quinta-feira, 6 de abril de 2017

Istvan Szabó – “As Paixões de Julia” / “Being Julia”


Istvan Szabó – “As Paixões de Julia” / “Being Julia”
(EUA/Canada/Hungria – 2004) – (104 min. / Cor)
Annette Bening, Jeremy Irons, Michael Gambon, Shaun Evans, Bruce Greenwood, Lucy Punch, Juliet Stevenson.

Quando alguém me fala em adaptações cinematográficas de grandes obras da literatura, de imediato me vem à memória o romance “O Fio da Navalha”, que terminou com a carreira de um dos maiores cineastas norte-americanos surgido nos anos oitenta do século xx, de seu nome John Byrum, o realizador de “Inserts” (que o revelou) e “Heartbeat” sobre Jack Kerouac, que fez uma espantosa e cara adaptação do romance de Somerset Maugham. E se falamos aqui em Maugham é porque ele é o autor deste “As Paixões de Júlia”, já que o filme se baseia na sua obra “Theatre” publicada pela primeira vez em 1937, um poderoso retrato dos meios teatrais desses finais dos anos trinta.


E Istvan Szabó, o cineasta húngaro que realizou o filme, também não é propriamente um desconhecido, porque ele é o autor do célebre “Mephisto” que nos revelou esse grande actor chamado Klaus Maria Brandauer, certamente se recordam também dele em “África Minha” / “Out of Africa” e “O Navio Farol” / “The Lightship”, desenrolando-se a acção de “Mephisto” nos meios teatrais, contando-nos a história desse actor alemão chamado Gustaf Grudgens (“M-Matou!” de Fritz Lang), que hipotecou a sua arte ao serviço de uma ideologia, tornando-se o actor preferido de Hermann Goering, tendo servido de modelo ao escritor Klaus Mann, o autor de “Mephisto”.


Por outro lado, o responsável pelo espantoso argumento nascido do livro de Somerset Maugham chama-se Ronald Hardwood que, em tempos idos, assinou o argumento de “The Dresser” / “O Companheiro”, um fabuloso filme de Peter Yates, cuja acção vivia no interior do meio teatral, durante a Segunda Grande Guerra e onde se tornaram inesquecíveis as interpretações de Albert Finney e Tom Courtney.


Assim temos uma tripla de peso: Maugham, Szabó e Hardwood a construírem este magnífico filme intitulado “As Paixões de Júlia” / “Being Julia” onde brilham Annette Bening (cheia de glamour, aliás indigitada para um Oscar), Jeremy Irons (como peixe na água) e esse grande actor chamado Michael Gambon, que possui aqui verdadeiras entradas de leão que nos deixam a todos boquiabertos, aliás basta ver-se a sua primeira aparição na película em que nos fala da essência da Arte Teatral para ficarmos todos rendidos à sua performance.


Julia Lambert (Annette Bening) é uma actriz consagrada nesses finais dos anos trinta, numa Inglaterra à beira da guerra, sendo profundamente admirada pelo público que enche as salas de teatro para ver as suas representações, mas nem sempre a arte imita a vida e, por isso mesmo, por detrás desse pano que cai após cada espectáculo, vive uma mulher insatisfeita com a sua arte e que começa a temer a chegada da idade, perdendo essa frescura que em tempos ostentou na juventude e que a tornou célebre.
Depois a sua vida sentimental não é das melhores, já que o seu marido, o encenador e empresário Michael Gosselyn (Jeremy Irons), só se interessa pelos números dos bilhetes vendidos, estendendo as representações para além do limite humano possível, encontrando-se ela à beira de um esgotamento. Por outro lado, a paixão que ambos nutriam um pelo outro, nesses tempos em que eram dois simples actores num teatro de província, dirigidos por Jimmie Langton (Michael Gambon), o grande mentor da carreira de ambos, à muito que partiu, encontrando Julia consolo numa relação platónica com Lord Charles (Bruce Greenwood), que diplomaticamente vai aceitando as investidas de Julia, mas nunca permitindo que elas se concretizem, porque esconde um “terrível” segredo.


A viver num mundo assim, em que a beleza se vai perdendo com a passagem dos anos, Julia Lambert irá procurar consolação num jovem fan americano chamado Tom Ferrel (Shaun Evans, que esconde muito bem a sua terrível pronúncia irlandesa), que lhe irá fazer a corte, devolvendo-lhe a juventude perdida só com o intuito de entrar na alta sociedade. Julia começa a regressar à vida, no romance que então inicia, mas em breve será trocada por uma actriz mais nova, por quem Tom Ferrel se apaixona perdidamente.


Avice Crichton (Lucy Punch, um nome a fixar) irá conseguir, através dos bons ofícios de Tom Ferrel, um papel na peça que Michael Gosselyn está a preparar e quando Julia percebe que o afecto do marido, também carenciado de amor, se vira para a jovem actriz, decide encetar a sua poderosa vingança, jogando em todos os tabuleiros: aniquilar Avice, humilhar Tom e recuperar Michael. Para o conseguir irá seguir os conselhos de Old Jimmie (Michael Gambon) que, apesar de morto há muito, estará sempre junto dela a dar-lhe o melhor conselho para ela levar de vencida a batalha que se encontra a travar, numa verdadeira luta pela sobrevivência no palco e na vida.


Iremos assim assistir a essa poderosa vingança em plena noite de estreia quando Julia, usando um guarda-roupa desconhecido de todos e alterando os seus diálogos, com uma mestria e cinismo nas deixas que vai metendo, como que envia flechas envenenadas que atingirão mortalmente a bela Avice Crichton, que sairá profundamente derrotada na sua tão ambicionada noite de estreia.


Annette Bening possui aqui uma interpretação espantosa, deixando-nos a todos completamente estupefactos pela forma como domina a personagem, por outro lado o argumento de Hardwood consegue retirar do livro de Somerset Maugham (já editado do nosso país) todo o seu saboroso sumo, que nos oferece até à última gota. Mas, como dissemos anteriormente, sempre que Michael Gambon surge no filme todas as atenções se focam sobre ele, tal é a forma contundente como ele interpreta a personagem de Jimmie Langton. Jeremy Irons está igual a si mesmo, simplesmente brilhante.
“As Paixões de Júlia” / “Being Julia” é um maravilhoso convite que o cinema nos faz, para entrar nesse fabuloso Mundo do Teatro, em que a Magia é criada sempre em apenas um “Take”!

2 comentários:

  1. Este é daqueles que vejo vezes sem conta e não me canso. Mais que não seja para ouvor a voz do Michael Gambon, que rouba todas as cenas em que entra!

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    1. O Gambon surge no écran e o filme é dele:)
      Mas depois temos o argumento muito bem delineado, já que o livro é mais profundo no que diz respeito à vida deste casal que vive do e para o Teatro. Um dos filmes onde gosto mais de ver a Annette Bening,
      Boa tarde!

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