sexta-feira, 31 de março de 2017

Stephen Frears – “A Rainha” / “The Queen”


Stephen Frears – “A Rainha” / “The Queen”
(Inglaterra/França/Itália – 2006) – (97 min. / Cor)
Helen Mirren, James Cromwell, Alex Jenings, Michael Sheen.

Em “A Rainha” / “The Queen” encontramos uma obra que tudo possuía para cair no docudrama televisivo, no interior da qualidade típica da BBC e no entanto tudo nele respira cinema, desde a direcção de actores, até à montagem, passando pela forma tranquila e segura da elaboração de cada plano e onde o raccord é simplesmente perfeito. Ora isto deve-se a um cineasta que, desde sempre, e ao longo da sua carreira, tem dividido o seu trabalho entre a televisão e o cinema e curiosamente no interior do cinema tanto trabalha em Hollywood para os Estúdios, como faz filmes de baixo orçamento.


O nome de Stephen Frears saltou para a ribalta com “A Minha Bela Lavandaria” / “My Beautiful Laundrette”, oferecendo-nos uma história de amor entre um punk racista e desempregado (Daniel Day Lewis no início da carreira) e um indiano. O filme deu muito que falar, ao contrário do fabuloso e politicamente incorrecto "Liam" e quando o cineasta decidiu levar ao grande écran a adaptação de Christopher Hampton de “Dangerous Liasions” as portas de Hollywood foram-lhe abertas por Martin Scorsese, que lhe produziu “The Grifters” / “Anatomia do Golpe”, uma das maiores homenagens de sempre ao “film noir”. Depois a sua vida começou a ser passada entre os continentes Europa e América, na ilha os filmes de baixo orçamento com Roddy Doyle a assinar os argumentos e no novo mundo obras como “Hi-Lo Country” (a descobrir, passou despercebida em Portugal) ou "Accidental Hero" / “O Herói Acidental”, sobre a manipulação da informação televisiva, que deveria ser (re) vista por quem programa emissões de televisão.



"The Queen” revela-nos que Stephen Frears é um cineasta de mulheres e são exemplo Michelle Pfeifer, Glenn Close, Judy Davis, Annette Bening, Anjelica Huston, Judi Dench ou Julia Roberts, que assinou a sua melhor interpretação de sempre no fabuloso “Mary Reilly”, que nos oferecia um outro olhar sobre “O Médico e o Monstro”. Chegamos assim a uma nova lenda do cinema inglês e dizemos isso porque a interpretação de Helen Mirren em “The Queen” / “A Rainha” é simplesmente memorável, porque quem vimos no grande écran é na verdade Isabel II, conseguindo a actriz fugir aos tiques e maneirismos que muitas vezes matam uma personagem, conseguindo desta feita, a Morgana de “Excalibur”, ultrapassar todas as armadilhas da Arte de representar.


Helen Mirren, tal como Stephen Frears, divide a sua Arte entre o pequeno écran e o cinema, todos certamente se recordam dela na série “Prime Suspect” / “Principal Suspeito” ou em filmes como “Gosford Park”, “The Madness of King George” ou em “O Cozinheiro…” de Peter Greenaway. Mas quem se lembra dela em “The Confort of Strangers”, de Paul Schrader, rodada em Veneza e baseada no livro de Ian McEwan e com argumento de Harold Pinter, é mesmo uma obra-prima!!!! Mas teremos sempre também a astronauta russa de 2010 ou a esposa de Harrison Ford nessa “loucura” passada na “Costa do Mosquito”.


Helen Mirren e a Rainha Isabel II

Regressando a “The Queen” / “A Rainha”, o tema do filme é o período que decorreu entre o dia do acidente que vitimou a Princesa Diana e o dia do seu funeral, dias esses que tornaram a família Real Britânica o centro das atenções de toda a população de uma nação, período esse que possuía pela primeira vez ao fim de um longo jejum um Primeiro-Ministro Trabalhista, que pretendia oferecer um novo estilo à forma de governar, apanhado logo nos primeiros dias do seu mandato na terrível teia da Monarquia Britânica.


Se Helen Mirren visualmente falando é o retrato de Isabel II, já Michael Sheen não é tão parecido com Tony Blair num primeiro contacto, mas depois quando o ouvimos e o vemos a andar tudo nele é de Blair e desde o mais pequeno gesto à forma de sorrir, encontramos o dirigente Trabalhista; por outro lado Stephen Frears não esconde a forma como os Trabalhistas olham a Monarquia através da personagem de Cherie Blair (Helen McCrory) e todo o clima que nos é oferecido do número 10 de Downing Street corresponde à realidade com o Primeiro-Ministro a pedir aos subordinados para o tratarem por Tony. Depois há a forma como as regras do protocolo são inseridas no quotidiano Trabalhista e a forma como Tony Blair conseguiu fazer ver a uma Monarquia como a imagem deles se estava a perder perante o povo, ou seja Diana Spencer, apesar de morta, tinha ganho a batalha travada com a família Real. E na verdade assim sucedeu porque os ingleses sempre a viram como a “Princesa do Povo”, fruto de uma imagem que Diana soube cultivar como ninguém junto dos Média, acabando por ser “devorada” pelas noticias dos tablóides.


