terça-feira, 4 de abril de 2017

James Joyce por Man Ray


A fotografia nascida da genialidade de Man Ray retrata um dos maiores vultos da Literatura Mundial, que infelizmente não possui a totalidade da sua obra traduzida para português, mas que tem no filme de John Huston (derradeiro testamento do cineasta) uma maravilhosa abordagem, em que sentimos o respirar da Literatura no interior dos fotogramas. O filme chamou-se “The Dead” e baseia-se no último conto de “Dubliners” / “Gente de Dublin”. Aqui vos deixo um excerto do maravilhoso livro de James Joyce.


“Ela adormecera.
Apoiado num cotovelo, Gabriel observou por breve espaço de tempo e sem qualquer sombra de ressentimento a respiração agitada da mulher, por entre os cabelos despenteados e a boca entreaberta. Assim, Gretta tinha tido na sua vida aquele romance! Um homem morrera por sua causa! Naquele momento, quase lhe não doía o papel insignificante que ele, seu marido, desempenhara na vida dela. Vi-a dormir como se ambos nunca tivessem sido marido e mulher, Os seus olhos demoravam-se curiosamente sobre o rosto e o cabelo de Gretta e, enquanto ia pensando em como ela teria sido então, no tempo da sua beleza ainda quase infantil, uma estranha e afectuosa piedade lhe invadiu a alma. Não lhe agradava reconhecer – nem para consigo próprio – que o rosto da mulher já não era belo como outrora, mas sabia, no entanto, que aquele já não era o rosto pelo qual Michael Furey desafiara a morte.”(…)

“Lágrimas abundantes arrasaram os olhos de Gabriel. Nunca ele sentira nada de semelhante por qualquer mulher, mas sabia que um sentimento assim devia ser amor.”

James Joyce
“The Dead” / “O Morto”

Livros do Brasil

2 comentários:

  1. Um dos poucos casos, do meu ponto de vista, em que o conto e o filme se equivalem em qualidade. E ambos têm um final à altura, quase diria arrasador, no seu jeito de "fábula" humana.

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    1. Concordo em absoluto e depois de se saber como foi trágico o final da rodagem com a morte do cineasta e o filme a ser concluído pelo filho. Vi no cinema o filme e depois na televisão, que na época tinha o "Artes e Letras" ao domingo, que nos ofereceu uma viagem pela feitura do filme e a obra do escritor. Já a cópia em dvd (edição nacional), que tenho, infelizmente, é muito fraca.
      Obrigado pela visita e comentário
      Muito boa Tarde!

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