terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Barbara Loden – “Wanda”


Barbara Loden – “Wanda”
(EUA – 1971) – (102 min. / Cor)
Barbara Loden, Michael Higgins, Dorothy Shupenes, Peter Shupenes, Jerome Their.

Ao escrevermos sobre cinema procuramos rever obras que, apesar da passagem do tempo, continuam a ter toda a sua luminosidade, mesmo quando essa luz é pálida como a vida da protagonista ou quase invisível como a carreira da cineasta.


Barbara Loden não é propriamente uma estranha para aqueles que amam o universo da Sétima Arte, já que estamos a falar daquela que foi mulher do cineasta Elia Kazan, para o bem e para o mal. Possuidora de uma beleza cativante, começa a sua carreira no mundo da moda, surgindo como capa em muitas revistas, mas aquela loura tinha muito mais para oferecer e será no Teatro que Kazan a irá conhecer e dirigir, oferecendo-se então para a introduzir no mundo do cinema em “Wild River” / “Quando o Rio se Enfurece” (ela é a secretária de Montgomery Clift) e no mais que famoso “Esplendor na Relva” / “Splendor in the Grass” (ela é a irmã de Warren Beatty). Após estas aparições, ela torna-se esposa oficial do cineasta e encenador, mas esse estatuto não lhe irá abrir as portas do cinema como actriz, regressando aos palcos, onde interpreta a célebre peça de Tennesse Williams “Jardim Zoológico de Cristal”, participando também em algumas produções na televisão. Mas será a convivência com Elia Kazan que lhe irá abrir os horizontes da realização. Porém os tempos são outros e todas as portas se fecham aos seus projectos, recorde-se que nessa época o cineasta tinha trocado a câmara pela caneta e dedicava-se à literatura. Começa então a fervilhar na sua cabeça o projecto “Wanda” e com ajuda do marido consegue o financiamento para o filme, que será uma verdadeira pedrada no charco da indiferença.


“Wanda” é simultaneamente o nome da personagem principal e o título do filme, porque o que nasce perante os nossos olhos é a história de uma mulher que perdeu tudo: o emprego, o marido, os filhos e que só deseja partir estrada fora ao encontro dessa encruzilhada da vida que nos reserva um destino. Depois de travarmos conhecimento com a forma como Wanda encara a vida, temos que estar atentos à forma como essa mesma vida é filmada por Nicholas Proferes, que também escreveu o argumento a meias com Barbara Loden e assinou a montagem, num 16 mm onde o grão prolifera, oferecendo-nos de forma perfeita os tons sombrios da vida sem rumo de Wanda. A pouco e pouco vamos assistindo à via-sacra da protagonista, rejeitada por tudo e todos, terminando por oferecer o seu corpo a um gangster de terceira ordem, que depois de ter roubado o dinheiro da caixa de um bar que estava a encerrar, mata o proprietário e descobre depois que não estava só… porque Wanda mais uma vez estava no sítio errado à hora errada.
O pequeno gangster planeia atacar um banco e decide fazer de Wanda a sua cúmplice; ela, a rapariga sem eira nem beira, irá segui-lo e obedecer às suas ordens, só que para sua sorte desta vez irá chegar tarde demais ao local do assalto, conseguindo desta forma salvar a vida para retomar o seu calvário, rumo a um paraíso inexistente.

Barbara Loden e Elia Kazan

O realismo que nos é oferecido neste filme por Barbara Loden (um verdadeiro road-movie do desespero) é de uma lucidez absoluta, todos aqueles personagens, verdadeiros filhos bastardos da vida, surgem perante o nosso olhar em profunda perdição, aqui não há lugar para o politicamente correcto, aqui habitam pessoas de carne e osso sem qualquer luz de esperança ao fundo do túnel. E aqui o único responsável é, na realidade, Barbara Loden que veste a pele da protagonista de forma sublime e filma a dor e a angústia sem qualquer rasgo de esperança, porque o mundo é cruel para os que não se integram na sociedade ou são expulsos por ela.
Barbara Loden, após a feitura de “Wanda”, viu mais uma vez as portas fecharem-se-lhe no rosto, ela era/é uma cineasta inconformada e as feridas que mostrava o seu filme deviam permanecer invisíveis. Por esta mesma razão, o seu projecto seguinte. de passar ao grande écran o romance de Kate Chopin, “The Awakening”, nunca viu nascer a luz do dia. Depois a doença decidiu tomar conta do seu corpo e embora tenha realizado duas curtas-metragens cinco anos depois (“The Frontier Experience” e “The Boy Who Loved Deer”), viria a morrer em 1980 sem nunca ter visto seu filme “Wanda” estreado comercialmente nos Estados Unidos. Descobrir “Wanda” é obrigatório para todos aqueles que gostam de cinema, ao mesmo tempo que prestamos uma justa homenagem a uma cineasta chamada Barbara Loden. Cinema Independente ou Indie mais do que este não HÁ!!!

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