domingo, 30 de abril de 2017

Francis Ford Coppola – “O Vigilante” / “The Conversation”


Francis Ford Coppola – “O Vigilante” / “The Conversation”
(EUA – 1974) – (113 min. / Cor)
Gene Hackman, John Cazale, Frederic Forrest, Cindy Williams, Teri Garr, Harrison Ford, Robert Duvall.

Realizado entre duas obras maiores, respectivamente “O Padrinho” / The Godfather” e “O Padrinho II” / The Godfather Part II”, a película “O Vigilante” / “The Conversation”, surge como uma obra intimista, que aborda as técnicas de vigilância, tendo-se estreado na América um pouco antes de surgir o famoso escândalo Watergate, que iria provocar a saída do cenário político do Presidente Richard Nixon. O filme, ao ser apresentado no Festival de Cannes, surpreendeu tudo e todos tendo ganha a Palma de Ouro e quem o vê hoje em dia reconhece a genialidade do cineasta, na forma como manipula a banda sonora, num tratamento na época verdadeiramente inovador.


Harry Caul (Gene Hackman num dos seus trabalhos mais sóbrios e contidos, no bom sentido da palavra) é um técnico de vigilância, que iremos encontrar a trabalhar numa encomenda de uma Empresa, escutando um homem e mulher que passeiam no meio de uma multidão, conversando de forma contida, ao mesmo tempo que andam em círculos, para não ser escutada a conversa que estão a ter, já que em tempos idos foram vítimas desta mesma actividade, tendo um enorme cuidado com o que dizem.


O vigilante e um dos seus colegas, Stan (John Cazale, na época marido de Meryl Streep) irão posteriormente limpar das gravações o ruído de fundo, a fim de obterem a tão desejada conversa. Lentamente iremos descobrir que Harry Caul (Gene Hackman) é um dos expoentes na matéria de vigilância, levando uma vida privada verdadeiramente espartana, já que no seu apartamento não existem elementos pessoais, ao mesmo tempo que mantém uma relação com a jovem Amy Fredericks (Teri Garr), que nada sabe da sua vida, o que se vai revelar fatal para o seu relacionamento.


Ao escutar as gravações, irá perceber que a morte ronda aquele par e quando vai entregar o produto da sua investigação ao Director da Empresa, o secretário Martin (Harrison Ford) pretende ficar com as gravações impedindo o seu contacto com o Director, acabando ele por não entregar as fotos e as fitas, mas quando espera pelo elevador vai encontrar Mark (Frederic Forrest) e Ann (Cindy Williams), o par que ele vigiou, começando a meditar num passado em que contribuiu indirectamente para a morte de uma família, marido, mulher e filho, que tinham sido alvo das suas investigações.
De imediato este tormento toma conta dos seus dias, até que a mulher com quem tem um caso numa noite de festa, lhe rouba as fitas magnéticas, fazendo-as chegar ao seu destinatário, o Director da Empresa interpretado por Robert Duvall, que não se encontra creditado na película.


No momento em que Harry Caul (Gene Hackman) recebe o pagamento do seu trabalho, 15.000 dollars e conhece o homem que encomendou o trabalho, repara numa fotografia da rapariga com o Director da Empresa, assim como um quadro em que ela se encontra retratada. Temendo que eles sejam assassinados, decide ir ao seu encontro, acção que se revelará infrutífera, para mais tarde descobrir que a verdade dos factos é bem diferente de tudo o que tinha imaginado, terminando ele próprio por se tornar vigiado e escutado, porque sabe demasiado, fazendo com que ele destrua o interior do seu apartamento em busca das famosas escutas.


Ao longo da película, Francis Ford Coppola oferece-nos uma história soberba, manipulando a imagem e o som de forma genial, ao mesmo tempo que nos mostra o mergulho do vigilante no interior da solidão, abandonado por colegas e amigos, restando-lhe apenas como companhia o seu saxofone, que ele tanto ama.
Um dado curioso de “O Vigilante” / “The Conversation” é quando este se encontra na festa com colegas de trabalho, um deles narrar o facto de, durante uma campanha eleitoral para as Presidenciais, ter escutado tudo o que dizia um dos candidatos durante dois meses, tendo este obviamente perdido as eleições. Pouco tempo depois surge o Caso Watergate, transformando “The Conversation” numa película que, sem saber, antecedeu os famosos acontecimentos que abalaram a América.

Mais uma vez Francis Ford Coppola nos revela toda a sua genialidade e saber em “O Vigilante”, uma obra hoje em dia um pouco esquecida, mas que merece ser recordada.

sábado, 29 de abril de 2017

Philippe Sollers - "Mouvement"


Philippe Sollers
“Mouvement”
Gallimard/NRF, Pag.230

O meu “encontro” com Philippe Sollers deu-se num desses espaços comerciais que tenho por hábito frequentar, navegando na maioria das vezes na denominada zona de livraria, onde gosto de coscuvilhar as prateleiras, fugindo dos livros em destaque que se encontram nas bancadas e como tenho sempre uma certa atracção pelos livros de poche, nesse dia o título “Femmes” chamou-me a curiosidade, mal sabia eu que estava perante a mais famosa obra literária de Philippe Sollers e depois havia “Les demoiselles d’Avignon” de Pablo Picasso a dar rosto à capa do “poche da Folio” e após me ter encostado a uma das bancadas comecei a ler, e li e li, não dei pela passagem do tempo e regressei a casa a ler sempre que possível e em menos de uma semana devorei as cerca de 700 páginas do romance, ao mesmo tempo que através deste universo maravilhoso que é a rede/net investigava sobre o escritor. Tudo isto se passou à meia-dúzia de anos e desde então já li 22 livros de Philippe Sollers e sempre que vou a Paris (uma vez por ano, nos últimos 13), venho sempre com mais alguns livros deste escritor.


