terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Claude Berri – “Jean de Florette”


Claude Berri – “Jean de Florette”
(FRANÇA – 1986) – (120 min. / Cor)
Yves Montand, Gerard Depardieu, Daniel Auteil, Elizabeth Depardieu, Ernestine Mazurowna.

No ano de 1986, um dos maiores acontecimentos cinematográficos em França foi a adaptação ao cinema do célebre livro de Marcel Pagnol, “Jean de Florette” / ”Manon des Sources”, levada a cabo por Claude Berri e Gérard Brach, tendo o primeiro assinado a realização.

Estamos em plena Provence no ano de 1920, numa região em que os seus habitantes vivem da agricultura, sendo um dos grandes proprietários da região César Soubeyran (Yves Montand) que cobiça com o maquiavélico Ugolin, recém-chegado da tropa, um terreno vizinho, cuja proprietária acabara de falecer. Para tornarem o preço desse pedaço de terra o mais baixo possível, decidem bloquear o curso de uma nascente. Mas, ao contrário do que esperavam, o herdeiro Jean de Florette (Gerard Depardieu), um corcunda cobrador de impostos, encontra-se decidido a deixar a cidade e ir viver para a propriedade da sua mãe, na companhia da esposa Aimee Cadorat (Elizabeth Depardieu) e da pequena filha Manon (Ernestine Mazurowna), para se dedicar ao cultivo de legumes e à criação de coelhos, colocando todo o seu saber na concretização do seu projecto, conhecendo por estudos que efectuou a existência de água na sua propriedade. E se nos primeiros tempos tudo corre bem, com a chegada do verão a seca instala-se na região.


Já Ugolin (uma composição memorável de Daniel Auteuil) segue atentamente os movimentos do seu novo vizinho, tornando-se prestável a fim de cair nas suas boas graças, para assim ir sabotando o projecto do citadino, ao mesmo tempo que lhe vai emprestando o burro para ele ir com a mulher e a filha buscar água a um poço bem longe da sua propriedade. A forma como Claude Berri nos oferece as viagens de Jean de Florette com a família para trazer água para a sua propriedade é sublime, sendo a fotografia de Bruno Nuttten (que, dois anos mais tarde, irá realizar “Camile Claudel”) profundamente naturalista, evitando a dramatização excessiva do grande plano.
Iremos assim assistir à luta esgotante e infrutífera de uma família em busca dessa água que foi desviada da sua propriedade, uma luta vã, porque também César Soubeyran (Yves Montand), o célebre mentor de Ugolin (Daniel Auteuil), começa a denegrir aquela pacata família na aldeia, falando aos seus conterrâneos desse “corcunda citadino” ex-cobrador de impostos, que não consegue perceber que não há lugar para ele naquele meio.


Com o prolongar da seca e a recusa memorável de Ugolin em emprestar o burro para o transporte de água, Jean de Florette e a família passam a fazer a caminhada a pé, até as forças se esgotarem, mas o proprietário do terreno, apesar da morte dos seus coelhos e da perda das colheitas, não desiste e após diversos estudos decide dinamitar uma zona da propriedade para encontrar a tão desejada nascente, cujos mapas indicam que passa por ali. No entanto, quando se dá a explosão, é atingido por diversas pedras que irão provocar a sua morte.

Esta guerra pela posse da água é-nos retratada por Claude Berri de forma inesquecível, transportando a arte cinematográfica ao seu ponto mais alto, sendo as interpretações dos protagonistas simplesmente memoráveis, veja-se aliás o desespero de Jean de Florette nessa noite em que troveja e a chuva cai para lá das montanhas, mantendo a sua propriedade incólume à preciosa água, na verdade até Deus está contra ele.


Com a morte de Jean de Florette, a sua viúva, sem dinheiro para sobreviver, é obrigada a vender a propriedade por “meia-dúzia de tostões” ao cínico Ugolin, que lamentando o sucedido, confessa estar a comprar aquele terreno acima do seu valor, sendo o dinheiro de César Soubeyran (Yves Montand).

Mas o futuro irá reescrever a história em “Manon des Sources”, a segunda parte da memorável obra literária de Marcel Pagnol.

2 comentários:

  1. Belos os filmes, magnificos os livros (temos em dois volumes!)

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    1. Claude Berry, um cineasta por vezes tão esquecido, oferece-nos a transcrição perfeita para o écran de cinema da célebre obra literária de Marcel Pagnol.
      Boa Tarde

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