sexta-feira, 14 de abril de 2017

Denys Arcand – “O Declínio do Império Americano” / “Le déclin de l’empire américain”


Denys Arcand – “O Declínio do Império Americano” / “Le déclin de l’empire américain”
(Canada - 1986) – (101 min. / Cor)
Dominique Michel, Dorothée Berryman, Louise Portal, Pierre Curzy, Rémy Girard, Yves Jacques.

Foi durante a década de setenta, do século xx, que o cinema do Quebec começou a surgir no nosso país, devido a uma nova geração de cineastas de origem francófona e a uma actriz chamada Carole Laure, que invadiu o imaginário do sexo masculino de forma fulgurante. E um dos filmes mais falados foi precisamente “O Declínio do Império Americano” / “Le déclin de l’empire américain”, cujo título já de si se revela um verdadeiro tema de estudo e que aborda de forma bem curiosa e original o relacionamento entre os sexos, assim como esse território onde a amizade, o amor e a infidelidade comungam por vezes da mesma fonte. Mas com o passar dos anos o filme será esquecido até regressar ao imaginário dos cinéfilos, quando Denys Arcand, vinte anos depois, decide fazer o balanço da vida daquelas personagens esses mesmos vinte anos depois, utilizando precisamente os mesmos actores. Recorde-se que o cineasta Peter Bogdanovich utilizou este mesmo processo anteriormente, quando vinte anos depois decide dar continuação ao célebre filme “A Última Sessão de Cinema” / “The Last Picture Show”, realizando “Texasville”, também com os mesmos actores, embora a diferença que existe entre os dois filmes, canadiano e americano, é que as personagens criadas por Larry McMurty no seu livro eram de carne e osso ou seja existiam mesmo e curiosamente o actor Jeff Bridges, um dos protagonistas da película de Peter Bogdanovich, foi convidado a conhecer a figura que interpretava no cinema.


Ao revermos o filme de Denys Arcand intitulado “O Declínio do Império Americano” / “Le déclin de l’empire américain”, terminamos por perceber que estamos perante a resposta canadiana, por sinal bastante intelectualizada, ao filme “Amigos de Alex” / “The Big Chill” do cineasta norte-americana Lawrence Kasdan, da mesma forma que a Britânica se chamou "Os Amigos de Peter", realizada pelo actor/cineasta Kenneth Branagh e a versão francesa se assim lhe poderemos chamar, surgiu muitos anos depois e intitulava-se “Pequenas Mentiras Entre Amigos” / “Les petits mouchoirs”, realizado por Guillaume Canet em 2010, porque aqui estamos perante películas que pretenderam retratar um núcleo específico de uma geração, em que o valor da amizade se revelava como um elemento preponderante na sua forma de estar no mundo.

A passagem do tempo, vinte anos depois,
os mesmos actores e o estado das relações humanas.
através do olhar inesquecível de Denys Arcand.

Mas regressando ao filme de Denys Arcand, “O Declínio do Império Americano”, cuja acção se situa nos anos oitenta, do século passado, nessa época em que se vivia uma espécie de ressaca das ideologias e os sonhos se perdiam nas esquinas da vida, com a chegada dos yuppies. No entanto as memórias permaneciam bem vivas entre alguns e será precisamente um desses grupos de amigos no caso do filme de Arcand, quase todos ligados à área de História, que decidem passar juntos um fim-de-semana no campo, terminando por fazerem através do balanço das suas vidas uma análise da época em que viviam. Curiosamente o cineasta opta por nos oferecer em separado a visão dos elementos femininos e masculinos, ou seja, primeiro ficamos a saber o que elas pensam deles e só depois o que eles pensam delas, para finalmente entrarmos na companhia de ambos nesse belo território que é a vida em comum, onde os sentimentos, a sexualidade, o amor e a amizade habitam o mesmo território, mas quase sempre desconhecendo o que o futuro lhes reserva.

Denys Arcand, em primeiro plano.

Inevitavelmente nos dias de hoje, ao (re)vermos “O Declínio do Império Americano”, somos obrigados a (re)descobrir a película que será rodada vinte anos depois e intitulada “As Invasões Bárbaras” / “Les invasions barbares”, já aqui abordado, que irá assim oferecer-nos uma espécie de relatório do estado do mundo ou se preferirem do estado das relações humanas neste século XXI, em que iremos acompanhar a despedida de um dos personagens, que ao saber que o tempo de vida que lhe resta é diminuto decide, através do filho, um Yuppie, reunir os seus amigos de sempre, ma mesma casa, no mesmo lago, vinte anos depois, para terminarem por descobrir que os seus sentimentos e a sua forma de estar e olhar o mundo que os rodeia afinal não mudou com a passagem dos anos.

“O Declínio do Império Americano” e “As Invasões Bárbaras” do cineasta canadiano Denys Arcand, constituem em conjunto uma das obras mais belas que a Sétima Arte ofereceu ao Mundo. 

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