“Mouvement”, datado de 2016, foi o livro que terminei de ler hoje e mais uma vez fiquei fascinado com o que li, porque me encontrei perante uma bela análise ao estado do mundo em que vivemos, na habitual fórmula de Sollers em que se navega através dos mais diversos temas como se estivéssemos numa Biblioteca em que, carregados de livros, vamos “saltando” entre as páginas e os autores, construindo o romance contemporâneo e aqui vos convido para irem a uma livraria e lerem o que escreve Philippe Sollers na página 193 desta edição e que começa com “La bibliothèque…”, não digo mais porque prefiro que leiam directamente do magnifico “Mouvement” de Philippe Sollers J
Este belo e inesquecível livro foi adquirido na loja da Gibert Joseph em Saint-Germain-en-Laye, em “ocasion” pelo belo preço de 4 euros, novo custava 19 euros e estavam ambos um ao lado do outro, esta é uma das razões porque adoro esta cadeia francesa de bens culturais (*).

Mas como é habitual nestas crónicas vou oferecer-vos algumas palavras do autor para vos abrir o desejo de o lerem e nada melhor do que vos deixar a visão de Philippe Sollers sobre o conteúdo de “Mouvement”:
»L’homme de Lascaux était un artiste de génie, la Bible est toujours vivante, la Revolution francaise s’approfondit, Hegel continue trés étrangement d’exister, les galaxies fuient à toute allure, les marchés financiers délirent, le terrorisme fait rage, la pensée et lá poesie chinoises n’ont jamais été aussi passionantes, les dieux grecs ne demandent qu’à vous parler, une sérénité incroyable peut être trouvé.»

(*) – Nunca é demais referir que em França, um ano após a edição de um “bouquin” como eles gostam de chamar aos books/livros, surge quase sempre a edição de poche/bolso, sempre muito mais acessível, mas quando há em “ocasion”/segunda mão na Gibert Joseph nunca se deve hesitar!

Jean-Claude Gautrand - "Jardin des Tuileries"

Jean-Claude Gautrand - "Jardin des Tuileries", 1989

Stanley Kubrick – “Shining”


Stanley Kubrick – “Shining”
(Inglaterra – 1980) – (119 min. / Cor)
Jack Nicholson, Shelley Duvall, Danny Loyd, Scatman Crothers.

Stanley Kubrick, ao longo da sua carreira, abordou todos os géneros cinematográficos existentes e “Shining” foi a sua abordagem ao filme de terror, esse género tantas vezes considerado menor e que ele transformou em maior. Partindo de um conto do conhecido Stephen King, um dos Mestres do Terror, ele irá criar um filme que nos irá prender desde o primeiro ao último minuto à cadeira, ao mesmo tempo que vamos sentindo esse ambiente claustrofóbico que se irá viver nessa estância maravilhosa de turismo que é o Overlook Hotel, no cimo das famosas Montanhas Rochosas.


No início de cada Outono os empregados do hotel preparam a sua partida, já que o clima naquela região é mais do que inóspito, devido ao frio e à neve que todos os anos se faz sentir e, como habitualmente, a direcção do majestoso hotel contrata alguém para lá ficar a cuidar do local, para que os prejuízos sejam reduzidos: cuidar das caldeiras que aquecem o edifício é um dos trabalhos mais importantes.


Jack Torrance (Jack Nicholson), o aprendiz de escritor, apresenta-se como candidato e a entrevista corre da melhor forma, mas o gerente do hotel, homem cauteloso e conhecedor dos perigos da solidão decide informar Jack que em tempos uma das pessoas contratadas para cuidar do hotel enlouqueceu devido ao isolamento, terminando por matar a mulher e as duas filhas gémeas que o acompanhavam, suicidando-se de seguida. Mas Jack Torrance não se sente intimidado, já que isolamento é o que ele precisa para escrever o seu livro e decide aceitar o lugar.
Iremos assim acompanhar a sua ida para o Overlook Hotel com a mulher Wendy (Shelly Duvall, uma das actrizes preferidas de Robert Altman) e o jovem Danny (Danny Loyd), que vê naquele espaço o local perfeito para fazer corridas com o seu pequeno automóvel, pedalando pelos seus longos corredores, como se estivesse numa estrada só para ele. Assim tudo se apresenta perfeito para aquela família.


