sexta-feira, 3 de março de 2017

John Byrum - "O Fio da Navalha" / "The Razor's Edge"


John Byrum – “O Fio da Navalha” / “The Razor’s Edge”
(EUA - 1984) - (128 min. / Cor)
Bill Murray, Theresa Russell, Catherine Hicks, Denholm Elliott.

John Byrum é um dos mais interessantes cineastas norte-americanos, autor da trilogia composta por "Inserts", "Um Bater de Corações" / "Heartbeat" e "O Fio da Navalha" / "The Razor's Edge". Este cineasta iniciou-se no cinema como actor, nos inícios de setenta, século xx, e depois passou a argumentista, director de fotografia, produtor e realizador ou seja fez a tarimba toda, como se costuma dizer, à boa maneira clássica.
O seu filme "Inserts" foi um verdadeiro furacão no panorama cinematográfico da época e, como alguns devem estar recordados, foi considerado em diversos países, incluindo em Portugal, o melhor filme do ano.


"Inserts" é o termo utilizado para a designação de grandes-planos num "determinado género cinematográfico com a classificação de x-rated", basta recordar o video-clip de "Relax" dos Frankie Goes to Hollywood, inserido e dirigido por Brian de Palma em "Testemunha de um Crime". Neste caso concreto estamos perante um wonder-boy (Richard Dreyfuss), caído em desgraça no sistema dos Estúdios e que se encontra refém de um produtor (Bob Hoskins) de películas hard-core, que o pressiona a concluir o filme, rodando os inevitáveis inserts, que tanta falta fazem ao "desenvolvimento do movie", utilizando um único set, esta película é hoje um verdadeiro cult-movie, apresentando-se como uma das mais apaixonantes reflexões sobre o mundo da pornografia, muito antes do célebre "Boogie Nights"!


John Byrum, com esta obra, surgia como um cineasta a seguir e foi assim com naturalidade que nasceu o fabuloso "HeartBeat" / "Um Bater de Corações", tendo como pano de fundo a relação desse trio sonhador, composto por Jack Kerouac, Neal Cassidy e Caroline Cassidy e o retrato fascinante da geração beatnick, e em simultâneo um estudo acerca da célebre criação literária desse livro mito intitulado "On The Road" / "Pela Estrada Fora".
Os actores que dão vida às personagens são os inesquecíveis Nick Nolte (Neal), John Heard (Jack) e Sissy Spacek (Caroline), o argumento foi escrito, não a partir das obras de Jack Kerouac, mas sim do livro de memórias de Caroline Cassidy, de uma sensibilidade inesquecível. Para os amantes da literatura beatnick, aos quais eu pertenço, este filme é um daqueles que levaríamos sempre para a tal ilha deserta.


Mas, depois, John Byrum decidiu regressar ao cinema clássico em meados de oitenta, século xx, e decide escrever uma nova adaptação para cinema de "O Fio da Navalha", o célebre romance de Somerset Maugham; a sua aposta vai ainda mais longe: depois de os Estúdios de lhe colocarem à disposição todos os meios para uma grande produção, ele decide entregar o principal papel, a personagem de Larry Durrel, a um actor chamado Bill Murray, até então apenas conhecido como comediante e que se envolveu neste projecto ao ponto de ser um dos co-produtores, arriscando tudo nesta película. Longe na verdade estavam os tempos futuros, já que nessa época a Sofia Coppola, então muito pequenina, nunca pensaria que um dia faria uma obra chamada "Lost in Translation", oferecendo a Bill Murray uma das suas melhores interpretações.


O herói de Maugham é um homem dividido entre a liberdade espiritual, o corpo amado e o conhecimento da humanidade, compartilhando com os seus semelhantes a angústia, o amor, a indiferença e a paz da sobrevivência. Bill Murray consegue superar-se a si mesmo e corporizar todos estes estados de alma, numa das mais extraordinárias interpretações de sempre da sua carreira, sendo também de realçar a excelente direcção de actores e a inesquecível Theresa Russell, bem distante das personagens que lhe são oferecidas por Nicholas Roeg. Depois, meus amigos, há essa soberba realização que nos deixa perfeitamente hipnotizados.


No entanto, a moral da história ou do filme foi diferente, a linguagem fria dos números decretou que a película fosse um verdadeiro flop, os espectadores associavam Bill Murray a um dos "Caça-Fantasmas", sendo incapazes de verem nele o extraordinário actor dramático e John Byrum só realizaria para o grande écran apenas mais um filme "The Woopee Boys", mantendo a sua actividade de argumentista para o pequeno écran.


Não nos esqueçamos que esse génio do cinema chamado Peter Bogdanovich assegura a sobrevivência, a maior parte das vezes, trabalhando para "a caixa que mudou o mundo", mais concretamente para os canais de cabo americanos, realizando episódios de séries e telefilmes. Voltando a John Byrum, é na verdade urgente rever a sua obra, para se descobrir um dos melhores cineastas norte-americanos da década de oitenta.

2 comentários:

  1. Um fantástico actor e um excelente romance!

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    1. Subscrevo e recomendo tamb+em o filme uma obra-prima da Sétima Arte!
      Bom fim-de-semana!

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