quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Robert Altman – “Volta Jimmy Dean, Volta Para Nós” / “Come Back to the 5 & Dime, Jimmy Dean, Jimmy Dean”


Robert Altman – “Volta Jimmy Dean, Volta Para Nós” / “Come Back to the 5 & Dime, Jimmy Dean, Jimmy Dean”
(EUA – 1982) – (109 min. / Cor)
Cher, Sandy Dennis, Karen Black, Kathy Bates, Susie Bond, Marta Heflin, Mark Patton.

«A mitologia das estrelas não pode ser considerada como uma ilhota atrasada
no seio de uma modernidade racional. Pelo contrário,
foi o desenvolvimento da vida urbana moderna
que a suscitou e fez evoluir…
Esta mitologia tem tanto a ver com a antropologia fundamental
como com a sociologia do século xx.»

Edgar Morin (*)



Um dos fenómenos no cinema norte-americano foi o nascimento dos “cult-movies” e o crítico cinematográfico Danny Pearly estabeleceu uma lista de cem filmes que indica como os mais amados e vistos pelos cinéfilos, que os defendem apaixonadamente. Esta lista, à qual posteriormente acrescentou mais títulos, encontra-se em constante evolução. Nela figuram títulos tão diversificados como “Citizen Kane” / "O Mundo a seus Pés" (Orson Welles), “O Vício” / "Trash" (Andy Warhol/Paul Morrissey), “O Dragão Ataca” / "Enter the Dragon" (Robert Clouse), “Emmanuelle” (Just Jaeckin), “Singing in the Rain” / "Serenata à Chuva" (Gene Kelly/Stanley Donen) e “Johnny Guitar” (Nicholas Ray).


“Volta Jimmy Dean, Volta Para Nós”/ "Come Back To The 5 & Dime, Jimmy Dean, Jimmy Dean", um desses “cult-movies”, é a encenação fabulosa da memória mitológica do maior ídolo de sempre da História do Cinema.
Robert Altman, que durante a sua longa carreira sempre interrogou a América, as suas Instituições, os seus comportamentos humanos e os seus Mitos (*), relembra James Dean, esse “Movie Icon” incontornável em qualquer Galáxia, através do olhar feminino, em seis corpos e uma imagem translúcida:


Mona (Sandy Dennis) – O rosto marcado pelos desgostos de um filho atrasado mental: Jimmy Dean (dito filho de James Dean) é centro de atracção durante três anos. Isolada no seu segredo de estrela sem luz, vítima da memória (im) possível das recordações fabricadas, o seu amor é a coragem de viver o sonho da paixão.

Sissy (Cher) – Olha a vida com fulgor, vibra a cada instante, esconde a realidade até as imagens fugirem da sua máscara, oferecendo um quadro povoado de tristeza. O seu amor é a vontade de lutar pela permanência na terra.

Joe/Joanna (Karen Black) – Ela era ele, que as amava, cantando e dançando. Ele que era na realidade o pai de Jimmy Dean. Ela, Joanne caminhava para a recusa de Mina, impossibilitada de reviver o passado. O seu amor é a identidade como alucinação da memória.


Juanita (Sudie Bond) – Dona do centro de atracções Dean, é viúva e recorda o passado com falsa indiferença. O seu amor é o cansaço do quotidiano, mas ainda o desejo de não adormecer nas esquinas da vida.

Edna (Marta Heflin)– Casada, seis filhos, mais um a caminho, símbolo da fragilidade, abandonada, perdida, ainda tem forças para olhar o mundo. O seu amor é a arte de sobreviver.

Stela (Kathy Bates) – Sempre bem disposta, o divertimento é a falsa razão da sua existência. O seu amor é a fabricação artificial da vida.

Jimmy Dean (Mark Patton) – Vinte anos, atrasado mental, é utilizado pela comunidade como divertimento. Foge no carro do pai, inocentemente, um Porsche amarelo, não sabendo sobreviver.


Olhar este “cult-movie” não é só recordar James Dean, mas também amar o universo das mulheres que iluminam a memória da sua imagem, assim como relembrar esse maravilhoso cineasta chamado Robert Altman.


(*) – Sobre os Mitos no cinema recomendamos a leitura do incontornável livro de Edgar Morin intitulado “Estrelas de Cinema” / “Les Stars”

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