, produzido por esse produtor falido chamado Bruno Bonomo (Sílvio Orlando) e a sua estrela de serviço, a bela e mortal Aidra (Margherita Buy). Após terminar a sessão com o público a aplaudir o homenageado autor de série-B, ou melhor série-Z, uma das espectadoras dá-lhe um argumento intitulado “O Caimão”.
Bruno agradece e deixa o argumento de lado, a sua luta com os credores que lhe batem à porta do pequeno Estúdio e o seu filme de Cristóvão Colombo estão primeiro, mas o projecto vai por água abaixo, a RAI não lhe dá o financiamento e o “velho realizador” Franco Caspio (Giuliano Montaldo) (1), parte para outras paragens em busca de financiamento para o projecto, porque Bruno está irremediavelmente perdido.


Iremos assim descobrir que não é só a situação profissional de Bruno que se encontra à beira do abismo, a sua vida conjugal está também às portas da separação e com dois filhos pequenos pelo meio a situação torna-se insustentável. E aqui Nanni Moretti apresenta-nos o seu trunfo de cineasta ao envolver esta história cativante no interior do retrato do dirigente político Sílvio Berlusconi, porque o tema de “O Caimão” é precisamente o então líder político italiano.

Bruno necessita de fazer um filme com urgência, mas nunca iria fazer um filme sobre Berlusconi, primeiro porque votou nele, depois porque até é um homem de direita, um pouco reaccionário (repare-se no seu comportamento quando tem conhecimento das opções sexuais da realizadora) e depois porque o que refere o argumento já toda a Itália tem conhecimento. A forma de agir e proceder do dirigente italiano é conhecida de todos, assim como dos seus “antigos” aliados Umberto Bossi e Gianfranco Fini. Mas a insistência de Teresa (Jasmine Trinco) e a necessidade de conseguir algum dinheiro, levam-no a seguir em frente. Iremos assim assistir à sua luta pela concretização do filme e pelo regresso a casa da esposa.


Desta forma Nanni Moretti, ao contar uma simples história do quotidiano usando protagonistas cuja profissão é o cinema, irá entrar no mundo pantanoso criado pelo então Primeiro-Ministro Italiano. Ao realizar “O Caimão”, em 2006, Nanni Moretti dava desta forma o seu contributo na campanha eleitoral, apresentado a sua visão do dirigente italiano, optando por incluir imagens do próprio e “reproduzindo” a sua figura em tom de comédia para no final do filme, no “movie on movie”, assumir ele próprio a figura do dirigente italiano, no seu confronto com a autoridade dos Tribunais, dos Juízes e da Lei, numa fórmula realista que deixa o espectador agarrado à cadeira, perante a imagem dada de Sílvio Berlusconi.

“O Caimão” serve, acima de tudo, para nos dar uma lição de como o chamado “cinema político” pode usar a comédia para nos falar de assuntos bem sérios, revelando-se mais uma vez Nanni Moretti como o maior cineasta da sua geração. “O Caimão” não é só uma lição de cinema, ele também é uma lição de História Contemporânea.

(1) – Giuliano Montaldo é o célebre cineasta de “Sacco e Vanzetti”.