terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Woody Allen – “Match Point”



Woody Allen – "Match Point"
(ING - 2005) – (124 min. / Cor)
Scarlett Johansson, Jonathan Rhys-Meyers, Emily Mortimer, Mathew Goode.

A primeira vez que “encontrei” Woody Allen no écran foi em inícios dos anos setenta (século passado), numa película intitulada simplesmente “Bananas”, num cinema de bairro chamado Jardim Cinema e a sequência inicial do filme ficou para sempre gravada na minha memória: o assassinato em directo de um Presidente de um país da América Latina, uma das tais repúblicas das bananas, também conhecidas na época como o quintal das traseiras dos americanos, transmitido em directo pelas cadeias de televisão para todo o mundo e onde vimos o Presidente a tentar refugiar-se no Palácio e depois a ser morto na escadaria, ao mesmo tempo que um jornalista de uma cadeia de televisão tentava captar as últimas palavras da figura assassinada em directo. A tudo isto assiste, como não podia deixar de ser, uma multidão eufórica aplaudindo e gritando. O filme foi rodado em 1971 e algumas décadas depois, já no século a seguir, os meios de comunicação utilizam fórmulas noticiosas que nos levam a meditar nesta primeira película dirigida por Woody Allen. Nessa tarde dos anos setenta, fixei a cara do actor principal e passei a seguir a sua carreira, tanto como actor quer como cineasta.


Descobri assim em Woody Allen um dos meus cineastas preferidos e nas suas comédias momentos únicos no género, em que as referências e citações muitas vezes se tornavam um jogo perfeitamente maravilhoso. Até ao dia em que o actor nos ofereceu o cineasta que vivia no seu interior e esse dia chamou-se “Interiors” / “Intimidade”. Nunca na minha vida de “Quarteto” encontrara na saída de uma sessão um público tão silencioso, já que estávamos à espera de tudo, mas nunca de uma obra tão densamente Bergmaniana. Depois, a pouco e pouco, começamos a distinguir as películas em que surgia o actor e cineasta, geralmente comédias e as outras em que o cineasta nos oferecia toda a sua magia. Não estamos de forma alguma a menosprezar a comédia, em que obras como “Zelig” ou “Ana e as suas Irmãs” / “Hannah and Her Sisters” são dos momentos mais altos do cineasta, para já não falar de “A Rosa Púrpura do Cairo” / “The Purple Rose of Cairo”, o que pretendemos dizer é que há dois cineastas em Woody Allen, “Setembro” / “September”, Uma Outra Mulher” / “Another Woman” ou “Melinda e Melinda” são exemplos perfeitos da outra face da moeda de Woody Allen.

Também nos habituámos a ver Woody Allen como um dos representantes dessa grande metrópole conhecida como “Big Apple”, aliás em “Annie Hall” vimos bem as suas queixas da vida em Los Angeles. Sendo assim, foi com grande surpresa que todo o mundo ficou a saber do processo de divórcio de Woody Allen e Mia Farrow, que envolvia também uma das filhas adoptivas da actriz e que deu escândalo em tribunal e fora dele. Porém essa atracção fatal de Woody Allen até surgiu retratada no filme menos amado pela crítica “Stardust Memories” / “Recordações” e todos sabemos como muitas vezes a vida do cineasta se projectava no écran. Assim, todos ficámos a saber pela imprensa como era a maravilhosa e horrível vida de Woody Allen e todos nós imaginámos esse momento em que Mia Farrow descobre as tão faladas fotos de nudez da sua filha adoptiva, hoje esposa de Woody Allen. A partir desse momento fomos obrigados a dissociar o homem do cineasta.


A carreira de Woody Allen nunca mais foi a mesma, algumas das suas peças não foram aceites nos teatros e lentamente as portas começaram a fechar-se, ele tornara-se “persona non grata” para as elites nova-iorquinas que, durante anos, cultivaram uma profunda admiração pelos seus filmes, assim é com naturalidade que o vamos encontrar em Inglaterra, depois de uma passagem por Veneza, retomando a sua carreira que nunca mais teve a visibilidade de outrora, até esse momento mágico chamado “Match Point”. E aqui a bola de ténis caiu para o lado do cineasta, que pela primeira vez em muitos anos se refugiou atrás da câmara e nos ofereceu uma espécie de segunda versão de “Crimes e Escapadelas” / “Crimes and Misdemeanors”, no que diz respeito à história entre Martin Landau e Anjelica Huston.  

“Match Point” retrata-nos a ascensão de Chris Wilton (Jonathan Rhys-Meyers), que de instrutor de ténis de origem irlandesa se transforma em marido da filha dos Hewett, uma daquelas entradas na sociedade feita através das aulas dadas a Tom Hewett (Matthew Goode), que o irá apresentar aos pais e à irmã Chloe (Emily Mortimer), proporcionando a esta o encontro com o amor. Imediatamente tudo se conjuga para que Chris entre nos negócios da família, no entanto a namorada de Tom, a americana Nola (Scarlett Johansson) que busca em Londres uma carreira como actriz, irá destabilizar a futura situação matrimonial de Chris, obrigando-o a viver uma vida dupla em família, até ao momento em que tudo se complica e, tal como sucedia em “Crimes e Escapadelas” a solução só pode ser uma. Para chegar a ela terão de ser transpostos imensos obstáculos que se multiplicam à medida que os dias vão passando.



Woody Allen consegue aqui criar um daqueles ambientes perfeitamente trágicos, em que os inocentes são emulados em fogo brando, como se tratassem de cordeiros, uns apesar de tudo ainda conseguirão sobreviver, outros sem culpa formada vão ver o seu destino ser alterado pelas regras do jogo de Chris, que não irá olhar a meios para atingir os seus fins, tendo até o célebre “if/se” a jogar a seu favor, porque nesse simples acto de dor e revolta em que alguém atira fora um anel oferecido, poderá alterar o rumo da vida de alguns, como se fosse uma simples questão de “fumar”, “não fumar” como nos ensinou tão bem Alain Resnais.

Por tudo o que encontramos em “Match Point”, poderemos dizer que Woody Allen regressou ao seu melhor, aliás o célebre golpe de asa deve muito ao brilhante argumento da sua autoria e à forma como ao longo do filme nos mostra as raízes de ambição das diversas personagens, porque todos eles lutam por algo até às últimas consequências. Quanto às interpretações, a forte direcção de actores revela-se um trunfo importante e todos sabemos como por vezes é difícil trabalhar com o Woody Allen cineasta, porque nem tudo o que parece é! “Match Point” termina por ser a película que irá inaugurar um novo ciclo na filmografia de Woody Alllen, representando o regresso do cineasta aos Dias do Cinema!

6 comentários:

  1. Adorei este filme. Não consigo precisar qual é o meu favorito de Woody Allen, mas este está concerteza no top 5. Tenho de o rever. Obrigada pela lembrança :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Gostamos muito deste filme e curiosamente à medida que os anos vão passando por ele, cada vez mais se revela um espelho onde podemos descobrir uma certa sociedade... bem actual.
      Obrigado pela visita e comentário:)

      Eliminar
  2. Excelente esta evocação a vários filmes deste génio.
    Woody Allen é um amor antigo que tenho acompanhado
    desde há muitos anos. Várias obras primas, na minha
    opinião, são sempre inesquecíveis.
    Boa noite.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigado pelo seu amável comentário. Woody Allen possui na sua filmografia inúmeros filmes que permanecem na minha memória como obras intemporais e "Match Point" é precisamente uma delas.
      Bom dia!

      Eliminar