Todos estão desejosos de abandonar a estância e durante a partida Dick Halloram (Scatman Crothers), o cozinheiro chefe, mostra a cozinha e a zona frigorífica a Wendy, por ali não falta comida e tudo de certeza irá ficar bem, mas ao conhecer Danny percebe que ele tem um amiguinho interior com quem a criança gosta de conversar e, a pouco e pouco, percebe que ela é detentora dessa magia da comunicação chamada shining, que também ele conhece.
Os primeiros dias são passados em enorme tranquilidade, com Jack a escrever o seu livro, Wendy a tratar da zona que lhes ficou destinada e o pequeno Danny a conduzir o seu carro como se estivesse num circuito de automobilismo porém, lentamente, Danny começa a ter visões desse Inverno conturbado no hotel, ocorrido na estância, começando a ver as gémeas, ao mesmo tempo que não resiste a entrar no quarto onde tudo começou, quando um dia encontra a porta aberta.


Fotograma a fotograma, Stanley Kubrick instala o seu sistema mais que perfeito e com uma banda sonora da autoria de Wendy Carlos e Rachel Elkind, começa a introduzir um terror arrepiante que irá contagiar o espectador à medida que a acção se desenrola.
Jack Torrance começa a ter crises de mau humor e a esposa fica em cuidado, depois é a própria criança que conta as visões que está a ter e rapidamente percebemos que Jack está a enlouquecer. Até que chega esse momento fulcral, em que Wendy descobre que o marido está a ter um bloqueio de escritor, escrevendo sempre a mesma frase nas páginas que coloca na máquina de escrever. Por ali repousam mais de uma centena de páginas com a mesma frase e quando este já não consegue dissimular o seu estado de loucura decide atacar os seus entes queridos, a fim de os liquidar com um machado.

Stanley Kubrick, ao utilizar a steadycam pela primeira vez no cinema, oferece-nos um filme profundamente deslumbrante, em que o medo quase nos consome a alma, de tal forma ele é arrepiante, sendo sempre de destacar a perseguição final no famoso labirinto.


Ao vermos hoje “Shining” continuamos a ficar fascinados pela maneira como ele nos interioriza o medo, de forma sempre crescente até chegar esse momento em que finalmente podemos respirar, com a chegada do famoso The End.
Em “Shining”, Jack Nicholson oferece-nos uma das suas maiores interpretações cinematográficas e se na época alguns ficaram admirados com o trabalho do actor, foi certamente porque desconheciam a sua participação, no início da sua carreira, nessa fábrica de cinema criada por Roger Corman.
“Shining” continua a ser, neste século XXI, um dos melhores filmes de terror até hoje realizados, um género que Stanley Kubrick um dia decidiu levar até ao Olimpo dos Deuses da Sétima Arte.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

John Badham – “Operação Thor” / “Blue Thunder”


John Badham – “Operação Thor” / “Blue Thunder”
(EUA – 1983) – (109 min./ Cor)
Roy Scheider, Warren Oates, Candy Clark, Daniel Stern, Malcolm McDowell.

O ano de 1983 foi extremamente importante na carreira de John Badham, tendo em conta que colocou questões bastante pertinentes no contexto da tão famigerada segurança, tanto no que diz respeito às nações como no caso particular do cidadão comum, ao realizar as películas “Jogos de Guerra” / “War Games” e “Blue Thunder” / “Operação Thor”. Na primeira película é abordada a questão do conflito mundial entre as duas super-potências de então, a partir de uma infiltração nos sistemas informáticos, enquanto no segundo filme é a liberdade do cidadão comum que se encontra em perigo, vítima dos jogos do famigerado complexo industrial-militar norte-americano.


Em “Operação Thor” / “Blue Thunder” iremos conhecer a actividade das forças da ordem na América no combate ao crime, através do sistema de vigilância aéreo, efectuado através desses helicópteros que povoam os céus, dando informações preciosas às forças policiais que se deslocam no terreno. Frank Murphy (Roy Scheider) é um desses pilotos, marcado pela memória da guerra do Vietname que um dia, ao presenciar um assalto a uma residência, desconhece que este foi elaborado por alguém situado bem acima de si na escala hierárquica, que pretende a comercialização de um novo helicóptero, ultra-sofisticado, denominado “Blue Thunder”, possuidor de sistemas que permitem a violação da privacidade dos cidadãos, entrando no interior das suas casas, filmando e escutando tudo o que por ali acontece, sendo o seu objectivo eminentemente político, ao mesmo tempo que os seus fabricantes trabalham no terreno, na destabilização social, aumentando a onda de violência, através da pequena criminalidade, que é usada para seu próprio usufruto futuro, na comercialização e implementação dessas temíveis máquinas de guerra urbana.


Ao ser escolhido para testar o novo helicóptero, devido à sua experiência, Frank Murphy (Roy Scheider) percebe de imediato o perigo representado por esses aparelhos se caírem nas mãos erradas; quando se percebe que presenciou o assassinato de um funcionário do governo que pretendia contestar a compra do temível helicóptero, torna-se de imediato “persona non grata”. E até o seu chefe, o capitão Jack Braddock (Warren Oates), que desconhece o que se passa na realidade, aceita afastá-lo do serviço, após os promotores do aparelho colocarem em causa as suas aptidões técnicas, depois de ele contestar a utilidade dessa mortífera arma de guerra.
Investigando por conta própria e apoiado pelo seu colega Richard Lymangood (Daniel Stern), ele será um homem só a lutar contra essa poderosa identidade chamado o complexo militar-industrial, que possui no Coronel Cochrane (Malcolm McDowell), seu antigo comandante no Vietname, um dos preponentes do temível aparelho de vigilância, que tudo fará para se efectuar a compra pelo Estado dos temíveis “Blue Thunder”.



