terça-feira, 21 de março de 2017

Robert Coover - "Uma Noite no Cinema ou não te esqueças disto" / "A Night at the Movies or, You Must Remember This"


Robert Coover
“Uma Noite no Cinema ou não te esqueças disto”
Difel, Pag. 184

Robert Coover, com este magnifico livro, convida-nos a visitar o universo do cinema, apresentando-nos uma obra literária como se tratassse de uma longa sessão de cinema integral, onde nada falta. Temos assim apresentações de futuros êxitos, um western repleto de aventuras com o inesquecível tiroteio em Gentry’s Junction. Uma comédia com Charlie na Casa do Arrependimento e como ele não se esquece de ninguém, para os miúdos há desenhos animados, para os amantes dos musicais um breve interlúdio musical com Chapéu Alto e depois a encerrar a sessão o filme mais esperado, o célebre romance que arrasta sempre as multidões, porque não te esqueças disto, revela-nos o lado mais oculto do romance de Ilsa com Rick em Casablanca, numa linguagem pós-moderna em que terminamos por nos revermos sentados na sala de cinema a transportar os nossos sentimentos para o écran, seja qual for o género de filme, porque todos desejamos ser o herói da película e sonhar como Buster Keaton, quando ele adormece na cabine de projecção da sala de cinema e sonha entrar para o interior do écran e assim todas as aventuras que povoam o seu imaginário e assim se revela a escrita genial de Robert Coover, utilizando as mais diversas técnicas de linguagem ao navegar por esse extenso oceano da linguagem, numa produção pós-moderna.



“O apartamento de Rick está às escuras. Uma escuridão de bréu, pesada e abstracta, cujo silêncio é apenas cortado por um crepitar áspero de um lamento mudo, e breve como o sono. Rick abre então a porta e a luz do átrio penetra como um paquete a abrir espaço, superfícies sedimentadas (há uma figura no quarto), acontecimento premonitório (é Ilsa), Rick continua, está demasiado preocupado para dar conta disso: o café dele está fechado, houve pessoas que foram atingidas a tiro, tem problemas. Mas depois, com uma pancada, acende uma pequena luz (que luminosidade! as sombras recuam, tudo recua: onde estão as paredes?) e ei-la, diante dele, segurando o cortinado aberto da janela, mais afastada como se fosse a parte da frente de uma camisa de noite, a luz a reverberar no seu rosto pálido mas determinado como se fosse electricidade estática. Rick atónito, pára por um momento. Ilsa larga o cortinado e as implicações deste perdem-se, dá um passo em frente para o luar estranhamente trémula, procurando captar os olhos dele com os seus.”

Robert Coover - “Não te esqueças disto” 


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