terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

E. E. Cummings - "XIX Poemas"


E. E. Cummings
“XIX Poemas”
Assírio & Alvim, Pag. 80

O filme “Ana e as Suas Irmãs” / “Hannah and Her Sisters”, que Woody Allen realizou em 1986, oferece-nos diversas histórias, mas a mais fascinante de todas, para mim,  é o caso amoroso passado entre Elliott (Michael Caine) e Hannah (Barbara Hershey) e quando ele se faz encontrado por ela, “por mero acaso”, numa rua da Big Apple, terminam por irem a uma dessas livrarias em que só nos apetece nunca mais dali sair e então ele procura na estante o livro de poemas de E. E. Cummings e profundamente apaixonado pela irmã da sua mulher, lê-lhe este poema VIII de E. E. Cummings.



VIII

algures aonde eu nunca viajei, alegremente além de
qualquer experiência, os teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frouxo há coisas que me prendem,
ou que eu não posso tocar de tão próximas que estão

o teu mínimo olhar há-de facilmente desprender-me
embora eu me tenha cerrado como dedos,
tu sempre me abres pétala a pétala como abre a Primavera
(tocando hábil, misteriosamente) a primeira rosa

mas se teu desejo for encerrar-me, eu e
minha vida fecharemos em beleza, de repente,
como quando o coração desta flor imagina
a neve em tudo cuidadosa descendo;

nada do que existe para ser sentido neste mundo iguala
o poder da tua extrema fragilidade: cuja textura
me submete com a cor dos seus domínios,
representando a morte e para sempre em cada alento

(eu não sei o que é que há em ti que fecha
e abre; apenas alguma coisa em mim entende
a voz dos teus olhos mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem tão finas mãos.

E. E. Cummings 
(Tradutor: Jorge Fazenda Lourenço)

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