quarta-feira, 5 de abril de 2017

Paul Bowles - "À Beira da Água" / "Collected Stories"


Paul Bowles
“À Beira da Água”
Quetzal, Pag. 510

Paul Bowles e a sua obra literária obtiveram uma nova visibilidade após Bernardo Bertolucci ter levado ao grande écran o seu famoso livro “The Sheltering Sky”, cujo título em português é “O Céu Que Nos Protege”, enquanto a película do cineasta italiano foi “baptizada”, no nosso país, como “Um Chá no Deserto”, um filme sobre o qual já aqui escrevi.

A partir de então, a obra literária de Paul Bowles (recorde-se que ele também é compositor) começou a ser editada em português, primeiro na Assírio & Alvim e depois a surgirem livros na Presença e Publicações D. Quixote. Mas será a editora Quetzal a lançar-se no magnifico trabalho de editar a sua obra completa, tendo já saído “Viagens”, “A Casa da Aranha” e reunido em dois volumes a totalidade dos seus contos, que são apresentados de forma cronológica, o que nos possibilita uma melhor abordagem da evolução da Arte do Conto, no interior da escrita de Paul Bowles, tendo o primeiro volume recebido o título de “À Beira da Água”, precisamente o primeiro conto datado de 1946, recorde-se que o escritor nos deixou em 1999. O segundo volume irá surgir este ano.

Ao longo de “À Beira da Água” viajamos pelo globo através dos contos de Paul Bowles, cuja escrita percorre diversos continentes, situando-se a acção de um deles no dia de Natal, do qual vos deixo aqui um pequeno excerto, mas antes gostaria de vos fazer um convite para irem a uma livraria qualquer e "perderem" dez minutos do vosso precioso tempo e lerem as quatro páginas que constituem o conto "O Jardim", datado de 1964, e ao terminarem sugeria que meditassem um pouco no que acabaram de ler. Na verdade este conto, que condensa a maravilhosa Arte do Conto de que Paul Bowles foi um dos maiores expoentes, poderia ter sido escrito nos dias de hoje.


“A luz branca do amanhecer inundava o quarto quando ele abriu os olhos. Já se ouviam barulhos nas entranhas da casa: as pessoas estavam a começar a acordar. Ouviu uma janela a ser fechada com força e depois o som normal de alguém a rachar madeira com um machado. Seguiram-se ruídos mais próximos e Donald soube que, no quarto ao lado, os pais se tinham levantado. Foi então que a porta dele se abriu de rompante e a mãe entrou no quarto, de roupão de flanela castanho e grosso e com o cabelo a cair-lhe sobre as costas.
- Feliz Natal! – gritou levantando uma gigantesca meia de malha vermelha carregada de fruta e pequenos embrulhos. – Olha só o que eu encontrei pendurado ao pé da lareira!
Donald sentiu-se desiludido porque contava ser ele a ir buscar a meia.
- Trouxe-te porque a casa está mais fria do que um celeiro – explicou ela. – Deixa-te estar aí quietinho na cama até ela aquecer um bocadinho.
- E quando é que é a vez da árvore?
O ritual importante era a árvore: os presentes mais interessantes estavam amontoados debaixo dela.”

Paul Bowles
“Os Campos Gelados” 

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