quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Jean-Marie Straub e Danièle Huillet – “A Pequena Crónica de Anna Magdalena Bach” / “Chronick der Anna Magdalena Bach”


Jean-Marie Straub e Danièle Huillet – “A Pequena Crónica de Anna Magdalena Bach” / “Chronick der Anna Magdalena Bach”
(Alemanha / Itália – 1968) – (94 min. - P/B)
Gustav Leonhardt, Christiane Lang, Paolo Carlini, Ernest Castelli, Hans-Peter Boye.

Jean-Marie Straub é um caso singular na História do Cinema, demonstrando desde muito cedo uma paixão pelos textos clássicos, ao mesmo tempo que desenvolvia um estilo em que a composição do plano se revelava como a sua marca de autor, optando pelo plano fixo em detrimentos dos movimentos de câmara, ao mesmo tempo que a voz-off sempre bem presente nos seus filmes se revelava uma personagem preponderante.


Desde muito cedo estabeleceu uma relação profissional com a sua esposa Danièle Huillet, uma experiente técnica de montagem, que irá passar a assinar em conjunto com ele a autoria das películas que irão construir ao longo dos anos.
“A Pequena Crónica de Anna Magdalena Bach” / “Chronick der Anna Magdalena Bach” foi a obra da sua longa filmografia a ter maior visibilidade devido a uma excelente carreira comercial, tendo sido estreada em Portugal, nesse Templo do Cinema chamado Cinema Quarteto, como muitos ainda hoje devem estar recordados.


Em “A Pequena Crónica de Anna Magdalena Bach” iremos mergulhar em todo o esplendor na obra musical desse enorme compositor chamado Johann Sebastian Bach, tendo o cineasta convidado o cravista Gustav Leonhardt, de renome mundial, para interpretar a figura do Mestre Alemão. Recorde-se que Gustav Leonhardt é um dos maiores intérpretes de J. S. Bach., bem conhecido de todos os apaixonados da Música Barroca, dado a conhecer ao público português pelo programa de rádio “Em Órbita” na  década de setenta, do século xx. 
Ao longo do filme iremos acompanhar algumas das composições que fizeram a celebridade do Mestre alemão, ao mesmo tempo que escutamos em voz-off o relato feito pela sua segunda esposa Anna Magdalena Bach, da sua relação com o compositor, narração essa que nos transmite uma paixão que irá consumir o espectador lentamente, à medida que vamos escutando as suas geniais composições.

Jean-Marie Straub e Danièle Huillet
durante a rodagem do filme.

Mas demos a palavra a Jean-Marie Straub sobre esta película: “O ponto de partida da nossa «Chronik der Anna Magdalena Bach» foi a ideia de um filme em que a música de Bach não seria um acompanhamento nem um comentário, mas a matéria-prima. O único verdadeiro ponto de referência foi o que Bresson fez com o texto literário em «Journal d’un Cure de Campagne». Também queríamos filmar uma história de amor que não se parece a nenhuma outra: uma mulher que fala do seu marido, que amou até à morte. É isto, a história: nenhuma biografia pode ser feita sem um ponto de vista exterior e aqui este ponto de vista é a consciência de Anna Magdalena Bach”.


“A Pequena Crónica de Anna Magdalena Bach” filmado sempre em planos fixos e num fabuloso preto e branco revela-nos por um lado o amor dedicado da esposa, Anna Magdalena pelo compositor, ao escutarmos as suas memórias, enquanto por outro lado a banda sonora baseada nas composições de Johann Sebastian Bach, nos transporta até esse Olímpo dos Deuses a que ele pertence porque, musicalmente falando, devemos-lhe tudo e Jean-Marie Straub e Danièle Huillet ao realizarem este filme oferecem-nos a oportunidade de partilharmos com eles um dos mais belos momentos da História do Cinema: uma maravilhosa e apaixonante história de amor, onde a música possui o condão de se revelar como personagem.

Sem comentários:

Enviar um comentário