quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Mike Newell – “O Amor nos Temos de Cólera” / “Love in the Time of Cholera”


Mike Newell – “O Amor nos Temos de Cólera” / “Love in the Time of Cholera”
(EUA - 2007) – (139 min. / Cor)
Javier Bardem, Giovanna Mezzogiorno, Benjamin Bratt, John Leguizamo.

Quando o cinema se lança na adaptação das grandes obras literárias corre, muitas vezes, enormes riscos e são poucos os casos em que o sucesso sorri aos responsáveis pela respectiva adaptação, já para não falar nessas obras-primas da literatura impossíveis de se adaptar ao cinema. No entanto, há casos em que todos são vencedores. E temos como excelente exemplo o caso de “Debaixo do Vulcão” / “Under the Volcano”, romance de Malcolm Lowry, que John Huston levou ao grande écran de forma perfeita.


Como todos sabemos “O Amor nos Tempos de Cólera” é um dos mais belos romances da literatura latino-americana, a par dessa obra intitulada “Cem Anos de Solidão”, ambos escritos por Gabriel Garcia Marquez. E ao falarmos deste grande escritor também não nos podemos esquecer desse outro grande escritor que é Mário Vargas Llosa que, em tempos, viu adaptado ao cinema essa obra maravilhosa intitulada “A Tia Júlia e o Escrevedor”. Adaptação essa que foi um profundo desastre, não devido aos excelentes actores do filme, mas sim ao argumentista(s) que decidiu substituir os argentinos por albaneses, quem leu o livro e viu o filme sabe do que falo (receio de um conflito diplomático, por parte dos Estúdios?!).


E se fomos buscar “A Tia Júlia” foi pelas simples razão de adorarmos esta obra com a mesma intensidade de “O Amor nos Tempos de Cólera”.
Ora passar para o grande écran o romance de Gabriel Garcia Marquez revelou-se uma aventura perigosa, embora Mike Newell seja um cineasta de grande saber, para tal basta recordar “Viagem Sentimental” / “Enchanted April” para estarmos cientes do seu valor, mas a forma como foi talhado o argumento acabou por conduzir o amor de Florentino Ariza (Javier Bardem) e Fermina Urbino (Giovanna Mezzogiorno) a um beco sem saída e não a essa avenida do grande romance por que todos esperávamos.


O romance de Gabriel Garcia Marquez conta-nos a paixão de Florentino Ariza por Fermina Daza, paixão essa que irá sobreviver à passagem do tempo, ao longo de cinquenta anos de uma longa espera, porque o pai de Fermina pretende que a filha se case com um bom partido, que será encontrado na figura do Dr. Juvenal Urbino. Desse casamento irão nascer cinco filhos mas Florentino, apesar da passagem dos anos, nunca irá desistir do seu amor, numa época em que a cólera dominava Cartagena e inundava de dor e morte a cidade.
O escritor colombiano oferece-nos um retrato maravilhoso desta história de amor no seu famoso livro. Por esta razão, se não conhece o livro, veja o filme primeiro e depois leia o romance, no final deste percurso irá certamente meditar em como são tortuosos os caminhos dos argumentos cinematográficos nascidos das grandes obras literárias.


Se a primeira parte do filme, abordando o período da juventude do jovem Florentino Ariza, está perfeita, já o período seguinte nos parece demasiado curto, apostando o argumentista em nos ilustrar apenas as diversas aventuras amorosas do protagonista e não em nos oferecer essa paixão que o irá consumir ao longo de uma vida, dedicando a última bobine da película ao encontro final de Florentino e Fermina, após a morte de Juvenal Urbino (Benjamin Bratt).
No final do filme ficamos com a sensação de que os Estúdios tiveram medo de apostar num filme de três horas onde seria possível rever esta obra espantosa de Gabriel Garcia Marquez em todas as suas vertentes e basta (re)ler o romance para vermos as opções do argumentista.


Mais uma vez Javier Bardem não deixa os seus créditos por mãos alheias e a direcção de actores está perfeita, Mike Newell sabe do assunto, já o argumento revelou-se desastroso devido às opções de Ronald Harwood.
Tentar imaginar este filme tendo como realizador John Huston (1) é o exercício cinéfilo que lhe propomos caro leitor.

(1) - Basta recordar a sua última obra, o espantoso “Gente de Dublin”, a adaptação cinematográfica de “The Dead” de James Joyce.

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