John Badham oferece-nos em “Blue Thunder” / “Operação Thor” uma película surpreendente, bem na linha do cinema liberal norte-americano da década de setenta do século xx, levantando questões sobre a privacidade, a vigilância policial e o combate ao crime, que se mantêm no século xxi, desmontando teias bem complexas que permanecem, ainda hoje, desconhecidas do grande público. Por outro lado a forma rigorosa como se encontra elaborado o argumento, leva-nos a uma profunda meditação acerca da sociedade em que vivemos. Ao revermos “Blue Thunder” / “Operação Thor”, tantos anos depois da sua feitura, verificamos que ele não se encontra nada datado, mas sim, infelizmente, bem actual, revelando mais uma vez o enorme talento deste cineasta chamado John Badham, que bem merece ser relembrado.

Helmut Newton - "Charlotte Rampling"


Helmut Newton - "Charlotte Rampling, Saint Tropez", 1973

John Landis – “Espiões Como Nós” / “Spies Like Us”


John Landis – “Espiões Como Nós” / “Spies Like Us”
(EUA - 1985) – (102 min. / Cor)
Chevy Chase, Dan Aykroyd, Steve Forrest, Donna Dixon, Bruce Davinson.

Dos cineastas oriundos dos "movie-brats", John Landis é aquele onde o humor encontrou o seu lar. Logo no início da sua carreira como cineasta, com a feitura de "O Filme Mais Louco do Mundo" / "The Kentucky Fried Movie" (1977), sátira ao mundo do cinema e à publicidade, John Landis demonstrava ser senhor de um humor muito negro e "O Dueto da Corda" / "The Blues Brothers" acabou por representar, de certa forma, o regresso dos Irmãos Marx à "actividade", através dessa dupla fabulosa constituída por John Belushi e Dan Aykroyd, já anteriormente vistos na "República dos Cucos" / "Animal House", oriunda da TV, a qual terminaria devido à morte de John Belushi (vitima de overdose de cocaína). Será sempre de referir que John Belushi, apesar de ter feito cerca de uma dezena de filmes, fica na História do Cinema como um dos grandes comediantes de sempre. Perda irreparável, a morte de John Belushi, levou John Landis a procurar um companheiro para Dan Akyroyd, sendo o escolhido Eddie Murphy (saído do "48 Horas" de Walter Hill), que surgiria no fabuloso "Os Ricos e os Pobres" / "Trading Places", comédia deliciosa sobre o poder do dinheiro, com contornos psicanalíticos "à la Freud"!


Reencontrada uma nova dupla, esperava-se que John Landis a mantivesse nos filmes seguintes. O que não sucedeu, acabando Eddie Murphy por dar lugar a Chevy Chase (*), outro comediante oriundo da TV e de comédias de "segunda grandeza" que, de forma alguma, serve de "oposto" à personagem de Dan Aykroyd, padecendo "Espiões Como Nós" dessa situação.
Ao realizar "Spies Like Us", John Landis decide parodiar a "Guerra das Estrelas", a espionagem e a contra-espionagem e os seus agentes, a CIA, o FBI e o KGB. É a guerra nuclear que serve de tema e o (in)evitável conflito entre as duas potências da época. Se formos comparar a película de John Landis com a obra-prima de Stanley Kubrick "Dr. Estranho Amor" / "Dr. Strangelove", o Kubrick ganha logo ao Landis, logo no primeiro round por k.o., ao apresentar o Peter Sellers x4.


De qualquer forma "Espiões Como Nós" / “Spies Like Us”, apesar dos seus altos e baixos, resiste como comédia à passagem dos anos, sendo um dos argumentistas Dan Aykroyd. O filme oferece-nos as aventuras de dois espiões treinados para morrer (o isco na espionagem), sem o saberem e que terminam sempre por sobreviver, tornando-se heróis, depois de evitarem um conflito nuclear.
John Landis e a sua carreira transformaram-se numa estrada perigosa cheia de curvas, onde o bom... "Innocent Blood" e "Into the Night", habitam ao lado de "ovnis" como "Oscar", veículo oferecido a Sylvester Stallone para "brilhar" na comédia ou o "Beverly Hills Cop III", com Eddie Murphy, mas talvez o melhor seja mesmo rever "The Twilight Zone" e descobrir no episódio assinado por Landis, o momento alto da película (**).


(*) – Para aqueles que não acreditam no trabalho de Chevy Chase como comediante, recomendamos o visionamento do maravilhoso filme de John Carpenter "Memórias do Homem Invisível" e partam para a descoberta do que um cineasta pode fazer por um actor.
(**) – O actor Vic Morrow faleceu durante as filmagens de "Twilight Zone"/"No Limiar da Realidade", sendo pai da actriz Jennifer Jason Leigh.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Clint Eastwood – “Cartas de Iwo Jima” / “Letters From Iwo Jima”


Clint Eastwood – “Cartas de Iwo Jima” / “Letters From Iwo Jima”
(EUA – 2006) – (141 min. / Cor)
Ken Watanabe, Kazunari Ninomika, Tsuyoshi Ihara, Ryi Kase, Shido Nakamura.



