quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Spike Lee – “Infiltrado” / “Inside Man”


Spike Lee – “Infiltrado” / “Inside Man”
(EUA – 2006) – (129 min. / Cor)
Denzel Washington, Clive Owen, Jodie Foster, Christopher Plummer, Willem Dafoe.


Quando em 1986 descobrimos Spike Lee, no cinema Quarteto, nessa obra intitulada “She’s Gotta Have It” realizada com um orçamento mínimo de cerca de 175.000 dollars, originando uma receita de sete milhões, estávamos perante essa época em que o cinema independente começava a dar nas vistas, Jim Jarmusch, Amos Poe, entre outros, destacavam-se como autores e nesta obra de Spike Lee descobrimos uma comédia romântica, num belo preto e branco e com uma banda sonora fabulosa da responsabilidade do seu pai Bill Lee, músico de jazz, que aliás surge no filme tocando o seu instrumento de eleição, o contrabaixo. Trinta anos depois, Spike Lee é um nome incontornável da cinematografia americana. Como curiosidade recorde-se que a produtora de Spike Lee se chama “40 acres & a mule”, referindo-se desta forma à oferta que era dada aos negros americanos, antigos escravos, após a Guerra Civil que devastou a América, para recomeçarem uma nova vida em liberdade.


Pelo caminho nasceram películas como “Do The Right Thing” / “Não Dês Bronca”, onde mais uma vez Spike Lee surge também como intérprete, na personagem do rapaz da pizzaria que irá provocar um motim racial em Brooklyn, esse território de eleição do escritor Paul Auster, oferecendo a Danny Aiello (o dono da pizzaria) uma das suas melhores interpretações de sempre, tendo até sido nomeado para um Oscar. Depois seria a vez de Wesley Snipes brilhar em dois filmes de Spike Lee, “Mo Better Blues” na figura do saxofonista e no fabuloso “Jungle Fever”, ao lado de Annabella Scioora, demonstrando como são difíceis de aceitar as relações amorosas inter-raciais, mesmo quando se possui um certo estatuto na sociedade, oferecendo-nos um retrato apaixonante de dois seres que se amam, apesar da oposição de todos aqueles que rodeiam as suas vidas, seja a família ou os amigos.
Em “Summer of Sam” somos enviados para a época em que um psicopata aterrorizou São Francico no Verão de 1977 e, mais uma vez, ficamos deslumbrados pela forma como a época é retratada, com uma banda sonora fabulosa e as interpretações à beira do medo de John Leguizamo e Mira Sorvino. E nenhum actor se pode queixar da direcção de Spike Lee, que o diga o grande Edward Norton nesse último dia de liberdade de um dealer em a “25ª Hora” ou Denzel Washington, um dos actores mais convocados pelo cineasta, seja ele o célebre “Malcom X” ou o detective de “Infiltrado”.


“Inside Man” é um filme espantoso e desde o início somos confrontados com o assaltante de um banco em Manhattan, Dalton Russell (Clive Owen), que de imediato nos pede toda a atenção para as suas palavras, o relato que ele vai fazer do assalto é profundamente importante, sendo ele próprio a referir essa importância, “oiçam bem as minhas palavras” e assim entramos no coração de mais um assalto na História do Cinema. Só que este é bem diferente de todos os outros e a personagem de Clive Owen faz-nos de imediato recordar a de Kevin Spacey em “Os Suspeitos do Costume” / “The Usual Suspects”, ao mesmo tempo que esta acção espectacular levada a cabo pelo bando se encontra bem distante desse célebre filme de Sidney Lumet “Um Dia de Cão” / “Dog Day Afternoon”, com o espantoso Al Pacino e John Casale; se no filme de Lumet no final Cazale é morto, no interior do carro da polícia, de forma brutal e Pacino preso quando se encontravam à beira do sucesso, aqui o desenlace é perfeitamente assombroso.


“O Infiltrado” relata-nos um assalto eficaz, feito por um bando muito bem organizado e melhor comandado e quando as bombas de fumo são lançadas no interior do banco e as portas fechadas, com a respectiva tomada de reféns, de imediato se dá o cerco da polícia, com a posterior chegada do FBI e do agente Frazier, um Denzel Washington com uma postura brilhante, repare-se na sua forma de andar, a roupa que veste assim como o chapéu que usa, elementos próprios de um universo, lembrando o policia negro de “Noites Escaldantes” / “Body Heat” de Lawrence Lasdan, nessa brilhante homenagem ao “film noir”. Depois conhecemos o dono do banco Arthur Case (o sempre excelente Christopher Plummer), um dos grandes de Wall Street, com um passado a esconder e essa intermediária cínica convocada por ele, a astuta Madeline White (Jodie Foster), que se movimenta nos meios políticos de uma forma assombrosa, porque conhece muitos dos segredos da Administração da cidade, iniciando aqui um jogo de rato e gato, já que ela nunca diz ao detective do FBI tudo o que sabe.
Enquanto decorrem as negociações entre o detective Frazier (Denzel Washington) e Dalton Russell (Clive Owen), apercebemo-nos que os assaltantes não têm pressa, com eles está todo o tempo do mundo e a forma como eles vão lidar com as forças que os cercam, comandados pelo capitão John Darius (Willem Dafoe) é um sinal de que controlam a situação e não estão ali a brincar, repare-se como eles dão a ver a morte de um dos reféns.


Estamos assim perante uma obra cinematográfica que, desde o primeiro minuto, nos agarra à cadeira ao mesmo tempo que vamos acompanhando as diligências efectuadas pelo detective do FBI para pôr cobro ao assalto e Dalton Russell nos prende a atenção com as suas palavras, obrigando-nos a focar todos os sentidos sobre ele, seguindo com toda atenção o seu plano.
“Infiltrado” ou se preferirem “Inside Man”, espantoso título, oferece-nos de uma forma brilhante a anatomia de um assalto e segui-lo é um verdadeiro prazer cinematográfico. Mais uma vez Spike Lee dá-nos uma brilhante obra, conseguindo vinte anos depois de “She’s Gotta Have It” surpreender-nos com a sua forma de trabalhar a matéria cinematográfica no interior de Hollywood. Não é por acaso que ele diz, referindo-se às personagens criadas pela capital do cinema, “a diferença entre as personagens de Hollywood e a minha é que eu sou real”.

2 comentários:

  1. Este tornou-se um dos meus filmes favoritos! Já sabemos como acaba, mas é um prazer ver toda a construção da história!

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