sexta-feira, 31 de março de 2017

Paul Auster - "O Livro das Ilusões" / "The Book of Illusions"


Paul Auster
“O Livro das Ilusões”
Asa, Pag.270

Paul Auster, ao longo dos anos, construiu um edifício Literário em que personagens nascidos da sua escrita inimitável são imediatamente reconhecidos como seus, tendo sempre em conta essa solidão que habita nos seus corpos. Hector Mann, uma estrela esquecida e dada como morta do período do cinema mudo, é o fio condutor desta história, que irá conduzir o solitário e enlutado David Zimmer (um professor de Literatura de Vermont, que perdeu a mulher e os filhos num desastre de avião) a conhecer essa estrela do cinema mudo, que se retirou no auge da fama, levado pela mão de uma mulher enigmática chamada Alma Grund, até aos confins do Novo México.
Ao longo daquele que será, possivelmente, o mais belo romance de Paul Auster, mergulhamos não só no interior da sua escrita como no do próprio cinema nessa longínqua época em que o som estava ainda ausente e os intertítulos surgiam no écran a complementar as imagens. Curiosamente numa das noites em que relíamos “O Livro das Ilusões”, recordámo-nos a dado passo de “O País das Últimas Coisas”.


"O telefone da casinha de Alma era temperamental e eu nem sempre conseguia apanhá-la. Instalação defeituosa, disse-me ela, um qualquer elo do sistema que por vezes falhava, o que significava que, mesmo depois de ligado o número e ouvido os rápidos cliques e bipes que sugeriam que a chamada estava a ser feita, o telefone dela não tocava. Em contrapartida Alma conseguia chamadas a maior parte das vezes. No dia em que regressei a Vermont, fiz várias tentativas infrutíferas para falar com ela, e, quando Alma finalmente me ligou às onze horas (nove horas, tempo da montanha), decidimos que seria melhor ela telefonar-me, em vez de eu passar um tempo infindo às voltas com a ligação. Depois disso, sempre que falávamos, terminávamos a nossa conversa fixando a hora da chamada seguinte e, por três noites consecutivas, o esquema funcionou tão bem como um truque num espectáculo de magia. Dizíamos sete horas por exemplo, e, às sete menos dez, eu instalava-me na cozinha, servia-me uma pequena dose de tequila pura (continuávamos beber tequila juntos apesar de tão distantes) e, às sete em ponto, no exacto momento em que o ponteiro dos segundos do relógio de parede atingia o topo do círculo para marcar a hora, o meu telefone tocava. Acabei por confiar absolutamente na precisão dessas chamadas. A pontualidade de Alma era um sinal de fé, um total apego ao princípio segundo o qual duas pessoas, embora vivendo em dois locais diferentes do mundo, podiam estar em absoluta sintonia relativamente a quase tudo." 

Paul Auster 
in "O Livro das Ilusões"

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