“A Rainha” / “The Queen” de Stephen Frears, retrata-nos de forma surpreendente o quotidiano de uma Família Real, que não sabe como lidar com a morte da sua grande adversária, porque goste-se ou não Isabel II e Diana travaram uma luta pelo poder no interior da família real e a sombra de uma outra Isabel (também já interpretada por Helen Mirren para a TV) pairou mais forte sobre Buckingham Palace. São precisamente esses momentos em que tudo se parece desmoronar no Castelo de Balmoral, onde se encontra de férias a Família Real e a forma de lidar com os acontecimentos, a incerteza, a dúvida, o silêncio como fuga, que se revelou uma estratégia errada e quase terminou com a Monarquia. Mas seria a forma como Tony Blair lidou com a situação e com a Rainha Isabel II, que permitiu as pazes entre o Povo e a sua Soberana, perfeitamente retratados no filme, onde os gestos e os olhares da Rainha para as flores depositadas à porta do Palácio e a forma como se cruza com a multidão, que permitem o regresso a casa em paz da Família Real.


Stephen Frears

Depois do funeral encontramos o Primeiro-Ministro Tony Blair e a Rainha Isabel II como sempre, cada um no seu lugar, mantendo o protocolo e em paz para continuarem a dialogar nos jardins de assuntos de Estado, mas também de trivialidades, mantendo as devidas distâncias, porque ela veio para ficar e ele é apenas mais um Primeiro-Ministro de passagem, como a História o provou.
Stephen Frears, em “The Queen”, dá-nos a lição de que o convívio entre o cinema e a televisão nem sempre é fatal, criando uma obra inesquecível, na qual a direcção de actores é um trunfo, mas sendo o seu olhar cinematográfico a mais-valia deste filme tranquilo.

quinta-feira, 30 de março de 2017

John M. Stahl - “Sublime Expiação” / “Magnificent Obsession”


John M. Stahl  - “Sublime Expiação” / “Magnificent Obsession”
(EUA – 1935) – (98 min. - P/B)
Irene Dunne, Robert Taylor, Betty Furness, Sara Haden, Charles Butterworth.



A memória do cinema, por vezes, é bem madrasta para cineastas que ofereceram a sua vida à Sétima Arte. E não é preciso ir muito longe para falar nesse homem chamado John M. Stahl, que nos ofereceu a Arte do Melodrama nesses longínquos anos trinta, e a sua genialidade era tão grande que, vinte anos depois, os mesmos Estúdios Universal que o acolheram durante a sua carreira, fizeram os “remakes” de três das suas principais obras: “Magnificent Obsession”, Imitation of Life” e When Tomorrow Comes”, sendo essa tarefa de revisão entregue a outro Mestre do Melodrama: Douglas Sirk.


Porém, quando se fala dos geniais melodramas de Sirk, que tanto influenciaram a obra de Rainer Werner Fassbinder, o americano John M. Stahl fica quase sempre no esquecimento, surgindo apenas como autor de uma primeira versão das obras. Estamos assim perante uma das grandes injustiças da História do Cinema, sendo a outra o esquecimento de Frank Borzage, mas há muitas mais, referimos apenas estes dois nomes porque eles estão definitivamente associados a esse género chamado melodrama, que nunca foi muito amado pela crítica cinematográfica: o esquecimento a que foi votado pela Academia de Hollywood esse melodrama contemporâneo intitulado “As Pontes de Madison County” / “The Bridges of Madison County”, realizado por Clint Eastwood, fala por si.

John M. Stahl iniciou a sua actividade em 1918, ainda nessa época heróica do cinema mudo e, até à sua morte em 1950, fez quarenta filmes, bem demonstrativos do seu saber, sendo também um dos fundadores da Academia de Hollywood, mas quando morreu foram poucos os que se lembraram dele.


Rock Hudson e Jane Wyman - o remake
Robert Taylor e Irene Dunne - o original

“Sublime Expiação” / “Magnificent Obsession” é na verdade um produto da Universal, que sempre cultivou a Arte do Melodrama, esse género que levava as plateias a puxar do lenço para limparem as lágrimas, perante as tragédias que se desenrolavam no grande écran, tantas vezes o espelho perfeito de vidas anónimas, que ainda hoje se cruzam connosco.

Ao contrário de Douglas Sirk, que explorou no seu “remake” todas as potencialidades deste melodrama, pondo grande ênfase na questão da operação de Helen Hudson, John. M. Stahl tirou bom partido do facto da protagonista ser a fabulosa Irene Dunne, que mais tarde iria constituir com Cary Grant uma fabulosa dupla, e introduziu momentos de pura comédia, a um passo da tragédia, como veremos na chegada ao hospital de Helen (Irene Dunne) e Joyce Hudson (Betty Furness). Por outro lado a presença de Robert Taylor nesta película (ainda sem o famoso bigode), serviu de rampa de lançamento para o actor, que aqui começa na comédia e rapidamente vive o melodrama em todo o seu fulgor.


O Dr. Hudson é um homem que gosta de ajudar os outros e pratica uma espécie de filosofia que convida a manter secreta essa mesma ajuda, pedindo apenas que, em troca, a pessoa realize um acto idêntico perante o seu semelhante. Mas infelizmente o Dr. Hudson morreu de paragem cardíaca, devido ao facto de único aparelho que existia na clínica ter sido requisitado para socorrer o playboy e milionário Bobby Merrick (Robert Taylor), que tinha caído no lago, perdido de bêbado, após horas de farra.


John M. Stahl e o esplendor do preto e branco!
Douglas SirK e as suas famosas cores!

