quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Roberto Rossellini – “Viagem a Itália” / “Viaggio in Italia”


Roberto Rossellini – “Viagem a Itália” / “Viaggio in Italia”
(ITA – 1954) – (84 min. - P/B)
Ingrid Bergman, George Sanders, Leslie Daniels, Natalie Ray.

Roberto Rossellini encontrou-se pela primeira vez com Ingrid Bergman no famoso Hotel Jorge V em Paris, ela voara de Londres onde tinha terminado um dos mais mal-amados filmes de Alfred Hitchcock “Under Capricorn” / “Sob o Signo de Capricórnio”, com ela vinha o marido Petter Lindstrom. Muitos dias antes deste encontro, Ingrid Bergman escrevera uma carta ao cineasta italiano que se tornou famosa, já que nela Ingrid oferecia-se de corpo e alma, mas nada melhor do que recordar essas célebres palavras: “vi os seus filmes “Roma Città Aperta” e “Paisà”, de que muito gostei. Caso precise de uma actriz sueca que fala muito bem inglês, que não esqueceu a língua alemã, que não é fluente em francês e que em italiano só sabe dizer “Ti amo” estou pronta a fazer um filme consigo”.


Depois todos sabemos a história desse grande amor que invadiu as páginas de todos os periódicos da época, visto por muitos como o “grande escândalo”, porque Ingrid Bergman iria abandonar a sua carreira em Hollywood, deixando para trás o marido e levando consigo a filha. Para além disto tudo Anna Magnani, a estrela de “Roma Cidade Aberta”, não reagiu da melhor maneira quando os jornais italianos noticiaram a chegada de Ingrid Bergman para fazer um filme com o cineasta italiano, ficando célebre um jantar entre Magnani e Rossellini, no qual esta lhe perguntou a razão porque Ingrid Bergman era esperada em Itália para fazer um filme com ele. Rossellini, ao ver-se entre a espada e a parede, respondeu que não estava ao corrente da notícia, então Anna Magnani pegou na travessa de esparguete e despejou-a no colo do cineasta, saindo de seguida do restaurante. Poderá o leitor perguntar a que vem tudo isto? Simplesmente pela razão que Roberto Rossellini e Ingrid Bergman constituíram uma das mais famosas relações cineasta/actriz da história do cinema, a par daquelas protagonizadas por Antonioni/Monica Vitti, Jean-Luc Godard/Ana Karina ou Ingmar Bergman/Liv Ullmann + Bibi Anderson, oferecendo desta forma das mais belas histórias de amor fora e dentro do écran, tal era o amor oferecido por ambos em cada take dos filmes rodados em conjunto.


Chegamos assim, após esta longa introdução, a “Viagem a Itália” / “Viaggio in Itália”, o derradeiro filme da dupla Roberto Rossellini e Ingrid Bergman, a sua vida conjugal começara a abrir brechas, tal como as dos dois protagonistas do filme Katherine (Ingrid Bergman) e Alexander Joyce (George Sanders, esse grande actor por vezes esquecido por muitos, o verdadeiro “gentleman”, quase sempre a interpretar personagens cínicos, recorde-se a “Eva” / “All About Eve” de Joseph Mankiewicz, e que alguns anos depois de rodar esta obra de Roberto Rossellini se iria suicidar num quarto de hotel em Barcelona, deixando uma carta amarga e triste, sobre o mundo em que vivemos e as pessoas que nele habitam); desculpem o longo parêntesis mas o George Sanders é um enorme actor! depois, logo no início desta viagem a Itália, mais concretamente a Nápoles, depararamo-nos com um “road-movie”, muitos anos antes de eles invadirem o cinema e se ter criado um género, e assim vamos sabendo como aquela relação vive momentos difíceis.


A herança deixada pelo tio Homer ao casal Joyce é uma rica “villa”, que eles decidem vender, porque vivem em Inglaterra e aquele país e as suas gentes nada lhes diz, a pouco e pouco reparamos na incomunicabilidade nascida não só entre o casal como nos habitantes da "villa", não é só um problema de língua, mas também um virar de costas à vida e enquanto Alexander consegue fugir da mulher, a pretexto de jantares com amigos encontrados na noite de Nápoles, convém ler no feminino, já Katherine parte para a sua viagem turística e cultural visitando Museus, o Templo de Appolo, o Vesúvio e Pompeia, ficando por um lado fascinada, caso das estátuas no Museu, por outro perturbada, no Vesúvio, depois ela socorre-se frequentemente dos seus óculos escuros para esconder a sua expressão, salvaguardando a tristeza para si própria.
A forma como Roberto Rossellini nos oferece esta “Viagem a Itália” surge como uma espécie de carta, digamos antes uma derradeira declaração de amor a Ingrid Bergman e nada melhor do que convocar um milagre para melhor expressar o seu desejo.
As discussões constantes entre Katherine e Alexander estão em permanente busca daquela gota de água que faça extravasar a água do copo e ela surge no dia em que ela sai de carro, com ele ainda dormindo, deixando-o refém na “villa”. Ao regressar, a sugestão de divórcio é aflorada sem rodeios, para terminar de vez aquela vida, sem luz e esperança, sendo de imediato aceite.


A decisão estava tomada, partem então para Inglaterra, mas ao atravessarem Nápoles são obrigados a parar devido a uma procissão e quando saem do carro para verem melhor o que se passa, alguém grita Milagre! Separados pela multidão, afastados em sentidos opostos, repentinamente vêm-se perdidos no mundo e de imediato gritam pelo nome um do outro, até se encontrarem de novo e caírem nos braços um do outro, jurando fidelidade e amor para sempre, porque ambos sabem ser impossível viverem separados, descobrindo que o casamento não é feito de guerras, mas sim de cedências e harmonia, em busca desse famoso amor perfeito.
“Viagem a Itália” é uma das obras-primas de Roberto Rossellini e uma profunda declaração de amor do cineasta à mulher que amava, Ingrid Bergman e assim a sua paixão ficou gravada para sempre na História do Cinema, redescobri-la nesta viagem a Itália é a nossa proposta.

2 comentários:

  1. Respostas
    1. Se Ingrid Bergman está perfeita, como sempre, já George Sanders é inesquecível na composição da personagem que interpreta.
      Beijinhos

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