Não há guerras Justas! Por muito boas que sejam as causas que levam os homens até esse território de os nus e os mortos, nunca haverá guerras justas, possivelmente os homens terão sempre uma justificação para a guerra, principalmente os seus dirigentes, os donos do poder político/militar, mas nunca os seus intervenientes, esses jovens arrancados ao esplendor da vida, roubados às suas famílias, deixando pais, mulheres, filhos para trás, para nunca mais voltarem.
Ao longo da história o mundo está repleto de carnificinas e se as duas guerras mundiais ocorridas no século xx surgem muitas vezes representadas nos écrans, por serem a memória mais recente e mais rentável do cinema, há outros conflitos ao longo da história repletos de corpos aniquilados no esplendor das suas vidas, mas por vezes esquecidos pelo cinema.


No final do século xx falava-se no fim das ideologias, chegando até Fukuyama a construir essa metáfora intitulada “O Fim da História”, mas poucos anos depois George Bush decidiu desmentir as suas teses com a Guerra do Iraque, o outro lado da moeda nascida com o conflito vietnamita, incendiando o Médio-Oriente de tal forma que o incêndio/guerra permanece nessa zona, passados demasiados anos. Chegamos assim ao ponto fulcral da guerra e aos seus narradores, quem escreve a história são sempre os vencedores, a história dos vencidos nunca chega a sair das profundezas da terra porque o outro lado, o derrotado, só existe para servir de complemento ao heroísmo dos ganhadores.


Com “Cartas de Iwo Jima” / “Letters From Iwo Jima”, Clint Eastwood decidiu oferecer-nos o rosto dos homens que combateram na ilha de Iwo Jima, o rosto daqueles que perderam essa batalha que durou quarenta dias. Não foram meia-dúzia de dias mas sim quarenta dias, até dos 20.000 defensores japoneses da ilha restarem apenas 200, todos eles feridos porque prisioneiros, como se sabe, “desapareceram em combate”.
Em “As Bandeiras dos Nossos Pais” / “Flags of Our Fathers” temos a conquista da ilha de Iwo Jima vista pelos olhos americanos, incluindo o nascimento dessa célebre imagem dos soldados a colocarem a bandeira americana em solo japonês, imagem essa um verdadeiro ícone de todas as guerras e todos ficámos a saber através de Clint Eastwood e “As Bandeiras dos Nossos Pais” como esse momento e os seus protagonistas foram usados pelos políticos.


Em Iwo Jima estavam 20.000 soldados japoneses à espera do ataque americano, chefiados por um homem que, melhor do que ninguém, conhecia a América, o general Tadamichi Kuribayashi (Ken Watanabe, extraordinário) que anos antes vivera nos Estados Unidos, sendo então o adido militar da embaixada japonesa, esse homem que admirava a cultura americana e se sentia profundamente seduzido por esse país, será esse mesmo homem a comandar a defesa da ilha de Iwo Jima, sem qualquer apoio aéreo ou naval, perfeitamente abandonado pelas chefias militares que, após a batalha de Midway, perceberam que o Japão iria sair derrotado da guerra. Curiosamente Tadamichi foi um dos oficiais que se opôs a Tojo quando este decidiu atacar a América e todos sabemos como o ataque a Pearl Harbour se saldou num fracasso, porque o principal objectivo, a destruição dos porta-aviões norte-americanos, não foi atingido porque eles saíram na véspera do ataque para manobras no alto mar.


Ficamos assim com a visão da guerra, através do olhar japonês, oferecido por um cineasta americano cujo nome é hoje incontornável na História do Cinema, Clint Eastwood, ele não é só o último cineasta do cinema clássico, ele é também o homem que trabalha da mesma forma, seja qual for o orçamento disponibilizado para o efeito. De “The Bridges of Madison County” / “As Pontes de Madison County”, a “Mistic River”, passando por “Bird” ou “Unforgiven” / “Imperdoável” (e estamos só a referir-nos às obras-primas), ele empenha todo o seu amor nos projectos, oferecendo uma dedicação insuperável a todas as personagens.
Repare-se nesse soldado japonês, chamado Saigo (Kazunari Ninomiya), que diz no início da película que o melhor é oferecer a maldita ilha aos americanos e regressarem todos a casa, sendo de imediato castigado por isso. Depois encontramos o soldado ex-polícia militar, essa força temida pelos próprios japoneses, que possui coração como muitos dos outros soldados presentes na ilha, que lê livros de escritores ocidentais e escreve cartas à mãe, embora ainda tinha fé nos ideais do Império.


