domingo, 26 de fevereiro de 2017

Alfred Hitchcock – “Número 17” / “Number Seventeen”


Alfred Hitchcock – “Número 17” / “Number Seventeen”
(Inglaterra- 1932) – (63 min - P/B)
Anne Grey, Leon M. Lion, John Stuart, Donald Calthrop, Barry Jones.



Mais uma vez Alfred Hitchcock decide adaptar ao cinema uma peça teatral, compartilhando esse trabalho com a sua esposa Alma Reville, cuja importância ao lado do marido na escrita cinematográfica ainda está por fazer. “Número 17” não esconde as suas origens teatrais, já que a acção se passa em dois locais precisos: a casa abandonada e a perseguição no comboio, sendo de referir o uso de maquetes e miniaturas eléctrica, no segundo local da acção, como antepassados dos actuais efeitos especiais, por sinal bem notórios durante a perseguição, mas que não tiram de forma alguma o valor à arte e engenho conseguidos ao longo do filme por Alfred Hitchcock.


No início da película, numa noite ventosa, descobrimos um chapéu a rodar pelo passeio levado pelo vento que só irá concluir a sua viagem à porta de uma casa que se encontra para alugar, que possui o número 17. A noite já se tinha instalado e quando vemos um vulto a apanhar o chapéu não lhe vemos o rosto. Mas uma luz percorre as diversas janelas do prédio e o homem “curioso” decide entrar para ver o que se passa no seu interior, acabando por encontrar um cadáver e um mendigo (um marinheiro sem barco), que se encontra ali refugiado do frio e da noite.


Desconhecemos a identidade destas três estranhas personagens e só quando surge uma quarta personagem, uma rapariga que cai no interior da casa através de uma abertura no telhado, ficamos a saber que o morto é o seu pai.
Se o mendigo só pretende fugir dali, já o homem enigmático que entrou na casa recusa-se a chamar a polícia, até que lhe batem à porta e surge um casal que, à meia-noite, vem visitar a casa, adensando ainda mais o enigma, já que com eles entra uma outra personagem desconhecida de todos e que irá permanecer no interior da misteriosa casa, ao mesmo tempo que o cadáver desaparece.


Hitchcock, ao não nos fornecer a identidade dos diversos protagonistas, convida-nos a entrar neste jogo de "suspense", obrigando-nos a entrar nele como se fosse uma charada, porque quase todos escondem a sua identidade real e não seremos nós aqui a desvendar o segredo da história porque não há nada como ver o filme, já que está disponível no nosso país uma excelente edição em dvd. Mas não resistimos a dar algumas pistas, porque por aqui existe um polícia, um grupo de ladrões e alguns inocentes.
Durante a primeira parte da película, Alfred Hitchcock joga de forma excelente com as sombras projectadas pelos diversos protagonistas da história, ao andarem no interior da casa sem luz, à luz de velas, num trabalho espantoso do director de fotografia John Cox, onde o expressionismo fica bem patente. Durante a segunda parte do filme nasce a célebre perseguição, por sinal muito pouco ortodoxa em que, num autocarro cheio de passageiros, o detective persegue os ladrões que vão num comboio para apanharem um barco para atravessar o canal da Mancha.


“Número 17” / “Number Seventeen” tratou-se de uma encomenda do British International e Alfred Hitchcock saiu-se muito bem desta adaptação teatral, repare-se que durante a perseguição os diálogos são escassos porque a acção fala por si e a forma como é feita a montagem é reveladora dos intuitos do cineasta, por outro lado Hitchcock não hesita em pontuar com diversos momentos de humor o desenvolvimento da história, ao longo da primeira parte. Por aqui iremos pois descobrir elementos que irão surgir muitos anos depois na obra do cineasta: o morto (Terceiro Tiro), a escada sinónimo de abismo (Vertigo), o comboio (A Desaparecida) e o autocarro (Cortina Rasgada). (Re)descobrir “Número 17” de Alfred Hitchcock é a nossa proposta para hoje, porque nele se encontram todos os elementos que fizeram do cineasta britânico o inconfundível Mestre do Suspense!.

2 comentários:

  1. Respostas
    1. Uma primeira parte teatral e um final repleto de acção e efeitos especiais!
      Uma boa semana!

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