Merrick recupera dessa noite sem regras, na clínica do Dr. Hudson, onde a consternação é geral pela morte do médico, e o destino fará com que se cruze com Helen Hudson, a esposa do clínico falecido, e fique fascinado por ela, embora esconda a sua identidade, devido aos acontecimentos recentes, mas a tragédia espreita na estrada e ela irá ficar cega para sempre…


John M. Stahl

Estamos assim perante esse perfeito território trágico, que John M. Stahl tão bem explorou e, quando revemos este filme, descobrimos nele a verdadeira essência do melodrama, nesses dourados anos trinta, hoje em dia tão esquecidos.
(Re)vermos a obra de John M. Stahl é a melhor homenagem que poderemos prestar a este cineasta e será sempre de referir que a edição em DVD que a Costa do Castelo fez nos oferece as duas versões de “Sublime Expiação”,  a de John M. Stahl e a de Douglas Sirk! 

quarta-feira, 29 de março de 2017

Gregory Hoblit – “A Raiz do Medo” / “Primal Fear”


Gregory Hoblit – “A Raiz do Medo” / “Primal Fear”
(EUA – 1996) – (129 min. / Cor)
Richard Gere, Laura Linney, Edward Norton, Frances McDormand, John Mahoney, Alfred Woodard, Joe Spano.

“A Raiz do Medo” / “Primal Fear” marca a estreia no cinema de Gregory Hoblit, que entra por uma surpreendente porta grande ou não fosse ele um dos responsáveis pela “Balada de Hill Street” / “Hill Street Blues”, a par do célebre Steven Bochco e da famosa série “L.A. Law”.
Partindo do romance de William Diehl, o cineasta irá construir um “thriller” de primeira água, onde iremos conhecer um famoso advogado de Chicago, Martin Vail (Richard Gere, numa das melhores interpretações da sua longa carreira), que gere a sua celebridade movimentando-se como ninguém nos “ Media”, ao mesmo tempo que co-habita os territórios do poder a par com os criminosos que defende com êxito, sempre tendo em vista o dinheiro que pode ganhar com isso.


E quando o conhecido Arcebispo Rushman (Stanley Anderson) é assassinado por um jovem acólito, de forma brutal, recebendo o cognome de “o carniceiro” pela Imprensa, de imediato Martin Vail (Richard Gere) oferece-se para defender o jovem Aaron (o então desconhecido Edward Norton, que nos irá surpreender com a sua interpretação ou não fosse ele um dos maiores actores da sua geração), já que vê naquele caso macabro a forma perfeita de aumentar ainda mais a sua popularidade, começando a defender a inocência do seu tímido cliente, partindo do princípio que poderia existir um terceiro agressor.


Tendo em conta o escândalo, o Procurador-Geral Shaughnessy (o veterano e excelente secundário John Mahoney), decide pedir a pena capital para o acusado, encarregando Janet Venable (Laura Linney, também ela sempre excelente) de tratar da acusação, recomendando desde logo que não poderá haver falhas no processo. A bela Janet Venable, antiga advogada estagiária de Martin Vail, com quem tinha tido um caso irá ,por todos os meios ao seu alcance, levar esses mesmos objectivos a bom porto. Mas nos bastidores encontram-se poderosas forças económicas, envolvidas na especulação de terrenos, com o intuito de criarem condomínios de luxo, sociedade essa ligada à Igreja através do próprio Arcebispo.


Durante a investigação efectuada pelos membros da equipa de Martin Vail, irá ser encontrada uma cassete filmada pelo próprio Arcebispo, onde se vê o acusado com mais um acólito a ter relações sexuais com uma rapariga, originando desde logo um enorme escândalo, ao mesmo tempo que o acusado começa a revelar perante a psicóloga (Frances McDormand), que o interroga filmando as sessões, possuir uma dupla personalidade, o que irá baralhar, decididamente, as regras do jogo, conseguindo Martin Vail (Richard Gere) levar “a água ao seu moinho”, manipulando tudo e todos, em busca dessa celebridade  que tanto ama e os “Media” adoram.


“A Raiz do Medo” / “Primal Fear” oferece-nos um "thriller" emocionante, à medida que as cartas do jogo vão sendo conhecidas, envolvendo o espectador de forma perfeita no filme, onde nunca é demais salientar o trabalho dos protagonistas, aliás o elenco, se virem bem, é de luxo e depois temos uma excelente direcção de actores, vejam-se as sequências no tribunal, para no final, após o julgamento e a decisão tomada pela justiça, sermos todos surpreendidos pela verdade dos factos! Tentem ver este filme magnifico e não se esqueçam de fixar o nome do realizador, porque aqui estamos perante um grande cineasta, facto que nos será comprovado pelos filmes seguintes de Gregory Hoblit. 

terça-feira, 28 de março de 2017

Delmer Daves – “O Comboio das 3 e 10” / “3:10 To Yuma”


Delmer Daves – “O Comboio das 3 e 10” / “3:10 To Yuma”
(EUA – 1957) – (92 min. – P/B)
Glenn Ford, Van Heflin, Leora Dana, Henry Jones, Robert Emhardt, Richard Jaeckel.

O cineasta Delmer Daves, apesar de se ter formado em Direito pela Stanford University, nunca irá exercer a profissão, iniciando-se no cinema num trabalho menor em “The Covered Wagon” (1927). Mais tarde passou a actor e pouco tempo depois começou a colaborar na escrita de argumentos, passando rapidamente a ser reconhecido pelo seu enorme talento. Filmes como “A Floresta Petrificada” / “The Petrified Forest” (1936) e “Ele e Ela” / “Love Affair”, devem tudo ao saber do argumentista, tendo-se Delmer Daves estreado na realização com “Rumo a Tóquio” / “Destination Tokyo” (1943), tendo Cary Grant e John Garfield nos protagonistas.