A pouco e pouco descobrimos que aqueles soldados que morrem no campo de batalha, lutando até à morte, depois de lançarem o temível grito de “Banzai”, são seres humanos como todos os outros que se encontram do outro lado das trincheiras. Muitos deles, com um amor profundo pelo Ocidente, como sucede com o campeão olímpico de hipismo, o Barão Nishi (Tsuyoshi Ihara), em tempos idos visita da casa de Douglas Fairbanks e Mary Pickford. Ele olha o mundo Ocidental com saudade, conhecendo o seu destino desde o momento que chegou à ilha de Iwo Jima.
Por outro lado temos essa figura enorme desta película, o general Tadamichi Kuribayashi (Ken Watanabe), que tudo fará para suster o avanço americano o maior tempo possível, construindo túneis infindáveis, por onde as suas tropas se irão movimentar, sabendo de antemão como eram poderosas as forças que iria enfrentar, oferecendo sempre uma palavra de alento a todos, fossem eles oficiais ou soldados, transformando-se no verdadeiro herói de Iwo Jima. Recorde-se que o seu corpo nunca foi encontrado, falando-se de duas mortes possíveis: lutou até à morte como um soldado comum, depois de ter arrancado as divisas do uniforme, ou após ter sido gravemente ferido, com a morte a bater-lhe à porta fez o hara-kiri, momento supremo na vida do Samurai.


O argumento escrito por Iris Yamashita é simplesmente fabuloso e ele nasceu depois do próprio Clint Eastwood se ter interessado em saber mais acerca daquele general japonês, tão amigo do mundo ocidental. À medida que o cineasta ia lendo sobre a figura de Kuribayashi, nascia o desejo de o retratar e assim se chegou a “Cartas de Iwo Jima” / “Letters From Iwo Jima” com um contributo importante de Paul Haggis.
A conquista de Iwo Jima representava a conquista de um porta-aviões terrestre, de onde as forças norte-americanas poderiam lançar os seus mortíferos ataques, contra um exército japonês à beira da derrota, porém após a sua conquista, a opção politica chamou-se bomba atómica, destruindo por completo Hiroshima e depois Nagasaqui, com todas as consequências posteriores que todos sabemos.


O cineasta Clint Eastwood durante a rodagem

“Cartas de Iwo Jima” / “Letters From Iwo Jima”, apresentado em formato scope, oferece-nos uma realização intimista e Clint Eastwood, oferece ao Cinema e à Sétima Arte mais uma obra-prima cinematográfica. Na verdade não há guerras justas, apenas homens que morrem em nome de causas e ideologias, incapazes de dialogar para o bem da humanidade.“Letters From Iwo Jima” é a escrita de uma carta contra a guerra e a sua visão é obrigatória para todos. 

Charles Laughton – “A Sombra do Caçador” / “The Night of the Hunter”


Charles Laughton – “A Sombra do Caçador” / “Night of the Hunter”
(EUA – 1955) – (97 min. - P/B)
Robert Mitchum, Shelley Winters, Lilian Gish, Billy Chaplin, Sally Jane Bruce.

Charles Laughton, quando realizou este filme, já era bastante famoso como actor, sempre interpretando as suas personagens “no fio da navalha”. O seu Henrique VIII ficou famoso. Mas ao passar para detrás da câmara, construiu uma obra que se distanciou de tudo o que fora feito até então.
Tendo a seu lado o grande director de fotografia Stanley Cortez, o cineasta vai-nos narrar a odisseia das duas crianças, perseguidas por um psicopata, optando por um expressionismo que deixou o universo cinematográfico boquiaberto, já que em “A Sombra do Caçador” / “The Night of the Hunter”, existe esse mundo dos sonhos próprio dos mais pequenos, em confronto com a violência que insiste em os engolir. A forma como Charles Laughton nos oferece a viagem no rio é profundamente poética, embora repleta de elementos góticos que perturbam os dois irmãos.


Harry Powell (um Robert Mitchum que compõe de forma extraordinária a personagem que interpreta) conhece na prisão um homem que está condenado à morte e a quem restam poucos dias de vida. O condenado acaba por lhe confessar que o fruto do roubo porque foi condenado se encontra escondido na casa onde vivia com a mulher e os filhos. E Harry, mal sai da prisão, parte disfarçado de pregador, no intuito de se apoderar do produto roubado.
Possuidor de uma eloquência e um poder sedutor, rapidamente conquista o coração da viúva (Shelley Winters), mas nem tudo corre como tinha planeado e termina por matá-la. As duas crianças fogem num pequeno bote ao longo do rio, acabando por serem recolhidas por uma velha senhora (Lilian Gish), que dá guarida às crianças que vagueiam pelos campos, nessa terrível época da recessão. Mas como não poderia deixar de ser, o falso pregador, que tem tatuado nos dedos as palavras hate (ódio) e love (amor), acaba por descobrir o seu paradeiro, e quando tudo parecia perdido para elas, as autoridades impedem o pior, terminando Harry Powell por ser preso e condenado à morte.


Charles Laughton, cineasta de um filme e autor no verdadeiro sentido da palavra, referiu na época que “A Sombra do Caçador” / “The Night of the Hunter” era a sua homenagem a esse glorioso período mudo, onde se destacou esse criador da linguagem cinematográfica chamado David Wark Griffith. Aliás não é por acaso que Charles Laughton convidou Lilian Gish para interpretar a velha senhora, já que desta forma a sua homenagem também se estendia a essa grande actriz, um dia descoberta pelo autor de “Intolerância”.
Amado por poucos e desconhecido de muitos “Night of the Hunter” / “A Noite do Caçador” permanece uma obra-prima que merece ser descoberta.


