sexta-feira, 7 de abril de 2017

John Ford – “O Homem Tranquilo” / “The Quiet Man”


John Ford – “O Homem Tranquilo” / “The Quiet Man”
(EUA – 1952) – (124 min. – Cor - P/B)
John Wayne, Maureen O’Hara, Barry Fitzgerald, Victor McLaglen, Ward Bond.

Recordo-me da primeira vez que vi este filme. Tinha apenas dez anos e foi numa daquelas sessões culturais na Escola Manuel da Maia em Lisboa que nos ofereceram “O Homem Tranquilo” e nunca mais me esqueci dele, não pelos nomes dos intérpretes, já que naquele tempo apenas conhecia o actor principal de umas “cow-boyadas”, de preferência a comandar a cavalaria, mas a sequência guardada na minha memória foi a corrida de cavalos na praia, a razão disso é-me perfeitamente desconhecida. E um dia mais tarde, já na minha ardente adolescência cinéfila, reencontro “O Homem Tranquilo”/ “The Quiet Man”  e a pouco e pouco fui-me aproximando das memórias cinematográficas da minha infância.
Nessa segunda visão, na adolescência, já conhecia a estatura do cineasta e a mitologia dos actores, simples “gente de Ford” como escreveu Luís de Pina num célebre catálogo e, sempre que possível, revejo “The Quiet Man” no grande écran. Hoje em dia, graças a uma edição americana em DVD, devidamente restaurada e com um som fabuloso, sonho devagar ao reencontrar a mais bela “história de amor para adultos”, como referiu um dia John Ford.


Há um castelo junto a um rio e a música acompanha as palavras do narrador Ward Bond, partimos então para a estação de comboios de Innisfree na companhia de Sean Thornton (John Wayne), nada sabemos dele nem das suas razões, mas o caminho para Innisfree acaba por gerar uma grande discussão na estação até que o pequeno Michaeleen (Barry Fitzgerald) surge e pergunta ao nosso herói:
- Innisfree? This way please!
Será nessa mesma estrada o reencontro de Sean com o seu passado e a terra que o viu nascer, até ao surgimento de uma visão personificada por Mary Kate (Maureen O’Hara): os dados acabaram de ser lançados para a mesa.


A primeira paragem de Sean ao chegar à aldeia, como não podia deixar de ser, é no Pub e a pouco e pouco todos se vão recordar do pequeno Sean e de como ele cresceu. Mas nem todos ficarão felizes com a sua chegada… e assim, esse actor de Ford chamado Victor McLaglen, dá entrada no écran para se preparar para a mais longa sessão de pugilato da História do Cinema, superior às diversas sessões de pugilato ocorridas na “Taberna do Irlandês” / “Donovan’s Reef” na Polinésia, mas isto já é outra história.


Regressando a “O Homem Tranquilo” / “The Quiet Man”, John Ford encena de forma mais que brilhante o ambiente da aldeia, composto pelas mais diversas personagens tipo, não faltando o padre protestante, ajudado pelos católicos quando o bispo o vai visitar. E mais curioso ainda é quando Red Danaher (Victor McLaglen) descobre que a paixão da viúva por si não passa de uma tramóia, organizada por Michaeleen e o Padre Peter Lonergan (Ward Bond), para que Sean e Mary obtenham o seu consentimento para o casamento. Traído pelos amigos, Red não desarma perante a traição referindo até que o próprio IRA deveria estar metido no complot. IRA esse sempre presente e respeitado no Pub.


O Homem Tranquilo” / “The Quiet Man”, como escrevemos no início, é uma história de amor para adultos, como referiu John Ford e muitos anos depois Steven Spielberg irá homenagear no seu “E.T.” quando o jovem herói, de seu nome Elliot, puxa a miúda na escola e a envolve beijando-a exactamente da mesma forma que John Wayne beija Maureen O’Hara, tudo porque E.T. está em casa a ver “O Homem Tranquilo” na TV e eles já são o mesmo corpo, como devem estar recordados.
Por falar em corpo, reparem bem na sequência do cemitério em que começa a chover e Maureen se refugia nos braços de Wayne, enquanto a chuva começa a empapar literalmente a camisa de Sean. Esta sequência, das mais belas na cinematografia de John Ford, transporta uma sensualidade feroz a descoberto e só não o vê quem é cego ou nunca amou.


No entanto, o motor do conflito é a recusa de Danaher em dar o dote à irmã, em busca do confronto com Sean, mas esta disputa não acontece, perante a infelicidade da mulher, que só encontra uma forma de o “encostar à parede”, diremos antes levá-lo a dormir noutras quatro paredes que não as dela, a recusa do sexo, o maior desejo do homem na noite de núpcias. E mais uma vez John Ford nos surpreende e nos confessa o segredo de Sean Thorton: pugilista na América, abandona a carreira após ter morto o adversário num combate. Daí a sua recusa em enfrentar Red Will Danaher. Até que o confronto se dá, perante uma aldeia em peso que acompanha o combate.


Depois, bem depois a calma e a tranquilidade regressam a Innisfree e Mary Kate prepara o jantar para o marido e o irmão, que felizes regressam a casa.
“O Homem Tranquilo”/ “The Quiet Man” é simplesmente um daqueles filmes que levaríamos connosco para a tal ilha deserta, nesse maravilhoso jogo do cinéfilo, mas eu com ele levaria sempre a minha amada “Mary Kate Danaher”, companheira de todos os filmes da minha vida.


2 comentários:

  1. Fabuloso! Com dois dos meus actores favoritos!

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    1. Subscrevo! Uma obra inesquecível esta Irlanda de John Ford!
      Boa Tarde!

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