quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Peter Greenaway – “A Ronda da Noite” / “Nightwatching”


Peter Greenaway – "A Ronda da Noite" / "Nightwatching"
(CAN/FRA/ALE/POL/HOL/ING - 2007) – (134 min. / Cor)
Martin Freeman, Emily Holmes, Eva Brithistle, Jodhi Mai.


Peter Greenaway é um dos mais originais cineastas e autores que navegam no firmamento cinematográfico e, embora os tempos estejam bem diferentes, neste século XXI, ele mantem-se fiel aos princípios propostos desde o início da sua carreira, recorde-se que ele é originário do universo pictórico, sendo portanto a pintura um dos mais importantes elementos do seu cinema.
E quando nos recordamos desse verso do grande poeta que dizia “mudam-se os tempos mudam-se as vontades”, percebemos a razão do cineasta permanecer fiel aos seus princípios. “A Ronda da Noite” / “Nightwatching” é a prova provada (que nos desculpem a redundância) disso mesmo. Aqui Peter Greenaway volta a navegar no interior da pintura, mais concretamente revisitando a vida do célebre pintor holandês Rembrant e um dos seus mais famosos quadros, intitulado “Night Watch” / “A Ronda da Noite”, no qual ele denuncia uma conspiração da célebre Milícia dos Mosqueteiros de Amesterdão, havida nesse ano de 1642, onde todos os participantes tinham uma razão obscura, que será iluminada/retratada pela pintura do génio.


Estamos assim perante uma obra que faz a ponte com um dos seus filmes mais célebres, o inesquecível “O Contrato” / “The Draughtman’s Contract”, que nesses saudosos anos oitenta nos revelou um cineasta. Na época muito se escreveu sobre ele e a sua obra, para depois lentamente cair no esquecimento. Tal como em “O Contrato” / “The Draughtman’s Contract”, em que o pintor contratado contava nos seus quadros como se processou um assassinato sendo mais tarde, também ele, vítima do seu desafio artístico, aqui Rembrant, que na época já não possuía a celebridade dos primeiros tempos e lutava com enormes dificuldades económicas, repare-se a forma como a sua mulher Saskia (Eva Brithistle) o convence a aceitar a encomenda da Milícia, será também ele perseguido pela sua visão ou seja o artista usa a sua Arte para denunciar um crime que tinha ficado impune.


Peter Greenaway, após a ruptura com Michael Nyman (o habitual compositor das suas bandas sonoras, que se tornou famoso através da sua colaboração com o cineasta britânico), voltou a possuir nesta película uma espantosa banda sonora da autoria de Wlodzimierz Pawlik, que constrói ao longo do filme uma partitura omnipresente, utilizando os instrumentos de cordas de uma forma redentora, pontuando o filme como se fosse também ele um pintor.
Por outro lado a fotografia, esse “must” eterno da obra do cineasta, revela-nos Reiner von Brurmmelen, que iniciou a sua colaboração com o cineasta em “8 ½ Women”, seguindo as pisadas desse grande Mestre da fotografia chamado Sacha Vierny, outro dos habituais colaboradores de Peter Greenaway. Reparem como Brurmmelen usa a luz de uma forma maravilhosa e depois há sempre esses “travellings”, que nos fascinam, símbolo mais-que-perfeito da assinatura do cineasta.


Mal surgem as primeiras imagens de “A Ronda da Noite” / “Nightwatching” no écran, verificamos de imediato que estamos perante um filme de Peter Greenaway e, depois, só nos resta mergulhar serenamente na sua Arte e acompanhar a vida do célebre pintor holandês.
Redescobrir esta obra de Peter Greenaway é mergulhar num universo de luz e cor, onde o medo e o amor do artista andam de mãos dadas, em busca da salvação da sua Arte. Descobrir “Nightwatching” / “A Ronda da Noite” representa o mergulho perfeito num cinema que, infelizmente, se tornou cada vez mais invisível para todos nós.


Peter Greenaway

Nota: O filme teve edição em DVD no nosso país e oferece-nos uns excelentes extras, sobre o cineasta, o filme e o célebre pintor.

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