PS – Quando vimos o filme, na época da sua reposição comercial, éramos os únicos espectadores na sala de cinema. O filme encontra-se editado no nosso país em dvd numa cópia aceitável, mas também tem a fabulosa edição da "Criterium", mas só disponível, por enquanto para a zona 1.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Francis Ford Coppola – “Rumble Fish”


Francis Ford Coppola – “Rumble Fish”
(EUA – 1983) – (93min.- P/B - Cor)
Matt Dillon, Mickey Rourke, Diane Lane, Dennos Hopper, Nicolas Cage, Chris Penn, Vincent Spano.

"Rumble Fish" são peixes siameses que atacam a sua própria imagem quando ela é reflectida. Mas também é a película que Francis Coppola (*) realizou logo após a feitura de "Os Marginais" / “The Outsiders”, que tantas revelações nos ofereceram (**).
E se em "Os Marginais" / “The Outsiders”, a sombra de Nicholas Ray e o seu "Fúria de Viver" / “Rebel Without a Cause”, estava suspensa no espaço, já em "Rumble Fish" é toda a memória cinéfila de Nick Ray e Jimmy Dean que se descobre, na respiração de cada fotograma.


Neste filme a preto e branco, só os peixes são possuidores de cor, já que o rapaz da moto – The Motorcycle-Boy (Mickey Rourke), o irmão mais velho de Rusty James (Matt Dillon), é daltónico e o mundo para ele é a preto e branco e sem som. (***)
Ele, o anjo, que acabou com a guerra entre bandos, que Rusty James quer continuar. Ele que nasceu no tempo errado, na margem errada do rio. Ele que não pertence àquele mundo, que é um “Free Bird” na sua mota, em busca das águas do oceano na costa Californiana. Termina por ser o elemento perseguido, num mundo que não aceita a diferença.


"Rumble Fish" é uma história de jovens que se mortificam violentamente de uma forma angélica. Já não é a luta entre "pipis" e "brilhantinas" de "Os Marginais" / “The Outsiders”, mas sim o beco e a sufocação a que chegou àquela juventude, elegendo como herói o rapaz da moto, aquele que possui o conhecimento da verdade!


Tendo em conta a relação de "Rumble Fish" com "Os Marginais" / “The Outsiders”, ambos da autoria da escritora S. E. Hinton, será curioso estabelecer comparações entre os dois registos, mas tendo sempre em conta que Francis Coppola trabalhou o argumento de "Rumble Fish" com a escritora, ao contrário do primeiro filme, ao mesmo tempo que é notória a influência do cineasta Godfrey Reggio em algumas sequências.



Contribuindo para a ligação com "Fúria de Viver", encontramos a figura de Dennis Hooper (actor no filme de Nick Ray e amigo pessoal de James Dean), o pai dos jovens rebeldes, ausente/presente no lar, embriagado mas detentor da razão. Ele e o empregado do bar (um fabuloso Tom Waits) são o único elo positivo que os jovens têm com o mundo dos adultos, mundo esse personificado no polícia que persegue o rapaz da moto até o matar, embora este consiga com a sua morte passar o testemunho do conhecimento ao seu irmão mais novo Rusty James (Matt Dillon), que parte na sua Yarley, depois de ter dado a liberdade do rio aos Rumble Fish, prisioneiros do aquário, percorrendo os mesmos locais visitados pelo irmão, até  atingir a tão ambicionada liberdade, ao conquistar as águas do oceano Pacifico, que navegam ao longo do seu novo lar Californiano.



(*) - Curiosamente nas chamadas "obras menores", vulgo pequeno orçamento, o cineasta assina Francis Coppola, já nas obras produzidas pelos Grandes Estúdios ou Grande Produções opta por Francis Ford Coppola.
(**) - Tom Cruise, Matt Dillon, Diana Lane, Rob Lowe, Patrick Swayze, Ralph Macchio e Emilio Estevez são alguns dos nomes. Mickey Rourke também se apresentou no “casting”, mas Coppola não o aceitou devido à sua idade, prometendo-lhe que não se esqueceria dele no próximo filme...e assim aconteceu.
(***) – Procurem a fabulosa banda sonora criada por Stewart Copeland (baterista dos Police) para este filme!


terça-feira, 25 de abril de 2017

Petrus Castrus - "Mestre"

No ano de 1973 a banda de rock progressivo Petrus Castrus gravou o álbum "Mestre" em Paris e após a sua edição em Portugal, de imediato foram contemplados pelo célebre selo da censura, três meses de silêncio. "Mestre" é a mais bela obra discográfica de rock progressivo português gravada até hoje. O álbum está disponível no Youtube e vale a pena descobrir, depois só tem mesmo que adquirir este trabalho intemporal, que se encontra editado em CD.

