segunda-feira, 27 de março de 2017

Peter Handke - "A Tarde de um Escritor" / "Nachmittag eines Schriftstellers"


Peter Handke
“A Tarde de um Escritor”
Editorial Presença. Pag. 90

Quando escutamos alguém a falar no nome de Peter Handke, de imediato surgem na nossa memória as películas de Wim Wenders nascidas a partir dos argumentos desta voz singular da denominada nova literatura alemã, em que a solidão é tantas vezes personagem, basta recordar filmes como “As Asas dos Desejo”, “Movimento em Falso”, “A Mulher Canhota” ou “A Angustia do Guarda-Redes Perante o Penalty”, estes dois últimos nascidos primeiro no formato de novela e só depois transformados em argumento cinematográfico. Peter Handke, ao longo dos anos, tem trabalhado a palavra através de uma actividade ímpar, que tem alternado entre a literatura, o teatro e o cinema, recorde-se que também ele já realizou quatro películas. Mas o que nos interessa aqui é precisamente o seu trabalho literário, mais concretamente o magnifico livro “A Tarde de um Escritor”, que surge dedicado a Francis Scott Fitzgerald e onde a solidão humana se encontra bem presente, ou não fosse essa mesma solidão a oficina ideal do escritor, como um dia referiu Paul Auster numa entrevista.

Em “A Tarde de um Escritor” iremos descobrir uma profunda reflexão sobre a existência humana nas sociedades contemporâneas, essa difícil arte de existir tantas vezes incógnito no interior da sua própria escrita, oferecendo sempre um pouco de si mesmo às personagens que vai criando, até chegar esse momento em que a ficção e a realidade se diluem de forma perfeita nas palavras que vai construindo, em busca dessa linguagem perfeita que aquece os dias matando o frio das pequenas solidões. Aqui vos deixo dois trechos deste incontornável livro de Peter Handke intitulado “A Tarde de um Escritor”.



“A TARDE DE UM ESCRITOR”

"Desde que, durante quase um ano, o escritor viveu com a ideia de ter perdido a língua, cada frase que escrevia, sentindo ainda por cima o ímpeto da possível continuação, era para ele um acontecimento. Cada palavra que, não dita, mas escrita, dava origem à outra palavra, fazia-o respirar fundo e ligava-o de novo ao mundo; só com esse apontamento feliz começava para ele o dia, e então também bem podia ser que nada mais acontecesse até à manhã seguinte." (...) 

(...) "O escritor já ía a meio caminho do portão do jardiim, quando de repente se voltou. 
Correu para dentro de casa, precipitou-se lá para cima para o quarto de trabalho e substituiu uma palavra por outra. Só agora sentia no quarto o cheiro do suor e via a húmidade nos vidros. 
De repente deixou de ter tanta pressa. De repente devido a essa nova palavra, toda a casa vazia deu a impressão de calor e de bem-estar.(...) 


Peter Handke
in "A Tarde de Um Escritor"

2 comentários:

  1. Parece ser um livro bem interessante.
    Um abraço e uma boa semana

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    1. Uma obra envolvente que nos convida a descobrir a escrita de Peter Handke.
      Boa tarde e uma boa semana, sem chuva:)

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