No entanto será nesses géneros, hoje um pouco esquecidos, o “Western” e o denominado “Film Noir”, que este cineasta irá dar nas vistas, continuando, muitas vezes a assinar os seus próprios argumentos, ao mesmo tempo que gostava de produzir os seus próprios filmes, para assim ter um maior controlo sobre todos os aspectos da produção das películas, impedindo desta forma as tão famosas intromissões de terceiros ou seja os patrões do Estúdio.


“O Comboio das 3 e 10” / “3:10 to Yuma” é um dos seus filmes mais famosos, um “Western” que, de certa forma, irá beber da mesma fonte que o célebre “High Noon” / “O Comboio Apitou Três Vezes” de Fred Zinnemann, oferecendo a Glenn Ford, que aqui interpreta a personagem Ben Wade, um dos seus melhores desempenhos, na figura de um famoso chefe de uma quadrilha, que não olha a meios para atingir os seus fins, embora tente evitar danos colaterais ou se preferirem vítimas inocentes, revelando sempre uma enorme eficácia nos assaltos que planeia e será isso mesmo que iremos ver logo no início do filme, com o assalto à diligência que transporta o ouro.


Mas antes deste acontecimento fulcral para o desenvolvimento da acção, iremos conhecer um homem e a sua família, Dan Evans (Van Heflin), que luta na sua parcela de terreno contra a seca que atinge a região onde vive. E será esse mesmo homem que irá presenciar o assalto na companhia dos dois filhos pequenos e que irá desempenhar um papel primordial em “3:10 to Yuma”, ao aceitar levar o perigoso bandido até ao comboio, que o irá conduzir até ao presídio, depois deste ter sido capturado, em virtude de ter decidido ficar para trás, para cortejar a jovem empregada de um saloon.


Dan Evans (Van Heflin) irá aceitar essa missão, na companhia de Alex Porte (Henry Jones), conhecido como o eterno bêbado do lugarejo, mais o dono da companhia das diligências, que lhes oferece 200 dollars em troco da difícil missão, verba que irá retirar da miséria Dan Evans e a sua família.
Ao longo do filme iremos ter o retrato psicológico dos dois homens, o temível Ben Wade e o pobre Dan Evans, num temível duelo de palavras, percebendo de imediato o fora-da-lei as razões que levam aquele homem a aceitar a mortífera missão. Estamos assim perante o célebre “Western Psicológico”, que irá fazer furor nesses anos, ao mesmo tempo, que Delmer Daves consegue envolver o espectador de forma perfeita na trama do filme.

Delmer Daves

Em 2007, o cineasta James Mangold, realizou um “remake” deste filme, com Russell Crowe e Christian Bale nos protagonistas, mas o original, no seu soberbo preto e branco, continua a suplantar o “remake”, graças ao saber desse grande cineasta chamado Delmer Daves.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Tony Scott – “Déjà Vu”


Tony Scott – “Déjà Vu”
(EUA - 2006) – (128 min / Cor)
Denzel Washington, Paula Patton, Val Kilmer, James Caviezel..

Tony Scott é um daqueles cineastas cujo nome guardamos na memória com saudade, após a sua partida recente. Oriundo da publicidade, tal como o seu irmão Ridley Scott, desde sempre conjugou a estrutura publicitária no interior da sua obra cinematográfica, surgindo este como uma espécie de assinatura ou elemento identificador do cineasta.


“The Hunger” / “Fome de Viver”, película que o deu a conhecer ao mundo, deixou todos perfeitamente boquiabertos perante aquela história de vampiros e lésbicas, possuidora de uma carga erótica capaz de acordar o mais escondido fantasma na alma do homem. Depois a sua carreira entrou decididamente no interior da Indústria e por lá ficou. Mas não podemos definir a Indústria Cinematográfica como sinónimo de falta de qualidade, porque basta recordar “Maré Vermelha” / “Crimson Tide” ou “Spy Games” / “Jogo de Espiões” para nos situarmos em duas obras de Tony Scott em que a qualidade é simplesmente imparável. É certo que “Top Gun” e “Caça Polícias II” também está no seu curriculum, mas será sempre de recordar o que de melhor possui um cineasta.


Em “Déjà Vu” voltamos a encontrar Denzel Washington sobre o comando de Tony Scott e mais uma vez o actor nos oferece uma imagem politicamente correcta do seu herói, longe do polícia de “Dia de Treino” / “Training Day” de Antoine Fuqua ou dos tiques desse outro fabuloso polícia interpretado em “Infiltrado” / “Inside man” de Spike Lee (onde ele até nem se esqueceu do chapéu). Mais uma vez temos aqui Denzel Washington na figura de um polícia a investigar um ataque terrorista a um “ferry-boat” carregado de pessoas, sendo uma grande parte deles marinheiros. As provas vão surgindo lentamente, criando pistas, mas desvendar as causas do ataque é bastante problemático. Começa então a desenhar-se perante o agente Doug Carlin (Denzel Washington) um caminho científico criado pelas novas tecnologias, que permite regressar atrás no tempo até um período de quatro dias, mas as imagens vistas uma vez nunca mais poderão ser reconstituídas e a decisão do caminho a tomar está nas suas mãos, a sua palavra é ordem, ao contrário do que sucedeu muitos anos antes no cinema a Mr. Tibbs (Sidney Poitier), perdido numa little town racista (*).


