sábado, 28 de janeiro de 2017

Pascale Ferran – “Lady Chatterley” / “Lady Chatterley et l’Homme des Bois”


Pascale Ferran – “Lady Chatterley” / “Lady Chatterley et l’Homme des Bois”
(FRANÇA - 2006) – (168min. / Cor)
Marina Hands, Hippolyte Girardot, Jean-Louis Coullo’ch, Helene Alexandridis.

Todos aqueles que gostam de Literatura já leram D.H. Lawrence, os seus romances, contos e novelas. De todos eles o mais lido será “O Amante de Lady Chatterley” que, na época da sua publicação, transportou o escândalo nas suas páginas, embora elas respirassem genialidade por todos os poros e como não podia deixar de ser o cinema decidiu adaptar o livro, embora muitas vezes o que interessava aos cineastas fosse o seu conteúdo erótico, enquanto o conteúdo mais romanesco era esquecido. Porém a cineasta francesa Pascale Ferran decidiu na sua leitura olhar o lado naturalista do romance e recorde-se que D. H. Lawrence escreveu três versões do romance, tendo Pascale optado por levar à tela a segunda versão do livro.


Quando olhamos a relação que a Sétima Arte tem tido com a obra de D. H. Lawrence, encontramos em “Mulheres Apaixonadas” / “Women in Love” um excelente retrato desta obra, por vezes esquecida e que revelou ser o melhor filme de Ken Russell, muito em voga nos anos setenta. Na película o quarteto era constituído por Alan Bates, Oliver Reed, Glenda Jackson e Jennie Lindon e embora datado de 1970, só o vimos por cá em meados de setenta, num verão dito quente. E, curiosamente, Ken Russell nos anos noventa irá levar ao pequeno écran “O Amante de Lady Chatterley” com Joely Richardson (a outra filha da Vanessa Redgrave) e Sean Bean (ainda longe de sonhar com “O Senhor dos Anéis”). Nesta obra, que até passou na RTP, o cineasta britânico mantinha-se fiel às características do seu cinema, embora não caindo na tentação. O mesmo não se poderá dizer de uma adaptação feita por Just Jaeckin (o nome diz tudo) com a Sylvia Kristel a explorar terrenos bem conhecidos na época (anos oitenta, do século XX).


Regressemos então ao filme de Pascale Ferran, para contar um pouco o percurso da sua visão da obra de D. H. Lawrence: recusado em Cannes, recusado em Veneza e por fim apresentado em Berlim (e aqui muitos ficaram espantados com a obra), depois foi o lançamento comercial nas salas e a rendição da crítica perante uma obra onde o naturalismo é personagem, recebeu cinco Césares (o equivalente aos Oscars em França): para melhor filme, melhor realização, melhor actriz principal, melhor argumento e melhor guarda-roupa, para além de ter recebido os prémios Louis Delluc e Lumiére e por fim, em Nova Iorque, no Tribeca Film Festival (de Robert de Niro) Marina Hands recebe o prémio de melhor actriz.


Perante um reconhecimento destes, o leitor certamente já não estará “de pé atrás” em relação a esta adaptação de “Lady Chatterley” e faz muito bem porque, na verdade, estamos perante um filme surpreendente, já que a adaptação cinematográfica é de uma espantosa fidelidade ao romance, ao mesmo tempo que o seu naturalismo nos faz recordar essa obra espantosa de Jean Renoir “Passeio ao Campo” / “Le Déjeuner sur l’herbe”, enquanto por outro lado a forma como se instala a voz do narrador surge como uma referência directa a François Truffaut e ao seu amor pelo Cinema e a Literatura.
Por outro lado, a forma como a fotografia de Julien Hirsch navega pelos bosques é de uma beleza absoluta, acompanhando os passeios de Lady Chatterley (Marina Hands) por estes e sentimos o respirar da natureza à passagem da personagem em busca da tranquilidade desejada: nunca o silêncio foi tão belo. Depois a forma como nos é apresentado o Couteiro, rude mas tímido, perante a presença da Lady é de uma sensibilidade profundamente feminina (a que não é alheia Pascale Ferran), repare-se no ritual do chá e na forma como ele evita o olhar dela enquanto arranja uma capoeira e na forma como se lhe dirige.


Depois, como todos sabemos, nasce o desejo e ele é-nos retratado de forma tímida mas carnal, onde o inicial jogo de sombras iluminando a timidez irá dar lugar a esse momento único de libertação do corpo perante a chuva que cai e durante o período que decorre desde o primeiro encontro até à despedida, vamos acompanhando o crescimento de Lady Chatterley, até atingir a maturidade, quando ao regressar das férias sabe que o Couteiro está de partida. Mais uma vez Pascale Ferran nos surpreende na forma como nos oferece a emoção dos sentimentos, porque aqui não vamos estar na perda de um amor, mas sim na ausência física desse mesmo amor, embora ele permaneça para sempre na memória de Lady Chatterley.

4 comentários:

  1. Tão belo! Uma abordagem magnífica do livro!

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    1. A Literatura só pode agradecer ao Cinema esta magnifica adaptação cinematográfica!
      Bom domingo"

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  2. Respostas
    1. Confesso que foi um maravilhosa surpresa quando o descobri numa sala de cinema.
      Obrigado pela visita e comentário
      Boa Tarde!

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