sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Alfred Hitchcock – “Rico e Estranho” / “ Rich and Strange”


Alfred Hitchcock – “Rico e Estranho” / “ Rich and Strange”
(Inglaterra – 1931) – (79 min. - P/B)
Henry Kendall.
Joan Barry, Betty Amann, Percy Marmont.

Todos os grandes cineastas tem a sua obra “menor” e aqui, Alfred Hitchcock, não foge à regra, fruto também da época e das condições em que o filme foi rodado, já que ao longo da película o cineasta irá apontar sempre em diversas direcções, nunca optando por nenhuma em particular, ficando sempre a meio caminho.


Porém, se julgam que não irão encontrar aqui a mão do Mestre do Suspense, estão muito bem enganados, porque logo no plano sequência com que abre o filme, esse escritório quase kafkiano onde trabalha Fred Hill (Henry Kendall), é-nos oferecido desde logo um olhar profundo durante esses segundos que antecipam a chegada do fim de mais um dia de trabalho, assim como a forma como nos é mostrada a saída dos funcionários, depois passamos para essa aventura de Fred que se chama abrir o chapéu-de-chuva, até que mergulhamos com ele no metropolitano e durante essa viagem para casa iremos entrar no território do burlesco.


Ao chegarmos a casa, na companhia do protagonista, conhecemos a sua esposa Emily (Joan Barry) e percebemos de imediato que por ali se vive com algumas dificuldades económicas mas com muito amor.
O desejo de viajar de Fred Hill é um daqueles sonhos constantemente adiados e quase inalcançáveis, até ao momento em que uma carta da sua tia lhe chega às mãos, informando da decisão de lhe enviar antecipadamente o dinheiro da herança a que ele teria direito após a sua morte. De imediato toda a atmosfera daquela casa se transforma e o casal Hill decide partir para Paris. E na cidade das luzes eles irão desfrutar de todos os prazeres mundanos, seguindo depois em cruzeiro para o Oriente, sendo a bordo do navio que toda a intriga, digamos amorosa, se irá desenvolver.

Alfred Hitchcock e Alma Reville
(a sua esposa e colaboradora de uma vida!)

Fred, no início da viagem, irá revelar-se um verdadeiro marinheiro de água doce, sendo invadido de imediato pelo enjoo que o irá perseguir nos primeiros dias, obrigando-o a permanecer na cama e será precisamente durante esse período que Emily irá conhecer um distinto cavalheiro, o comandante Gordon, que lhe irá fazer companhia ao longo da viagem, começando ambos a sentir uma atracção mútua. E aqui, mais uma vez, Alfred Hitchcock vai alterando o registo, consoante os protagonistas, introduzindo uma personagem feminina, que irá andar ao longo da viagem em “caça” de companhia, pontuando com a comédia o possível melodrama.


Começa-se então a desenhar o esboço do adultério, quando Emily e Gordon se beijam na ponte longe dos olhares. Mais tarde, quando Fred regressa à vida do cruzeiro e descobre uma Princesa a bordo, deixa-se fascinar por ela, começando a esquecer-se da mulher, ao mesmo tempo que Gordon (Percy Marmont) se vai aproximando com a máxima diplomacia, percebendo perfeitamente o que se está a passar e nunca revelando a verdadeira identidade da Princesa (Betty Amann) à sua amada. Poderemos dizer assim que o par inicial do filme acaba por arranjar novos parceiros, começando a olhar o presente como uma memória.


Na véspera de chegarem ao seu destino, Singapura, os dados estão lançados e se Fred está disposto a seguir a sua vida com a Princesa, já Emily permanece indecisa em relação ao amor do comandante e mesmo quando este lhe confessa os seus sentimentos, ela decide regressar para o marido para o reconquistar, porque já sabe que a Princesa não passa duma simples aventureira. Enganado e roubado, Fred reconcilia-se com a mulher e decide regressar a Londres, mas a viagem irá correr bastante mal, o navio afunda-se, sendo depois recolhidos por um junco chinês. E aqui Alfred Hitchcock oferece-nos, mais uma vez, a sua mordacidade, porque a comida que os chineses dão a comer aos dois náufragos e que eles adoram é o gato que estava a bordo.
E com o regresso do casal Hill ao seu quotidiano de sempre, nessa Londres escura e chuvosa, termina este “Rich and Strange” / “Rico e Estranho” de Alfred Hitchcock onde a moral “ainda é uma criança”.

Nota: A edição disponível em dvd no nosso país apresenta-se em cópia restaurada.

2 comentários:

  1. Pode ser considerada "obra menor" mas está muito bem feito!

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    1. Há obras menores de uma enorme grandeza e que terminam por fascinar o cinéfilo:)
      Muito Boa Tarde!

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