Todos estes meios só foram postos à disposição de Doug após o agente do FBI Andrew Pryzwarra (Val Kilmer) se ter assegurado de que ele vivia para o seu trabalho, os pais tinham morrido durante o furacão Katrina (profundamente desoladoras as imagens oferecidas pelo filme, toda a acção se desenrola em New Orleans, sendo até o filme dedicado aos seus habitantes), a namorada partira, abandonando-o, a esperança tinha desaparecido e ele era um homem só naquele deserto de destroços. Mais importante para Andrew é que Doug Carlin participou nas investigações do caso de Oklahoma, referência ao maior ataque terrorista levado a cabo por americanos.


Perante este cenário, vamos encontrar mais uma vez as teses que fazem história na extrema-direita americana através de James Caviezel, numa interpretação em que o ex-Jesus Cristo de Mel Gibson consegue personificar o mal com paixão e dever cumprido, mas a tecnologia posta ao serviço de Doug Carlin  irá proporcionar-lhe viajar no tempo, curto espaço de tempo é certo, levando-o ao encontro de Claire (Paula Patton), a primeira vítima do terrorista e elemento fulcral para o bom desenrolar das investigações.
Tony Scott consegue ao longo da película manter o suspense de toda a intriga, embora por vezes as explicações científicas sobre as capacidades da máquina sejam demasiado extensas, porque estamos num filme de acção e muitas vezes a acção é derrotada quando há demasiadas pausas para explicações. Apesar deste pequeno senão, estamos perante um bom policial, que nos conduz a um termo muito popular no século xx: Isto é Cinema!.


(*) - Referimo-nos ao filme de Norman Jewinson intitulado “No Calor da Noite” / “In the Heat of the Night”.

domingo, 26 de março de 2017

Bruce Beresford – “Amor e Compaixão” / “Tender Mercies”


Bruce Beresford – “Amor e Compaixão” / “Tender Mercies”
(EUA – 1983) – (110 min. / Cor)
Robert Duvall, Tess Harper, Betty Buckley, Ellen Barkin, Wilford Brimley.



Todas as noites têm os seus momentos de luar e “Amor e Compaixão” / "Tender Mercies" de Bruce Beresford é uma pérola lunar, transportada para o território terrestre da Galaxia através da luminosidade do écran mágico do cinema.


Esta película oferece-nos o retrato de um cantor "country" retirado, cuja vida foi invadida pelo álcool, originando a perda da família. Abandonado por um amigo, após uma discussão, no Motel de Rose (Tess Harper) e não tendo com que pagar a estadia, Mac Sledge (Robert Duvall) acaba por permanecer naquele local trabalhando.
Rose, uma das muitas viúvas do Vietname, vive com o filho ainda pequeno e com a passagem dos dias acaba por se casar com Mac, fugindo da solidão num dos mais belos actos de amor pela terra/família.


Não utilizando qualquer espécie de artifício, Bruce Beresford transmite-nos o olhar apaixonado da paisagem agreste, onde três corpos sobrevivem ao longo das noites. E se a componente “country” da película nos envia para filmes como “Música pelo Caminho” / "Honeysuckle Rose" de Jerzy Schatzberg e “A Filha do Mineiro” / "Coal Miner's Daughter" de Michael Apted, verificamos que também poderemos seguir por outra estrada cinematográfica, em virtude de a paisagem que se descobre ao longo dos fotogramas ser a capacidade de reconstruir a felicidade, quando já não se acreditava nela.


As imagens de Mac Sledge (Robert Duvall), a cuidar da horta e a jogar com o seu “novo” filho, enviam-nos directamente para esse espaço/família tão característico da sociedade rural norte-americana, leva-nos a recordar outras películas de idêntica temática como são os casos de “O Rio” / "The River" de Mark Rydell com Mel Gibson e Sissy Spacek, “Um Lugar no Coração” / "Places in the Heart" de Robert Benton com Sally Field e Ed Harris e o inesquecível “Country” de Richard Pearce com Jessica Lange e Sam Shepard.



Quando encontramos esse grande actor chamado Robert Duvall nesta película, cujo extraordinário desempenho lhe ofereceu a conquista do Oscar para Melhor Actor, surge sempre a "curiosidade" de comparar a sua interpretação com a desse militar chamado Kilgore em "Apocalypse Now" e de imediato entendemos o verdadeiro significado da frase "a Arte de interpretar", que só está ao alcance de alguns, entre eles Robert Duvall. Por outro lado, se pretenderem conhecer ainda melhor este actor, não há nada como descobrir esse filme intitulado "O Apóstolo" / "The Apostle" realizado e protagonizado por ele em 1997 e que passou nos nossos écrans de cinema de forma quase silenciosa, um dos projectos mais queridos do actor, que durante mais de uma década lutou por financiamentos para a concretizar e o resultado foi apenas mais uma pérola do cinema norte-americano, que se encontra por descobrir pelo grande público.
“Amor e Compaixão” / “Tender Mercies” não fala da paixão, mas sim do amor, onde muitas vezes as palavras são silenciosas e o olhar uma maneira diferente de amar.

sábado, 25 de março de 2017

Robert Benton – “Na Calada da Noite” / “Still of the Night”


Robert Benton – “Na Calada da Noite” / “Still of the Night”
(EUA – 1982) – (93 min. / Cor)
Roy Scheider, Meryl Streep, Jessica Tandy, Josep Sommer, Joe Grifash.

