quinta-feira, 27 de abril de 2017

Clint Eastwood – “Cartas de Iwo Jima” / “Letters From Iwo Jima”


Clint Eastwood – “Cartas de Iwo Jima” / “Letters From Iwo Jima”
(EUA – 2006) – (141 min. / Cor)
Ken Watanabe, Kazunari Ninomika, Tsuyoshi Ihara, Ryi Kase, Shido Nakamura.



Não há guerras Justas! Por muito boas que sejam as causas que levam os homens até esse território de os nus e os mortos, nunca haverá guerras justas, possivelmente os homens terão sempre uma justificação para a guerra, principalmente os seus dirigentes, os donos do poder político/militar, mas nunca os seus intervenientes, esses jovens arrancados ao esplendor da vida, roubados às suas famílias, deixando pais, mulheres, filhos para trás, para nunca mais voltarem.
Ao longo da história o mundo está repleto de carnificinas e se as duas guerras mundiais ocorridas no século xx surgem muitas vezes representadas nos écrans, por serem a memória mais recente e mais rentável do cinema, há outros conflitos ao longo da história repletos de corpos aniquilados no esplendor das suas vidas, mas por vezes esquecidos pelo cinema.


No final do século xx falava-se no fim das ideologias, chegando até Fukuyama a construir essa metáfora intitulada “O Fim da História”, mas poucos anos depois George Bush decidiu desmentir as suas teses com a Guerra do Iraque, o outro lado da moeda nascida com o conflito vietnamita, incendiando o Médio-Oriente de tal forma que o incêndio/guerra permanece nessa zona, passados demasiados anos. Chegamos assim ao ponto fulcral da guerra e aos seus narradores, quem escreve a história são sempre os vencedores, a história dos vencidos nunca chega a sair das profundezas da terra porque o outro lado, o derrotado, só existe para servir de complemento ao heroísmo dos ganhadores.


Com “Cartas de Iwo Jima” / “Letters From Iwo Jima”, Clint Eastwood decidiu oferecer-nos o rosto dos homens que combateram na ilha de Iwo Jima, o rosto daqueles que perderam essa batalha que durou quarenta dias. Não foram meia-dúzia de dias mas sim quarenta dias, até dos 20.000 defensores japoneses da ilha restarem apenas 200, todos eles feridos porque prisioneiros, como se sabe, “desapareceram em combate”.
Em “As Bandeiras dos Nossos Pais” / “Flags of Our Fathers” temos a conquista da ilha de Iwo Jima vista pelos olhos americanos, incluindo o nascimento dessa célebre imagem dos soldados a colocarem a bandeira americana em solo japonês, imagem essa um verdadeiro ícone de todas as guerras e todos ficámos a saber através de Clint Eastwood e “As Bandeiras dos Nossos Pais” como esse momento e os seus protagonistas foram usados pelos políticos.


Em Iwo Jima estavam 20.000 soldados japoneses à espera do ataque americano, chefiados por um homem que, melhor do que ninguém, conhecia a América, o general Tadamichi Kuribayashi (Ken Watanabe, extraordinário) que anos antes vivera nos Estados Unidos, sendo então o adido militar da embaixada japonesa, esse homem que admirava a cultura americana e se sentia profundamente seduzido por esse país, será esse mesmo homem a comandar a defesa da ilha de Iwo Jima, sem qualquer apoio aéreo ou naval, perfeitamente abandonado pelas chefias militares que, após a batalha de Midway, perceberam que o Japão iria sair derrotado da guerra. Curiosamente Tadamichi foi um dos oficiais que se opôs a Tojo quando este decidiu atacar a América e todos sabemos como o ataque a Pearl Harbour se saldou num fracasso, porque o principal objectivo, a destruição dos porta-aviões norte-americanos, não foi atingido porque eles saíram na véspera do ataque para manobras no alto mar.


