quarta-feira, 22 de março de 2017

Alain Resnais – “As Ervas Daninhas” / “Les herbes folles”


Alain Resnais – “As Ervas Daninhas” / “Les herbes folles”
(França/Itália – 2009) – (104 min. / Cor)
André Dussolier, Sabine Azéma, Emmanuelle Devos, Anne Consigny.

Alain Resnais, quando surgiu a “Nouvelle Vague”, era um nome que marcava pontos à muito no cinema francês através das suas curtas-metragens documentais, oferecendo, desde logo, um olhar bem diferente do que então era hábito encontrar no interior deste género cinematográfico. Mas seria em 1955, ao realizar “Noite e Nevoeiro” / “Nuit et Brouillard”, que as atenções do mundo se viraram para ele, tal era a força das suas imagens, sobre a origem e funcionamento dos campos de concentração alemães durante o período Nacional-Socialista e três anos depois, ao realizar “Hiroshima Meu Amor” / “Hiroshima mon amour”, a partir de um argumento de Marguerite Duras, irá despertar um interesse universal que nunca mais deixou de aumentar, já que nesta película a ficção, a história de um amor entre uma francesa e um japonês, se irá cruzar com o documentarismo, onde as imagens da destruição de Hiroshima pela bomba atómica irão dilacerar o coração do espectador.


No início dos anos sessenta, com “O Último Ano em Marienbad” / “L' année dernière à Marienbad”, Alain Resnais irá levar o “nouveau roman” ao écran, convidando o espectador a uma viagem até então nunca vista, oferecendo-nos um argumento onde a memória e o tempo são a trave mestra de toda a história.
Em “Muriel ou o Tempo de um Regresso” / “Muriel ou le temps d’un retour”, o cineasta irá abordar a memória da guerra de Argel no interior do quotidiano, onde mais uma vez o passado invade o presente, iniciando assim uma longa viagem pelo interior da ficção, que nos irá oferecer ao longo de décadas obras inesquecíveis.


Com o passar dos anos, o cineasta começa, cada vez mais, a sentir o apelo do Estúdio em detrimento da filmagem em exteriores, ao mesmo tempo que vai juntando um grupo de actores que serão presença constante nas suas películas: Sabine Azèma (sua companheira), Pierre Arditti e André Dussolier, entre outros.
“Mèlo” e “Fumar” – “Não Fumar” / “Smoke” – “No Smoke”, nascidas de peças teatrais e inteiramente rodadas em Estúdio, surgem no entanto perante o espectador como obras profundamente cinematográficas, tal é a forma como a luz e a cor se conjugam numa perfeita harmonia com os movimentos de câmara, construindo no primeiro filme uma das mais belas homenagens ao melodrama e na segunda obra, composta por duas películas, oferece aos seus dois actores favoritos, Sabine Azèma e Pierre Arditti, a oportunidade de exprimirem todas as suas potencialidades criativas ao desempenharem, cada um deles, a totalidade das personagens do filme.


“As Ervas Daninhas” / “Les herbes folles”, a sua última película, representa o abandono do Estúdio como local eleito de filmagem, regressando aos exteriores para nos narrar uma história, em que mais uma vez a complexidade das relações humanas é eleita para nos oferecer um retrato da sociedade contemporânea.
George Palet (André Dussolier) possui, desde tenra idade, uma paixão por aviões e um dia irá encontrar uma carteira abandonada num parque de estacionamento, terminando por descobrir, após ver o seu interior que a sua dona, Marguerite Muir (Sabine Azèma), possui a brevet de piloto de aviões, embora ela só exerça essa actividade nas horas livres, tendo até adquirido um velho “Spitfire” da Segunda Guerra Mundial, que é a pérola dos mecânicos do aeródromo.
Este homem de meia-idade, que possui uma vida estável com a mulher Suzanne (Anne Consigny) e dois filhos já adultos, irá sentir uma profunda atracção por esta mulher desconhecida, mas quando ele vai entregar a carteira à polícia, saberemos que ele possui um segredo no seu passado que o atormenta.


No entanto essa atracção fatal irá levá-lo a tudo fazer para conhecer a mulher a quem roubaram a mala no Palais Royal, não olhando a meios para atingir os seus fins, primeiro com telefonemas, depois com uma carta confessando os seus afectos, chegando até a cortar os pneus do automóvel de Marguerite Muir (Sabine Azéma), após ela ter recusado encontrar-se com ele. Perante tudo isto, ela decide ir a sua casa para colocar um ponto final ao assédio.
Os dados estão lançados e a espiral do amor entre os dois irá lançá-los num definitivo voo que os conduzirá à perdição.

Alain Resnais

“As Ervas Daninhas” / “Les herbes folles” oferece-nos, mais uma vez, todo o saber de um cineasta, que ao longo de décadas nos ofereceu uma das filmografias mais originais oriundas do território francês, cruzando estilos e ficções, numa perfeita simbiose, onde o famoso olhar de Alain Resnais é de imediato detectado pelo cinéfilo, revelando sempre a sua indesmentível marca de autor. Vale a pena recordar!

6 comentários:

  1. Um texto muito interessante, sobre um cineasta que quase não conheço, e sobre um filme que não vi.
    Um abraço.

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    1. Vale a pena descobrir a filmografia de Alain Resnais.
      Muito boa tarde!

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  2. Um filme interessante! Com dois actores extraordinários!

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    1. Com os protagonistas a pertencerem à "família" de Alain Resnais, o cineasta francês assinou mais um maravilhoso filme.
      Muito boa tarde

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  3. Gostei muito do texto e fiquei curiosa sobre o filme.

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    1. Obrigado pelo amável comentário e aproveito para recomendar o filme que se revela um dos melhores da filmografia deste genial cineasta.
      Muito boa tarde!

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