Quando Robert Benton realizou “Na Calada da Noite” / “Still of the Night”, já o seu nome tinha sido fixado pelo cinéfilo que assistira à noite dos Oscars em que “Kramer Contra Kramer” / “Kramer versus Kramer” tinha saído vencedor. Muitos não gostaram de ver o filme protagonizado por Meryl Streep e Dustin Hoffman levar cinco Oscars para casa, enquanto “Apocalipse Now” de Francis Coppola ficou com apenas duas estatuetas (fotografia e som). O filme de Robert Benton recebeu os prémios de melhor filme, realizador, argumento, actor e actriz secundária. Talvez seja esta a verdadeira razão porque nunca ninguém se interessou verdadeiramente pela obra cinematográfica de Robert Benton.


Se olharmos para a sua filmografia, reparamos que ele é um daqueles artesãos da história do cinema que possuem meia-dúzia de linhas nos dicionários. Porém ele merece um pouco mais, primeiro como grande director de actores, oito actores diferentes foram nomeados para os Oscars em filmes seus, depois a memória do cinema anda sempre um pouco presente nas suas películas, “The Late Show”, a sua segunda obra com Art Carney e Lily Tomlin, é uma homenagem ao “film noir”. “Na Calada da Noite” / "Still of the Night" respira Hitchcock em cada fotograma, “Um Lugar no Coração” / “Places in the Heart” surge como homenagem ao cinema clássico, “Billy Bathgate” a película que revelou Nicole Kidman na América é um duro e sóbrio filme de gangsters, assim como “Twilight” representa uma certa memória do policial, com esse trio de eleição constituído por Paul Newman, Susan Sarandon e Gene Hackman ou esse outro Paul Newman em “Vidas Simples” / “Nobody’s Foll”, um maravilhoso retrato da vida de uma “little town” e dos seus habitantes e por fim o fabuloso “The Human Stain”, uma excelente adaptação da obra de Philip Roth ao cinema, com interpretações extraordinárias de Anthony Hopkins, Nicole Kidman e Ed Harris, e nunca nos poderemos esquecer, neste filme, também desse narrador extraordinário chamado Gary Sinise (um dos actores da série de televisão C.S.I.), a vestir a pele do alter-ego do escritor norte-americano. Por tudo isto ele merece ser aqui recordado e o "thriller" “Na Calada da Noite” também.


Estamos assim em “Still of the Night” perante um daqueles "thrillers" em que sabemos desde o início que a vítima foi assassinada e o principal suspeito é a amante. E poderíamos estar perante mais um banal policial, mas nada disso acontece quando a amante Brooke Reynolds (Meryl Streep) entrega ao psiquiatra do homem assassinado o relógio esquecido por ele na sua cama, para o devolver à esposa, aquela loura frígida e distante, linda de morrer, fumando cigarros atrás de cigarros, possuindo uma aura misteriosa e perturbadora no seu interior. O psiquiatra de Manhattan Sam Rice (Roy Scheider no seu melhor), não resiste em querer saber mais. Ele, que até então levava uma vida apagada, refugiado no seu apartamento, sente-se impelido a seguir Brooke, demonstrando interesse em ajudá-la. Mas se para a polícia ela é a principal suspeita, já ele começa a tornar-se uma personagem incómoda para o verdadeiro assassino. Repare-se nessas duas sequências magistrais de suspense passadas no Central Park à noite e quando o psiquiatra desce a cave do prédio onde vive para lavar a roupa na máquina de lavar, só Nestor Almendros poderia captar aquela luminosidade nocturna.


“Na Calada Noite” possui excelentes interpretações e um argumento que nos agarra à cadeira ao longo do filme, depois é extremamente curiosa a forma como o psiquiatra se socorre da mãe, também ela psiquiatra, para estudar em conjunto a mente da mulher amada, pois é disso mesmo que se trata, ao mesmo tempo que a memória de Alfred Hitchcock paira ao longo filme, repare-se em toda a sequência passada durante o leilão e compare-se com esse outro leilão em “Intriga Internacional” / “North by Northwest” em que James Mason, Cary Grant, Eve Marie Saint e Martin Landau constituem o quarteto de luxo da famosa sequência.
Robert Benton oferece-nos aqui um dos seus melhores trabalhos, rever ou descobrir “Na Calada da Noite”/ “Still of the Night” é um momento gratificante, não só pelo trabalho dos actores, mas também por todos aqueles elementos constituintes de uma película perfeita. Sabemos que está datada dos anos oitenta, no entanto o seu "envelhecimento" é um verdadeiro rejuvenescimento, como um delicioso vinho do porto. “Na Calada da Noite” merece ser “bebido até à última gota”.

sexta-feira, 24 de março de 2017

Brian De Palma – “Missão Impossível” / “Mission: Impossible”


Brian De Palma – “Missão Impossível” / “Mission: Impossible”
(EUA – 1996) – (110 min. / Cor)
Tom Cruise, Kristin Scott Thomas, Jon Voight, Emmanuelle Béart, Henry Czerny, Jean Reno, Vanessa Redgrave, Ving Rhames.

