sexta-feira, 31 de março de 2017

Stephen Frears – “A Rainha” / “The Queen”


Stephen Frears – “A Rainha” / “The Queen”
(Inglaterra/França/Itália – 2006) – (97 min. / Cor)
Helen Mirren, James Cromwell, Alex Jenings, Michael Sheen.

Em “A Rainha” / “The Queen” encontramos uma obra que tudo possuía para cair no docudrama televisivo, no interior da qualidade típica da BBC e no entanto tudo nele respira cinema, desde a direcção de actores, até à montagem, passando pela forma tranquila e segura da elaboração de cada plano e onde o raccord é simplesmente perfeito. Ora isto deve-se a um cineasta que, desde sempre, e ao longo da sua carreira, tem dividido o seu trabalho entre a televisão e o cinema e curiosamente no interior do cinema tanto trabalha em Hollywood para os Estúdios, como faz filmes de baixo orçamento.


O nome de Stephen Frears saltou para a ribalta com “A Minha Bela Lavandaria” / “My Beautiful Laundrette”, oferecendo-nos uma história de amor entre um punk racista e desempregado (Daniel Day Lewis no início da carreira) e um indiano. O filme deu muito que falar, ao contrário do fabuloso e politicamente incorrecto "Liam" e quando o cineasta decidiu levar ao grande écran a adaptação de Christopher Hampton de “Dangerous Liasions” as portas de Hollywood foram-lhe abertas por Martin Scorsese, que lhe produziu “The Grifters” / “Anatomia do Golpe”, uma das maiores homenagens de sempre ao “film noir”. Depois a sua vida começou a ser passada entre os continentes Europa e América, na ilha os filmes de baixo orçamento com Roddy Doyle a assinar os argumentos e no novo mundo obras como “Hi-Lo Country” (a descobrir, passou despercebida em Portugal) ou "Accidental Hero" / “O Herói Acidental”, sobre a manipulação da informação televisiva, que deveria ser (re) vista por quem programa emissões de televisão.



"The Queen” revela-nos que Stephen Frears é um cineasta de mulheres e são exemplo Michelle Pfeifer, Glenn Close, Judy Davis, Annette Bening, Anjelica Huston, Judi Dench ou Julia Roberts, que assinou a sua melhor interpretação de sempre no fabuloso “Mary Reilly”, que nos oferecia um outro olhar sobre “O Médico e o Monstro”. Chegamos assim a uma nova lenda do cinema inglês e dizemos isso porque a interpretação de Helen Mirren em “The Queen” / “A Rainha” é simplesmente memorável, porque quem vimos no grande écran é na verdade Isabel II, conseguindo a actriz fugir aos tiques e maneirismos que muitas vezes matam uma personagem, conseguindo desta feita, a Morgana de “Excalibur”, ultrapassar todas as armadilhas da Arte de representar.


Helen Mirren, tal como Stephen Frears, divide a sua Arte entre o pequeno écran e o cinema, todos certamente se recordam dela na série “Prime Suspect” / “Principal Suspeito” ou em filmes como “Gosford Park”, “The Madness of King George” ou em “O Cozinheiro…” de Peter Greenaway. Mas quem se lembra dela em “The Confort of Strangers”, de Paul Schrader, rodada em Veneza e baseada no livro de Ian McEwan e com argumento de Harold Pinter, é mesmo uma obra-prima!!!! Mas teremos sempre também a astronauta russa de 2010 ou a esposa de Harrison Ford nessa “loucura” passada na “Costa do Mosquito”.


Helen Mirren e a Rainha Isabel II

Regressando a “The Queen” / “A Rainha”, o tema do filme é o período que decorreu entre o dia do acidente que vitimou a Princesa Diana e o dia do seu funeral, dias esses que tornaram a família Real Britânica o centro das atenções de toda a população de uma nação, período esse que possuía pela primeira vez ao fim de um longo jejum um Primeiro-Ministro Trabalhista, que pretendia oferecer um novo estilo à forma de governar, apanhado logo nos primeiros dias do seu mandato na terrível teia da Monarquia Britânica.


Se Helen Mirren visualmente falando é o retrato de Isabel II, já Michael Sheen não é tão parecido com Tony Blair num primeiro contacto, mas depois quando o ouvimos e o vemos a andar tudo nele é de Blair e desde o mais pequeno gesto à forma de sorrir, encontramos o dirigente Trabalhista; por outro lado Stephen Frears não esconde a forma como os Trabalhistas olham a Monarquia através da personagem de Cherie Blair (Helen McCrory) e todo o clima que nos é oferecido do número 10 de Downing Street corresponde à realidade com o Primeiro-Ministro a pedir aos subordinados para o tratarem por Tony. Depois há a forma como as regras do protocolo são inseridas no quotidiano Trabalhista e a forma como Tony Blair conseguiu fazer ver a uma Monarquia como a imagem deles se estava a perder perante o povo, ou seja Diana Spencer, apesar de morta, tinha ganho a batalha travada com a família Real. E na verdade assim sucedeu porque os ingleses sempre a viram como a “Princesa do Povo”, fruto de uma imagem que Diana soube cultivar como ninguém junto dos Média, acabando por ser “devorada” pelas noticias dos tablóides.


“A Rainha” / “The Queen” de Stephen Frears, retrata-nos de forma surpreendente o quotidiano de uma Família Real, que não sabe como lidar com a morte da sua grande adversária, porque goste-se ou não Isabel II e Diana travaram uma luta pelo poder no interior da família real e a sombra de uma outra Isabel (também já interpretada por Helen Mirren para a TV) pairou mais forte sobre Buckingham Palace. São precisamente esses momentos em que tudo se parece desmoronar no Castelo de Balmoral, onde se encontra de férias a Família Real e a forma de lidar com os acontecimentos, a incerteza, a dúvida, o silêncio como fuga, que se revelou uma estratégia errada e quase terminou com a Monarquia. Mas seria a forma como Tony Blair lidou com a situação e com a Rainha Isabel II, que permitiu as pazes entre o Povo e a sua Soberana, perfeitamente retratados no filme, onde os gestos e os olhares da Rainha para as flores depositadas à porta do Palácio e a forma como se cruza com a multidão, que permitem o regresso a casa em paz da Família Real.


Stephen Frears

Depois do funeral encontramos o Primeiro-Ministro Tony Blair e a Rainha Isabel II como sempre, cada um no seu lugar, mantendo o protocolo e em paz para continuarem a dialogar nos jardins de assuntos de Estado, mas também de trivialidades, mantendo as devidas distâncias, porque ela veio para ficar e ele é apenas mais um Primeiro-Ministro de passagem, como a História o provou.
Stephen Frears, em “The Queen”, dá-nos a lição de que o convívio entre o cinema e a televisão nem sempre é fatal, criando uma obra inesquecível, na qual a direcção de actores é um trunfo, mas sendo o seu olhar cinematográfico a mais-valia deste filme tranquilo.

2 comentários:

  1. Um filme quase documentário em que a acriz pricipal, se convidada na vida real, podia substituir a Rainha sem qualquer problema! Muito bom (até este Blair é melhor do que o real)

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