terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Robert Benton – “A Culpa Humana” / “The Human Stain”


Robert Benton – “A Culpa Humana” / “The Human Stain”
(EUA/ALE/FRA – 2003) – (107 min. / Cor)
Anthony Hopkins, Nicole Kidman, Ed Harris, Gary Sinise, Wentworth Miller.

Robert Benton é um cineasta que nunca deixou os seus créditos por mãos alheias e, quando olhamos para a sua obra, percebemos como ele investe nas personagens que cria no écran, fruto desse seu trabalho de argumentista, com que iniciou a carreira na Sétima Arte. Recorde-se que ele é o argumentista de “Bonnie and Clyde” (1967), esse filme charneira de Arthur Penn, que abriu caminho a cineastas como Martin Scorsese.
Curiosamente, a estreia de Robert Benton na realização deu-se com a feitura do “western” “Bad Company”, numa época em que o género se encontrava em revisão ou homenagem, se preferirem, levada a cabo pelos jovens realizadores que então surgiam.


Depois, a carreira de Robert Benton ofereceu-nos obras como “Kramer Contra Kramer” / “Kramer vs. Kramer”, “Places in the Heart” / “Um Lugar no Coração” (brilhante Sally Field), “Nobody’s Fool” / “Vidas Simples” (com um fabuloso elenco) ou “Twilight” (a revisão do “film noir” com o inesquecível Paul Newman), só para referir alguns títulos.
Quando o conhecido Philip Roth escreveu “The Human Stain”, muitos viram nessa obra poderosa um convite a passá-la ao cinema e seria Nicholas Meyer (também ele realizador) que levaria a cabo a tarefa, sendo encarregado Robert Benton de o transpor para o grande écran. Mais uma vez o conhecido escritor norte-americano recorria ao seu personagem Nathan Zuckerman (Gary Sinise), como narrador da história sendo esta personagem, como sabemos, uma espécie de alter-ego de Philip Roth.


“A Culpa Humana” / “The Human Stain” conta-nos a história de Coleman Silk (Anthony Hopkins), Reitor de um Colégio de New England, onde exerce também na disciplina de Estudos Clássicos e que um dia é vítima de um processo disciplinar, acusado de racismo, só porque tinha feito um comentário acerca de dois alunos que nunca vira nas aulas. Estamos assim perante uma vítima do politicamente correcto, porque Coleman Silk, que até nunca vira os alunos, desconhecia que eram ambos negros, tendo estes visto ali uma oportunidade para atacarem o Reitor do Colégio, tornando-se célebres. Curiosamente, Coleman Silk até fora o homem que convidara o primeiro professor afro-americano para exercer funções no seu Colégio, mas mesmo assim esse mesmo colega, na altura decisiva, não o apoia porque o politicamente correcto fala sempre mais alto, infelizmente, como todos sabemos.


Coleman Silk, ao ver-se abandonado por todos os que sempre o rodearam, não encontra outra solução senão demitir-se das funções, ficando desempregado, ao mesmo tempo que a sua esposa não resiste aos acontecimentos e sofre um colapso cardíaco, vindo a falecer. A vida do professor de Estudos Clássicos torna-se uma espécie de morte adiada, até chegar esse momento em que decide procurar o escritor Nathan Zuckerman (Gary Sinise), para lhe contar a sua história, no intuito do escritor a transformar em obra literária, mas no interior da vida de Coleman Silk vive um segredo que ele carrega desde a adolescência, um segredo que ele só irá revelar a essa jovem mulher da limpeza chamada Faunia Lester (Nicole Kidman), que ele conhece um dia na Estação dos Correios, que, tal como ele, também carrega todo o peso do passado nas suas costas.


“The Human Stain” / “A Culpa Humana” é, sem dúvida alguma, um filme profundamente doloroso, que nos agarra desde o primeiro ao último minuto, com um processo narrativo onde o “flash-back” é usado de forma perfeita, contando-nos o passado do jovem Coleman Silk e a luta que ele travou com a sua consciência para sobreviver num mundo imperfeito.
Embora a escolha de Anthony Hopkins tenha gerado alguma controvérsia no interior de alguma crítica cinematográfica, devido à personagem a que dá vida, achamos que ele nos oferece uma das melhores interpretações da sua carreira, da mesma forma que Nicole Kidman nos consegue surpreender com a sua interpretação de forma bem positiva, já Ed Harris e Gary Sinise comprovam mais uma vez os excelentes actores que são, todos eles dirigidos com a habitual eficácia do cineasta Robert Benton.
“A Culpa Humana” / “The Human Stain” é um filme profundamente doloroso e genial, que nos convida à meditação sobre o mundo em que vivemos, ou não fosse ele baseado num livro desse extraordinário escritor chamado Philip Roth.

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