Ao longo das décadas, foram inúmeras as séries de televisão que viram a sua vida ser estendida até ao grande écran e “Missão Impossível” / “Mission: Impossible”, uma das mais célebres de sempre, viu o actor Tom Cruise interessar-se por ela e, como todos sabemos, já lá vão cinco películas a narrarem-nos as aventuras desse agente chamado Ethan Hunt.
O cineasta escolhido para o primeiro filme foi Brian de Palma, que irá realizar a mais eficiente das cinco películas até hoje surgidas no écran, onde a poderosa dupla de produtores, Tom Cruise/Paula Wagner, sai mais uma vez vencedora do desafio.


Brian de Palma, conhecido pela eficácia demonstrada no território do “thriller” ao longo da sua filmografia, não deixa os seus créditos por mãos alheias, ao mesmo tempo que nos oferece um elenco de luxo, onde encontramos diversas estrelas do cinema europeu: Emmanuelle Béart, Jean Reno e Kristin Scott Thomas, que dão bem conta do recado.
Estamos assim nesse território de espiões saídos da famosa guerra-fria, onde os agentes duplos/infiltrados continuam a proliferar no interior das organizações governamentais da contra-espionagem.
Iremos assim. logo a abrir a película, assistir aos preparativos de uma missão em Praga, cujo objectivo é obter um ficheiro onde consta uma lista de agentes duplos a trabalharem no Ocidente, premissa essa bem presente nos dias de hoje, com as trocas de espiões ocorridas por toda a Galaxia, percebendo-se assim como a ficção copia a realidade neste século XXI.


A missão chefiada por Jim Phelps (Jon Voigt) irá fracassar, sendo a maioria dos seus membros mortos, excepto Ethan Hunt (Tom Cruise), que de imediato surge aos olhos do seu superior Eugene Kittridge (Henry Czerny) como o agente duplo infiltrado na organização, porque na verdade a missão era outra: desmascarar o agente duplo.
Ethan Hunt (Tom Cruise) irá descobrir, após uma fuga espectacular, que a sua colega Clair (Emmanuelle Béart) também se salvou e com a ajuda de dois ex-agentes Frank Krieger (Jean Reno) e Luther Stickell (Ving Rhames) irá tudo fazer para descobrir quem se encontra por detrás da trama.


Mas como sucede no universo dos espiões, muitas vezes o que parece ser não é, sucedendo-se os contra-golpes a uma velocidade vertiginosa, até conhecermos um agente chamado Max, que pretende comprar os verdadeiros ficheiros existentes na sede da organização governamental.
Mais uma vez Brian de Palma em “Missão Impossível” / “Mission: Impossible” irá demonstrar a sua celebridade como cineasta do suspense e da acção, em duas sequências memoráveis: o roubo dos ficheiros por Ethan Hunt (Tom Cruise), já por diversas vezes copiada no cinema e o duelo final no TGV.

Brian de Palma e Tom Cruise durante a rodagem
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“Missão Impossível” / “Mission: Impossible”, de Brian de Palma, revela-nos um Tom Cruise em excelente forma, ao mesmo tempo que nos faz recordar com imenso agrado essa famosa série da caixa que mudou o mundo, que permanece bem viva no nosso imaginário.

quinta-feira, 23 de março de 2017

Raoul Walsh – “Objectivo Burma” / “Objective Burma”


Raoul Walsh – “Objectivo Burma” / “Objective Burma”
(EUA – 1945) - (142 min. - P/B)
Errol Flynn, William Price, James Brown, George Tobias.


“Objectivo Burma”/ “Objective Burma” é, acima de tudo, um filme de e sobre a guerra no Pacífico, onde os americanos perderam mais vidas, no confronto com as tropas japonesas que venderam cara a derrota e aqui iremos encontrar o Major Nelson (Errol Flynn) a dar conhecimento aos seus homens do objectivo da missão: destruir uma estação de radar, para assim possibilitar o avanço das tropas americanas na selva birmanesa.
De imediato percebemos que aqueles homens poderão ser para queimar, numa missão que as altas hierarquias militares desejam que seja perfeita. Mas, como todos sabemos, nem sempre os desejos se transformam em realidade e nunca há missões perfeitas no teatro de guerra.


A forma como Raoul Walsh filma a acção de sabotagem no acampamento japonês é de antologia, porque quase poderíamos estar a assistir a um documentário. Este cineasta, que iniciou a sua carreira atrás da câmara, ainda no período mudo, ao dirigir Douglas Fairbanks em “O Ladrão de Bagdad” / “The Thief of Bagdad”, fora anteriormente assistente de D.W. Griffith e Thomas H. Ince, tendo abordado ao longo da sua carreira os mais diversos géneros, utilizando sempre a matéria fílmica com uma eficácia bem demonstrativa do seu talento.


Porém se o objectivo da missão é um êxito, já a caça que lhes é dada pelas tropas japonesas será mortífera para aqueles soldados, especialmente quando, chegados ao local combinado para serem resgatados da selva inóspita, percebem que estão por sua própria conta e risco, restando-lhes apenas continuar a lutar pela sobrevivência, com esse meio que algumas vezes transforma os homens comuns em heróis.
E quando tudo parece perdido, surge o auxílio vindo do céu, quando as tropas pára-quedistas iniciam finalmente aquela que será conhecida como a grande ofensiva no Pacífico.