Era esta a formação dos Petrus Castrus, no ano de 1973, na época da edição de "Mestre":
Pedro Castro: Vocais, Guitarra e Baixo.
José Castro: Piano, Sintetizador e Vocais.
Júlio Pereira: Guitarra
Rui Reis: Órgão.
João Seixas: Bateria

Garry Marshall – “Frankie & Johnny”


Garry Marshall – “Frankie & Johnny”
(EUA - 1991) – (118 min. / Cor)
Al Pacino, Michelle Pfeiffer, Hector Elizondo. Kate Nelligan, Nathan Lane.

Cada rosto esconde uma história e todas as histórias são compostas por dor e amor, alegria e desespero, paixão e silêncio, lágrimas e sorrisos. "Frankie & Johnny” é o título de uma canção mas também uma história profundamente humana, sem dramatismos de "algibeira", apenas possuída pela ternura e a amargura do tempo que passa.


"Frankie and Johnny in The Clair de Lune" é também o título de uma peça de teatro, um verdadeiro embate de sentimentos ao som da música de Claude Debussy.
"Frankie & Johnny" como diz a bela canção de Rickie Lee Jones, "It Must Be Love" e para amar é forçoso descobrir os sentidos e inventar o seu império docemente, quase de mansinho, como as ondas na praia que nos dias tranquilos invadem o areal e sorriem para as crianças, que gatinham inocentemente entre o azul marítimo e as imagens do céu que as protege.


Mas "Frankie & Johnny" é também uma película intimista onde os sentimentos e a solidão habitam a mesma casa e o amor existente nele, eliminando a pouco e pouco o desespero dos espaços fechados..."a vida é sair do emprego, chegar a casa, jantar e ver um vídeo" diz Frankie a Johnny.

No "Appolo Café" descobrimos ilusões e sonhos realizados, amizades profundas e duelos de amor, famílias sem laços sanguíneos e gentes de um mesmo mundo: gente anónima de um tempo, que escuta o respirar das palavras e dos gestos, descobrindo a felicidade ali mesmo ao lado.


Esta película de Garry Marshall, com uma Michelle Pfeiffer translúcida e um Al Pacino cristalino, oferece-nos a cor dos sentimentos com uma sabedoria que, por vezes, intimida todas as "certezas" do nosso universo.


"Frankie & Johnny" está a anos-luz de "Uma Mulher de Sonho", filme também realizado por Garry Marshall e ainda bem, porque a realidade não é feita de Príncipes Encantados e Cinderelas, ela é muito mais complexa e dolorosa, mas também muito mais sincera e apaixonante.


"Frankie & Johnny" é um daqueles filmes que se trazem na algibeira da vida em dias cinzentos e radiosos, porque na verdade é uma película para se (vi)ver na passagem das horas.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Jacques Tati – “As Férias do Sr. Hulot” / “Les vacances de Monsieur Hulot”


Jacques Tati – “As Férias do Sr. Hulot” / “Les vacances de Monsieur Hulot”
(França – 1953) – (96 min – P/B)
Jacques Tati, Nathalie Pascaud, Lucien Frégis.



Jacques Tati é um nome incontornável no interior da comédia e os seus filmes, de uma originalidade absoluta, falam por si. Se em “Há Festa na Aldeia” / “Jour de Féte” iremos encontrá-lo a vestir a pele desse carteiro sempre tão zeloso do seu trabalho, já em “As Férias de Monsieur Hulot” iremos assistir ao nascimento de uma das personagens mais fascinantes de sempre no interior da Sétima Arte, o Monsieur Hulot, sempre acompanhado do seu cachimbo e chapéu, dois adereços que viveram para sempre com o personagem.


“Les Vacances de Monsieur Hulot” vai-nos convidar a seguir as suas férias na praia na zona de Saint-Marc-sur-Mer. Mas mal o vimos na sua “carripana”, que se desloca com uma certa turbulência e alguma dificuldade nas subidas, de imediato um sorriso irá nascer-nos no rosto, para ali permanecer fascinado com os inocentes “gags” oferecidos por Hulot, sempre perfeitos e “angélicos” e onde a “ingenuidade” vive de mãos dadas com a “simplicidade”, fruto de um árduo trabalho criativo.



A entrada de Monsieur Hulot no Hotel de la Plage é memorável e depois, ao longo da sua estadia na estância balnear, iremos assistir às mais diversas situações burlescas: o pneu que se transforma em coroa de flores no cemitério; o passeio de barco na praia, a explosão do fogo-de-artifício ou o seu convívio com os outros veraneantes, que tantas vezes no faz recordar o Petit Nicolas e as suas “vacances”.

Numa época em que as televisões insistem em apresentar “concursos” idiotas, no intuito de fazer rir as audiências, talvez fosse melhor oferecerem ao espectador os filmes de Jacques Tati, (*) para todos descobrirem como se faz sorrir de forma inteligente, partindo de situações do quotidiano. E nunca é demais recordar que ele transforma a banda sonora dos seus filmes num intérprete maravilhoso e surpreendente.



Monsieur Hulot é uma personagem única na História do Cinema e o seu criador, esse cineasta/intérprete de nome Jacques Tati, navegou sempre nesse “mar alto” da comédia ao lado de Charles Chaplin e Buster Keaton, oferecendo-nos a magia do sorriso inteligente das suas películas.

(*) - A RTP Memória tem estado a exibir os filmes de Jacques Tati ao fim de semana.