Ficamos assim com a visão da guerra, através do olhar japonês, oferecido por um cineasta americano cujo nome é hoje incontornável na História do Cinema, Clint Eastwood, ele não é só o último cineasta do cinema clássico, ele é também o homem que trabalha da mesma forma, seja qual for o orçamento disponibilizado para o efeito. De “The Bridges of Madison County” / “As Pontes de Madison County”, a “Mistic River”, passando por “Bird” ou “Unforgiven” / “Imperdoável” (e estamos só a referir-nos às obras-primas), ele empenha todo o seu amor nos projectos, oferecendo uma dedicação insuperável a todas as personagens.
Repare-se nesse soldado japonês, chamado Saigo (Kazunari Ninomiya), que diz no início da película que o melhor é oferecer a maldita ilha aos americanos e regressarem todos a casa, sendo de imediato castigado por isso. Depois encontramos o soldado ex-polícia militar, essa força temida pelos próprios japoneses, que possui coração como muitos dos outros soldados presentes na ilha, que lê livros de escritores ocidentais e escreve cartas à mãe, embora ainda tinha fé nos ideais do Império.


A pouco e pouco descobrimos que aqueles soldados que morrem no campo de batalha, lutando até à morte, depois de lançarem o temível grito de “Banzai”, são seres humanos como todos os outros que se encontram do outro lado das trincheiras. Muitos deles, com um amor profundo pelo Ocidente, como sucede com o campeão olímpico de hipismo, o Barão Nishi (Tsuyoshi Ihara), em tempos idos visita da casa de Douglas Fairbanks e Mary Pickford. Ele olha o mundo Ocidental com saudade, conhecendo o seu destino desde o momento que chegou à ilha de Iwo Jima.
Por outro lado temos essa figura enorme desta película, o general Tadamichi Kuribayashi (Ken Watanabe), que tudo fará para suster o avanço americano o maior tempo possível, construindo túneis infindáveis, por onde as suas tropas se irão movimentar, sabendo de antemão como eram poderosas as forças que iria enfrentar, oferecendo sempre uma palavra de alento a todos, fossem eles oficiais ou soldados, transformando-se no verdadeiro herói de Iwo Jima. Recorde-se que o seu corpo nunca foi encontrado, falando-se de duas mortes possíveis: lutou até à morte como um soldado comum, depois de ter arrancado as divisas do uniforme, ou após ter sido gravemente ferido, com a morte a bater-lhe à porta fez o hara-kiri, momento supremo na vida do Samurai.


O argumento escrito por Iris Yamashita é simplesmente fabuloso e ele nasceu depois do próprio Clint Eastwood se ter interessado em saber mais acerca daquele general japonês, tão amigo do mundo ocidental. À medida que o cineasta ia lendo sobre a figura de Kuribayashi, nascia o desejo de o retratar e assim se chegou a “Cartas de Iwo Jima” / “Letters From Iwo Jima” com um contributo importante de Paul Haggis.
A conquista de Iwo Jima representava a conquista de um porta-aviões terrestre, de onde as forças norte-americanas poderiam lançar os seus mortíferos ataques, contra um exército japonês à beira da derrota, porém após a sua conquista, a opção politica chamou-se bomba atómica, destruindo por completo Hiroshima e depois Nagasaqui, com todas as consequências posteriores que todos sabemos.


O cineasta Clint Eastwood durante a rodagem

“Cartas de Iwo Jima” / “Letters From Iwo Jima”, apresentado em formato scope, oferece-nos uma realização intimista e Clint Eastwood, oferece ao Cinema e à Sétima Arte mais uma obra-prima cinematográfica. Na verdade não há guerras justas, apenas homens que morrem em nome de causas e ideologias, incapazes de dialogar para o bem da humanidade.“Letters From Iwo Jima” é a escrita de uma carta contra a guerra e a sua visão é obrigatória para todos. 

4 comentários:

  1. Um excelente filme do mestre Clint Eastwood!

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    1. Uma das obras-primas da sua filmografia!
      Boa tarde!

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  2. Um filme extraordinário de um realizador não menos extraordinário.
    Aquele abraço, bfds

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    1. Um dos meus filmes preferidos do cineasta. Clint Eastwood não pára de nos surpreender como realizador.
      Um abraço e bom fim-de-semana!

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