Ao vermos a interpretação de Errol Flynn, percebemos as razões de ele ter sido uma estrela na sua época, fosse ele o pirata, o cow-boy ou o soldado, porque ao longo da sua carreira cinematográfica sempre ofereceu às personagens que interpretou toda a sua sabedoria de actor. E o que fica na história do cinema não são as histórias da vida privada do actor, mas sim os filmes que protagonizou transmitindo ao espectador toda a sua Arte na composição das personagens que criou na tela com enorme talento.
Quanto a Raoul Walsh, este cineasta que nunca deixou os seus créditos por mãos alheias, surge aqui como o verdadeiro comandante de uma equipa que construiu um dos mais memoráveis filmes de guerra, em que a fotografia de James Wong Howe nos oferece, de forma perfeita, o sangue, suor e lágrimas de todos aqueles que combateram na mortífera e longa batalha do Pacífico.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Alain Resnais – “As Ervas Daninhas” / “Les herbes folles”


Alain Resnais – “As Ervas Daninhas” / “Les herbes folles”
(França/Itália – 2009) – (104 min. / Cor)
André Dussolier, Sabine Azéma, Emmanuelle Devos, Anne Consigny.

Alain Resnais, quando surgiu a “Nouvelle Vague”, era um nome que marcava pontos à muito no cinema francês através das suas curtas-metragens documentais, oferecendo, desde logo, um olhar bem diferente do que então era hábito encontrar no interior deste género cinematográfico. Mas seria em 1955, ao realizar “Noite e Nevoeiro” / “Nuit et Brouillard”, que as atenções do mundo se viraram para ele, tal era a força das suas imagens, sobre a origem e funcionamento dos campos de concentração alemães durante o período Nacional-Socialista e três anos depois, ao realizar “Hiroshima Meu Amor” / “Hiroshima mon amour”, a partir de um argumento de Marguerite Duras, irá despertar um interesse universal que nunca mais deixou de aumentar, já que nesta película a ficção, a história de um amor entre uma francesa e um japonês, se irá cruzar com o documentarismo, onde as imagens da destruição de Hiroshima pela bomba atómica irão dilacerar o coração do espectador.


No início dos anos sessenta, com “O Último Ano em Marienbad” / “L' année dernière à Marienbad”, Alain Resnais irá levar o “nouveau roman” ao écran, convidando o espectador a uma viagem até então nunca vista, oferecendo-nos um argumento onde a memória e o tempo são a trave mestra de toda a história.
Em “Muriel ou o Tempo de um Regresso” / “Muriel ou le temps d’un retour”, o cineasta irá abordar a memória da guerra de Argel no interior do quotidiano, onde mais uma vez o passado invade o presente, iniciando assim uma longa viagem pelo interior da ficção, que nos irá oferecer ao longo de décadas obras inesquecíveis.


Com o passar dos anos, o cineasta começa, cada vez mais, a sentir o apelo do Estúdio em detrimento da filmagem em exteriores, ao mesmo tempo que vai juntando um grupo de actores que serão presença constante nas suas películas: Sabine Azèma (sua companheira), Pierre Arditti e André Dussolier, entre outros.
“Mèlo” e “Fumar” – “Não Fumar” / “Smoke” – “No Smoke”, nascidas de peças teatrais e inteiramente rodadas em Estúdio, surgem no entanto perante o espectador como obras profundamente cinematográficas, tal é a forma como a luz e a cor se conjugam numa perfeita harmonia com os movimentos de câmara, construindo no primeiro filme uma das mais belas homenagens ao melodrama e na segunda obra, composta por duas películas, oferece aos seus dois actores favoritos, Sabine Azèma e Pierre Arditti, a oportunidade de exprimirem todas as suas potencialidades criativas ao desempenharem, cada um deles, a totalidade das personagens do filme.


“As Ervas Daninhas” / “Les herbes folles”, a sua última película, representa o abandono do Estúdio como local eleito de filmagem, regressando aos exteriores para nos narrar uma história, em que mais uma vez a complexidade das relações humanas é eleita para nos oferecer um retrato da sociedade contemporânea.
George Palet (André Dussolier) possui, desde tenra idade, uma paixão por aviões e um dia irá encontrar uma carteira abandonada num parque de estacionamento, terminando por descobrir, após ver o seu interior que a sua dona, Marguerite Muir (Sabine Azèma), possui a brevet de piloto de aviões, embora ela só exerça essa actividade nas horas livres, tendo até adquirido um velho “Spitfire” da Segunda Guerra Mundial, que é a pérola dos mecânicos do aeródromo.
Este homem de meia-idade, que possui uma vida estável com a mulher Suzanne (Anne Consigny) e dois filhos já adultos, irá sentir uma profunda atracção por esta mulher desconhecida, mas quando ele vai entregar a carteira à polícia, saberemos que ele possui um segredo no seu passado que o atormenta.


No entanto essa atracção fatal irá levá-lo a tudo fazer para conhecer a mulher a quem roubaram a mala no Palais Royal, não olhando a meios para atingir os seus fins, primeiro com telefonemas, depois com uma carta confessando os seus afectos, chegando até a cortar os pneus do automóvel de Marguerite Muir (Sabine Azéma), após ela ter recusado encontrar-se com ele. Perante tudo isto, ela decide ir a sua casa para colocar um ponto final ao assédio.
Os dados estão lançados e a espiral do amor entre os dois irá lançá-los num definitivo voo que os conduzirá à perdição.

Alain Resnais

“As Ervas Daninhas” / “Les herbes folles” oferece-nos, mais uma vez, todo o saber de um cineasta, que ao longo de décadas nos ofereceu uma das filmografias mais originais oriundas do território francês, cruzando estilos e ficções, numa perfeita simbiose, onde o famoso olhar de Alain Resnais é de imediato detectado pelo cinéfilo, revelando sempre a sua indesmentível marca de autor. Vale a pena recordar!