domingo, 9 de abril de 2017

A Memória da Rádio – “Dois Pontos: o Paraíso da Música”


Na história da rádio em Portugal o ouvinte um dia encontrou o Paraíso da denominada Música Popular, eram os anos setenta e era emitido em FM, os seus responsáveis chamavam-se Jaime Fernandes e João David Nunes, cuja história pessoal se confunde com a história da própria rádio em Portugal.
O “Dois Pontos”, que era emitido entre as 11 e as 13 horas no RCP, depois RDP4, tinha sucedido ao programa “Módulo”, emitido nos mesmos moldes, mas que tinha um patrocinador chamado “Torralta”, mas com o “Dois Pontos” era-nos oferecido o Paraíso da Música e dizemos isto porque aqui eram passados álbuns na íntegra, sem qualquer tipo de interrupção, permitindo a uma geração inteira gravar nas cassetes-audio ou K7 (se preferirem este termo), os LPs que desejávamos ter, mas a mesada não permitia, para além de muitos nem estarem disponíveis no nosso país.

Jaime Fernandes e João David Nunes anunciavam o álbum e nós “toca a gravar”, mesmo quando se tratava de álbuns duplos ou mesmo triplos, eles passavam na íntegra. Recordo-me de três casos que me preencheram as noites: o duplo álbum ao vivo de Van Morrisson, “It´s To Late To Stop Now” e o “The Lamb Lies Down on Broadway” dos Genesis ou o triplo dos Emerson, Lake and Palmer “Welcome Back My Friends to the Show That Nevers Ends”. Mas também havia os Steeleye Span com a Maddy Prior e os Jethro Tull; a célebre emissão com o “Dark Side of the Moon” dos Pink Floyd seguindo-se, para fechar a primeira hora, o “Close to the Edge” dos Yes. Até Klaus Schulze e os seus “Black Dance”, “Moondawn” e “TimeWind”, foram passados na íntegra.

Mas por vezes tínhamos também emissões diferentes, sempre com o mínimo de palavras em que estes cavalheiros nos ofereciam duas vozes em contexto ou seja, passavam dois songwriters: Neil Young e Leonard Cohen, intercalando as faixas dos dois álbuns ou mesmo três compositores/álbuns, acrescento o Tim Hardin, que hoje em dia anda bastante esquecido, para já não falar no dia em que escutei pela primeira vez o “Seventh Sojourn” dos Moody Blues. E como muitas vezes quando olho a capa de um CD/Álbum encontro geralmente associado a ele um momento da minha vida, recordo que dois CDs que tocam muito aqui em casa são o “Like an Old Fashioned Waltz” da Sandy Denny, que descobri precisamente no “Dois Pontos” e foi também neste programa que tive a notícia da sua trágica morte, tendo a emissão sido interrompida pelo Jaime Fernandes, para dar a triste notícia, Sandy Denny estava grávida, caiu pelas escadas na sua residência e terminou por falecer. O outro ´nome incontornável da Música Popular que descobri no saudoso “Dois Pontos” foi Tom Waits e o seu trabalho “Heartattack and Vine” (o primeiro a surgir no nosso país) do qual passaram, nesse dia, os quatro temas que possuem orquestrações: “Saving All My Love For You”, “Jersey Girl”, “On the Nickel” e o maravilhoso “Ruby’s Arms”.

Poderia continuar a falar das inúmeras emissões que gravei nas célebres cassetes de ferro da BASF e que escutava até a fita se enrolar, porque a mesada era curta e tinha-se que gravar por cima a nova paixão musical que nos era oferecida pelo programa “Dois Pontos”, como foi para mim na época o “Journey to the Center of the Earth” do Rick Wakeman ou o “Exceler 8” dos Kraftwerk, um álbum colectânea deste grupo de rock alemão, numa edição da Vertigo, que mais tarde, num aniversário, fui comprar à discoteca Melodia e que nos oferecia temas dos primeiros trabalhos até chegarmos ao célebre “Autobahn”, que os tornou célebres na Galaxia. Um álbum magnífico que nunca encontrei em cd.

Nos dias de hoje seria possível fazer uma emissão assim: divulgar na íntegra álbuns, sem interrupção? Penso que essa entidade chamada “Mercado” não o iria permitir.

O programa “Dois Pontos” de Jaime Fernandes e João David Nunes foi o Paraíso da Música para diversas gerações, que a eles devem a formação do seu gosto musical. Obrigado caros amigos!

Nota: Estas crónicas de radio baseiam-se apenas na minha memória e recentemente um amigo com quem conversava no café, precisamente sobre o “Dois Pontos”, informou-me que o Rui Morrison e o Humberto Boto também pertenceram à equipa deste inesquecível programa de radio.

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