quinta-feira, 30 de março de 2017

Lawrence Durrell - "Carrossel Siciliano" / "Sicilian Carousel"


Lawrence Durrell
“Carrossel Siciliano”
Livros do Brasil, Pag. 336

Desde que descobri a escrita de Lawrence Durrell na adolescência, através do seu celebre “Quarteto de Alexandria”, que tenho lido e relido os seus livros, sempre com um enorme prazer, mas ao longo dos anos tenho-me deparado com enormes dificuldades em adquirir os livros que me faltam, mesmo em edições estrangeiras, porque as reedições são escassas, e algo que aprendi através de duras penas foi que, por muito mau estado em que esteja um livro, vale sempre a pena ficar com ele quando é o único exemplar disponível. Esta situação vivi-a na Gilbert Joseph em Paris, quando ao fim de dez anos de busca descobri o célebre “Nunquam”, o segundo volume de “A Revolta de Afrodite”, já que o primeiro intitulado “Tunc” foi editado em Portugal pela Ulisseia e tenho-o em meu poder e até hoje não o voltei a encontrar. Isto tudo para vos falar do fabuloso livro de Lawrence Durrell intitulado “Carrossel Siciliano”, que se encontra editado no nosso país, e que permanece adormecido, meio escondido, nas prateleiras das livrarias, porque infelizmente na maioria dos casos os livreiros do século xxi e os grandes espaços comerciais só dão destaque às novidades, muitas delas de qualidade bastante duvidosa, que revelam bem um sinal dos tempos presentes.

Lawrence Durrell, neste belo livro, oferece-nos a sua Arte de forma esplendorosa em virtude de ser possível encontrar nele todas as vertentes da sua escrita, nas mais diversas áreas, pois temos por aqui a poesia (*), o humor, as viagens, as memórias e a Literatura. De referir que o escritor surge em “O Carrossel Siciliano” como protagonista, fazendo parte de um grupo de excursionistas visitando as belas paisagens Sicilianas, mas também com a evocação de duas antigas paixões. A bela Martine e essa Grécia, com a sua História, que o acolheu de braços abertos, mas mais tarde o levou a partir para a Provence, como se encontra relatado no seu livro “Chipre Limões Amargos”.



"(...) A cidade parecia sossegada e com pouco movimento, apesar de ainda ser cedo. Houve um pequenino contratempo no hotel, onde descobrimos que os porteiros tinham feito greve nesse dia. Tivemos por isso de carregar com as nossas malas de que precisávamos para aquela noite. 
Isso não teria sido uma questão muito séria se o elevador não estivesse tão atravancado e se o casal diplomático francês conhecesse a arte elementar de fazer as malas. (...) à saída colidimos de novo no corredor, e, com uma espécie de angústia sibilante, o meu companheiro de viagem disse: "Cher maitre, queira desculpar." 
O meu coração desfaleceu, pois compreendi que tinha sido reconhecido, em virtude, talvez, de ter aparecido demasiadas vezes na televisão, em Paris. Mas ele continuou: " Esteja tranquilo, o seu anonimato será respeitado por mim e pela minha mulher. Ninguém saberá nunca, que Lawrence Durrell está connosco." Foi como se Stendhal se encontrasse com Rossini no elevador. Pouco faltou para que ele fizesse uma genuflexão - quanto a mim, creio que inchei de orgulho, como um sapo. Ele afastou-se às arrecuas pelo corredor fora para o seu quarto - como se faz à realeza ou ao Papa. Eu segui pensativamente para o meu. (...) 

(...) A noite estava serena e fragrante. Quando andávamos de um lado para o outro, o francês saiu, viu-nos e avançou com o seu cartão de visita em riste. "Como un ancien préfet de Paris" disse, "permita que me apresente. Conde Petremend, às suas ordens". Tinha umas maneiras deliciosas e inocentes de astúcia.(...) 

(...)Fez-nos companhia num charuto e demos os três uma volta, para cima e para baixo pelo jardim tépido e sossegado. "Comoveu-me a sua menção do meu anonimato", declarei, emocionado. "Nunca tive qualquer problema com ele, antes. Uma ou duas vezes estive quase a ser declarado persona non grata, mas ficou por aí. Na verdade, a única cruz que tenho que carregar é a de, aonde quer que vá me pedirem que autografe os livros do meu irmão. É invariável." Devo ter falado com grande veemência, pois Deeds olhou para mim com alguma surpresa e disse: "Ainda não aconteceu. " "Mas acontecerá, Deeds, acontecerá." (Dois dias depois, aconteceu. Não me fiz rogado, como de costume, e assinei Marcel Proust com o floreado adequado.) 

Nessa noite o nosso conhecimento não foi mais longe porque a mulher do Conde apareceu com uma rima de cartas para ele endereçar e estampilhar - e o conde despediu-se, uma vez mais com a mesma cortesia requintada.(...) 


(*) - Ver crónica sobre "Taormina"

Lawrence Durrell 

in "Carrossel Siciliano"  - (Siracusa)

4 comentários:

  1. Respostas
    1. O humor inteligente navega na escrita de Lawrence Durrell.
      Boa tarde!

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  2. Uma excelente proposta de leitura.
    Aquele abraço, bfds

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    1. Um dos meus livros favoritos deste escritor que reúne de forma perfeita os seus diversos estilos literários: romance, humor, viagens, poesia.
      Bom fim-de-semana e um abraço!

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